Apresentaram-no nas notícias, hoje de manhã.
Achei que era apropriado.
Sem mais comentários
Este vídeo fala por si.
Não deixes de ver!
E boas entradas em 2011:)
VAS-Y, ACCOUCHE! tem em si um duplo sentido: "accoucher" (parir, dar à luz) e "accoucher" (desembucha, fala).O Homem, quer ele queira quer não, é um animal como os outros, uma criatura da Natureza. Deve melhorar -pois que tem a faculdade de o fazer- a sua natureza, sem pôr em causa a natureza das coisas. Sou pelos valores da Monarquia, pelo Parto Activo e pela Amamentação. Em nome dos nossos filhos.
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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
DIZ-ME QUEM TU SEGUES, DIR-TE-EI QUEM ÉS!
Adolf Hitler, ninguém o duvida, era um louco.
Richard Gardner, caso não o saibais, também o foi.
Dizem que o primeiro se suicidou.
Fez ele muito bem.
O segundo, sabemo-lo, acabou com a vida.
Também não faz falta.
Porém, ainda há quem siga cegamente os ideais de Hitler.
Outros, não menos loucos, fiam-se nas teorias de Gardner.
Há os que ainda dizem "Heil Hitler!"
Outros que tais dizem "Heil Gardner!"
Pouca diferença faz.
Se os segues, forçosamente és um deles.
Espero que não seja o teu caso.
O QUE ELES DISSERAM, ESSES LOUCOS:
"Toda a propaganda tem que ser popular e acomodar-se à compreensão do menos inteligente dentre aqueles que pretende atingir" (ADOLF HITLER)
Richard Gardner, caso não o saibais, também o foi.
Dizem que o primeiro se suicidou.
Fez ele muito bem.
O segundo, sabemo-lo, acabou com a vida.
Também não faz falta.
Porém, ainda há quem siga cegamente os ideais de Hitler.
Outros, não menos loucos, fiam-se nas teorias de Gardner.
Há os que ainda dizem "Heil Hitler!"
Outros que tais dizem "Heil Gardner!"
Pouca diferença faz.
Se os segues, forçosamente és um deles.
Espero que não seja o teu caso.
O QUE ELES DISSERAM, ESSES LOUCOS:
"Toda a propaganda tem que ser popular e acomodar-se à compreensão do menos inteligente dentre aqueles que pretende atingir" (ADOLF HITLER)
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
A NOSSA ÂNCORA: ASSOCIAÇÃO DE APOIO A PAIS EM LUTO
Li há dias um post num blog que tenho vindo a seguir de uma mãe que perdeu o seu menino. Não sei em que circunstâncias nem em que idade, mas tudo me leva a crer que era ainda bébé.
É impressionante ver como esta mãe, que perdeu uma parte de si, se diz fortalecida na dor.
Não sei se porventura terá tido algum tipo de apoio, mas vejo-a percorrer a vida com uma força sobre-humana, que a nós se assemelha difícil de alcançar.
Admiro sem dúvida estes pais, particularmente as mães. Não desfazendo a dor de um pai, é certo que a dor de uma mãe tem sempre uma outra dimensão.
Seja como for, é importante que um ofereça o seu apoio ao outro, e que juntos prossigam da melhor forma o seu caminho, guiados por uma estrela que lhes é muito especial.
Na busca pelo assunto, eis que vim dar de novo à informação de uma associação que era já do meu conhecimento: a Associação A NOSSA ÂNCORA, uma associação de apoio a pais em luto.
Não sei se ainda continua em actividade. Se assim for, é de todo o interesse que esta associação se faça conhecida, particularmente dos pais que acabam de perder um filho, e mesmo de pais que já o perderam há alguma tempo, mas ainda não conseguem lidar com a dor (porque ainda não fizeram o luto) ou que queiram partilhar a sua experiência com outros pais.
Talvez esta mãe de que vos falei a conheça, talvez não. O seu contributo é certamente valioso.
Evidentemente, sendo, pelo que li, uma associação que conta com o voluntariado, necessita de todo o apoio que possam dar para continuar a existir. Não vi em parte alguma nenhum pedido de ajuda nesse sentido -pelo menos não no ano que decorre- nem sei mesmo como se encontra a sua situação.
Trago-vos este texto que retirei do seu site:
Há muitos dias no ano que são ocasiões muito especiais para os pais em luto. O aniversário de nascimento e da morte do seu filho ou filha, o Natal, o Dia do Pai ou Dia da Mãe, os dias de Todos os Santos e Ano Novo, aniversários onde se junta a família e tantos outros, trazem à memória saudosas recordações do passado e a perda de celebrações futuras.
"O nosso filho poderia ser ... hoje"
Escrever um poema, uma carta ou uma memória sobre o vosso filho ou filha, nestas ocasiões especiais, pode ser uma boa terapia, para a fragilidade e a vulnerabilidade em que se encontram.
Continuar a recordar não é loucura nem morbidez mas sim sentimentos que têm de vir à superfície para continuarem equilibrados, sãos de corpo e de espírito. O caminho tem de ser percorrido com dor, raiva, negação e, por fim, aceitação e as recordações fazem parte desse percurso. É chorando mas também sorrindo a essas recordações que se aprende, conscientemente, a unir o passado no presente e de projectar o presente no futuro.
Dar sentido à vida após a morte de um filho ou filha é muito difícil. Ser perseverante no querer transportar a vivência passada com eles é humano. Que as recordações não sejam um peso mas sim um orgulho muito terno de os terem conhecido e amado, amor esse que nunca será finito.
A coragem da reconciliação com a Vida, amar tudo o que se viveu, o querer da mente de continuar a absorver o que existe, a liberdade de viver o quotidiano é prosseguir amando um todo. Assim podem lembrar, chorar mas também sorrir olhando com Esperança o Amanhã.
FONTE: http://www.anossaancora.org/
[link=http://www.recados-animados.com]
[/link]
[b]Mais recados? http://www.recados-animados.com[/b]
Lê, e assina a petição:
MAIS CUIDADOS MATERNAIS, POR UM FUTURO MELHOR
http://www.peticaopublica.com/?pi=P2010N1300
Visita o blog da Kristininha:
http://kristininhanacozinha.blogspot.com
É impressionante ver como esta mãe, que perdeu uma parte de si, se diz fortalecida na dor.
Não sei se porventura terá tido algum tipo de apoio, mas vejo-a percorrer a vida com uma força sobre-humana, que a nós se assemelha difícil de alcançar.
Admiro sem dúvida estes pais, particularmente as mães. Não desfazendo a dor de um pai, é certo que a dor de uma mãe tem sempre uma outra dimensão.
Seja como for, é importante que um ofereça o seu apoio ao outro, e que juntos prossigam da melhor forma o seu caminho, guiados por uma estrela que lhes é muito especial.
Na busca pelo assunto, eis que vim dar de novo à informação de uma associação que era já do meu conhecimento: a Associação A NOSSA ÂNCORA, uma associação de apoio a pais em luto.
Não sei se ainda continua em actividade. Se assim for, é de todo o interesse que esta associação se faça conhecida, particularmente dos pais que acabam de perder um filho, e mesmo de pais que já o perderam há alguma tempo, mas ainda não conseguem lidar com a dor (porque ainda não fizeram o luto) ou que queiram partilhar a sua experiência com outros pais.
Talvez esta mãe de que vos falei a conheça, talvez não. O seu contributo é certamente valioso.
Evidentemente, sendo, pelo que li, uma associação que conta com o voluntariado, necessita de todo o apoio que possam dar para continuar a existir. Não vi em parte alguma nenhum pedido de ajuda nesse sentido -pelo menos não no ano que decorre- nem sei mesmo como se encontra a sua situação.
Trago-vos este texto que retirei do seu site:
Há muitos dias no ano que são ocasiões muito especiais para os pais em luto. O aniversário de nascimento e da morte do seu filho ou filha, o Natal, o Dia do Pai ou Dia da Mãe, os dias de Todos os Santos e Ano Novo, aniversários onde se junta a família e tantos outros, trazem à memória saudosas recordações do passado e a perda de celebrações futuras.
"O nosso filho poderia ser ... hoje"
Escrever um poema, uma carta ou uma memória sobre o vosso filho ou filha, nestas ocasiões especiais, pode ser uma boa terapia, para a fragilidade e a vulnerabilidade em que se encontram.
Continuar a recordar não é loucura nem morbidez mas sim sentimentos que têm de vir à superfície para continuarem equilibrados, sãos de corpo e de espírito. O caminho tem de ser percorrido com dor, raiva, negação e, por fim, aceitação e as recordações fazem parte desse percurso. É chorando mas também sorrindo a essas recordações que se aprende, conscientemente, a unir o passado no presente e de projectar o presente no futuro.
Dar sentido à vida após a morte de um filho ou filha é muito difícil. Ser perseverante no querer transportar a vivência passada com eles é humano. Que as recordações não sejam um peso mas sim um orgulho muito terno de os terem conhecido e amado, amor esse que nunca será finito.
A coragem da reconciliação com a Vida, amar tudo o que se viveu, o querer da mente de continuar a absorver o que existe, a liberdade de viver o quotidiano é prosseguir amando um todo. Assim podem lembrar, chorar mas também sorrir olhando com Esperança o Amanhã.
FONTE: http://www.anossaancora.org/
[link=http://www.recados-animados.com]
[/link]
[b]Mais recados? http://www.recados-animados.com[/b]
Lê, e assina a petição:
MAIS CUIDADOS MATERNAIS, POR UM FUTURO MELHOR
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domingo, 21 de novembro de 2010
NO PRINCÍPIO ERA A MÃE. O PAI VEIO DEPOIS (PARTE II)
Trouxe-vos estes três casos, para que vejais a diferença entre os sentimentos que assaltam uma mãe e os que assaltam um pai.
PRIMEIRO CASO:
Sou uma mulher casada. Aliás, bem casada. Eu e meu marido nos amamos, respeitamos muito um ao outro.
O problema é comigo, doutor, e nada tem a ver com o casamento, embora meu sofrimento esteja afetando minha relação conjugal, principalmente no que diz respeito ao sexo. Coisa que não havia antes, porque sempre gostamos de fazer sexo um com o outro.
Há pouco mais de um ano, tivemos nosso primeiro e único filho. Menino bonito e saudável, muito comunicativo. Algo estranho vem acontecendo comigo, pois de quatro meses para cá, venho me distanciando de tudo, não sou mais a mesma na minha profissão, nos relacionamentos, e com meu marido que tanto amo. Uma espécie de frieza vem tomando conta de minha vida.
Comecei a ficar mal quando meu filho passou a gostar de outras coisas além de meus cuidados, como sair com a babá, aceitar bem ir para a creche, gostar de frequentar a pracinha com outras crianças, ou seja, coisas boas, saudáveis. Não sou doida, sei, do fundo do meu coração, que tudo isto é muito bom para ele, é o que se espera para filhos.
De início, comecei a me irritar, eu ficava com raiva, com ódio, porque eu via que ele já não necessitava mais de mim, e isto começou a me entristecer. Senti que fiquei sem lugar, perdida, que não tinha mais importância para ele. Tudo caiu por terra, vivo numa completa falta de ânimo, doutor.
Por vezes me ocorreu estar me sentindo traída por este filho que coloquei no mundo, e que amo tanto. O sentimento que não me sai da cabeça é que fui enganada.
Tenho vergonha de conversar com meu marido sobre os meus sentimentos, digo sempre que logo irá passar. Sempre fui uma mulher forte, enfrentava os problemas de frente. Agora, sinto-me desvitalizada, sem forças para continuar. É normal uma mãe pensar que foi enganada pelo filho que já não precisa mais tanto dela? Estou com medo de mim mesma. Obrigada.
Filhos bons e bacanas!
Como compreender que uma mãe sofra ao ver o filho dar os primeiros passos na vida rumo ao melhor? Uma mãe que se sente traída porque seu filho caminha em direção a uma vida que é a dele, que estabelece um movimento de independência, fundamental para todos desta família que se inicia? Isto é normal ou patológico? Nada disto, trata-se de uma questão ética!
Você deve conversar com seu marido. Fale com ele sobre o que está se passando, de seus sentimentos, de suas tristezas, de sua dor. Não esconda nada, tome-o com cúmplice, diga a ele sobre a seriedade da questão, pois você está se deprimindo e isto pode se agravar mais ainda.
Procure uma ajuda especializada, pois você precisa falar com alguém que a escute sobre as razões de seu sofrimento, em relação à separação de seu filho. Não minimize este fato. Dê crédito ao que você está sofrendo, fale a partir daí, que é de onde nasce uma verdade sobre o teu desejo. Diga-se, um desejo desencontrado que pede por uma leitura, para que você possa se libertar das amarras da tua dor. Depressão significa isto: que, por alguma razão que lhe é desconhecida, o sujeito não quer aquilo que deseja. Você não está conseguindo?
De todo modo, você se apresenta como uma mãe que se ressente quando vê, com seus próprios olhos, seu filho indo pra encontrar sua própria vida. Por alguma razão, ela não está podendo ver que este filho, ao se separar, carrega dentro de si algo desta mãe, alguma coisa que fala de um grande gesto de amor.
Observa-se que há crianças mais soltas, mais seguras de si. Outras, não, são frágeis, apresentam dificuldades frente à vida, permanecem dependentes, grudados em seus pais.
Qual é o fator determinante? O que possibilita o bom amadurecimento de uma criança, de um adolescente? O que é, então, necessário para que filhos se soltem, se desgarrem e se tornem independentes? Que pais possam provocar uma separação necessária em relação a seus filhos. É o que se espera.
Um filho, uma filha, avança na vida se realmente os pais conseguem tombar do lugar de pais idealizados. Isto tem um nome, e é o que decide o futuro de cada filho, para o melhor ou para o pior: luto! Ou seja, pais podendo faltar nas relações com seus filhos, mesmo estando presentes.
Pais devem saber tombar deste lugar de pais idealizados para os filhos. Há que se construir o luto dos filhos, da infância, tão querida, tão amada – e isso está para pais e filhos - para que filhos venham, por sua vez, a construir o luto destes pais. Vale dizer, o luto é uma separação, uma boa separação, uma separação que não deve ser contaminada nem de remorso, nem de abandono, nem de desesperança!
Para que um filho ou uma filha alcance uma vida mais saudável, é preciso que se estabeleça uma separação que não seja conturbada, ressentida. O tombamento dos pais cauciona uma liberdade dos filhos. Por isso mesmo é preciso se separar dos pais, que cresçam, e que tenham espaço no sentido de alçarem seus próprios voos. É a confiança dos pais que inaugura a liberdade de ir e vir dos filhos.
Muitas vezes, há dúvidas: mas, será que pais querem verdadeiramente filhos soltos, ou os querem sob suas asas, como se fossem crias inseparáveis de si mesmos? A atualidade tem mostrado que, mais e mais, pais têm dificuldades de se separarem de filhos.
Na experiência analítica, observa-se que mães carregam sentimentos de traição em relação ao filho que começa ter sua vida própria. Isto é razoável, porque durante algum tempo um filho habita o mais íntimo de seu ser, mora dentro dela, respira suas entranhas. Portanto, são fantasias legítimas, fantasias de mãe.
Pode acontecer que estes pensamentos não venham à tona, não são pensados, verbalizados, colocados em palavras, mas sim agidos, atuados pela mãe. Nestas situações, filhos pagam a conta, carregam em suas cabeças distúrbios que são vividos como sentimentos de culpa, que vigem por debaixo das supostas dependências afetivas, drogas, cigarros, bebidas. “Ora, meu Deus, mas eu coloquei este filho no mundo e agora ele não necessita mais de mim? Não posso acreditar, ele era eu mesma, tornando-se um pedaço de mim, em mim mesma, eu o carreguei dentro de mim, fazendo parte de meu corpo, nutrindo-o de mim, do mais íntimo de meu ser”. Não é, no mínimo, estranho e paradoxal?
Sentimentos de pai, não são os mesmos que aqueles de mãe. Pai se protege muito mais das dores de uma separação. Mãe, não! Mãe é um constante vulcão em atividade. Uma mãe carrega seu fogo ardente, numa constante ebulição. Por isto mesmo, somente uma mãe, pode sentir sentimentos tão paradoxais quanto os seus, sentir-se traída pelo próprio filho!
Você, como a maioria das mães, quer um filho feliz, solto, desprendido. Uma mãe sempre quer o bem de seu filho. Mas, então, que diabo de sentimento é este que caminha no sentido oposto, diverso, contrariando todas as expectativas de um bom senso materno? Ficar triste, justo porque seu filho vai para a vida, cheio de confiança e alegria de viver! Ah! Mas que coisa, meu Deus, como a cabeça humana é feita de nós que dificultam qualquer entendimento racional! Mas este movimento de um progresso de seu filho implica que haja, realmente, numa boa separação, uma separação que é necessária para que a criança se constitua como sujeito, que tenha um futuro saudável. O problema é que, por alguma razão da sua história, você está interpretando o desprendimento de seu filho como um abandono, se fazendo abandonar. Traída!
O sentir-se traída, por si só fala de uma incongruência lógica, de uma quebra da razão reflexiva. O nascimento deste filho reacendeu um traço de sua infância, algo adormecido, que remete àquela menina que você teria sido no desejo de sua mãe, uma criança aprisionada ao desejo da mãe. Vale dizer, sua mãe não se separou de você, num certo sentido há uma fusão das duas, dentro de você mesma, em seu inconsciente. Aceitar de bom grado a separação de seu filho é poder trair o desejo desta mãe, que vive encarnado, em sua vida psíquica.
Tome este sofrimento como uma boa questão, tire ensinamentos dele, a partir dele, pois você tem o que falar sobre sua infância. Tudo está adormecido, esquecido, guardado carinhosamente, a sete chaves, no cofrinho de seus segredos de criança. A criança que te habita pede para falar, por isso seu sofrimento, sua mágoa, seu sentimento de tristeza, que leva você a sentir-se traída.
SEGUNDO CASO:
Estou perdido em relação à educação de meu filho. Sou casado há seis anos e temos um menino de 3 anos de idade que transformou minha vida num verdadeiro inferno. Sei que o problema não está nele, mas em mim. Ou nos dois, sei lá!
Conversei com alguns amigos, professores e especialistas sobre a minha questão com este filho e todos foram unânimes: isto é coisa de filho único. Eu e minha esposa decidimos ter somente um filho. Foi uma decisão consciente, bem pensada, muito discutida. Somos médicos e trabalhamos muito. Somos muito bem realizados profissionalmente.
Dirijo-me a você para pedir ajuda. Não consigo agir como pai, o pai que eu imaginava ser para meu filho. Estou sem rumo, sem saber o que fazer. Sei que violência não adianta, jamais faria isso. Vivo tenso, nervoso, irritado e sem paciência com meu filho. Não consigo funcionar como autoridade junto a ele. Meto os pés pelas mãos, me atrapalho todo, acabo cedendo. Para ser sincero, estou sem saber como me posicionar: este filho não me obedece, vai contra tudo que eu digo, e agora deu para me peitar. A coisa chega a tal ponto que nós dois parecemos dois irmãos!
Sinto-me envergonhado de dizer, mas observo que a cada dia eu vou ficando sem lugar dentro de casa. Ele tem ocupado cada vez mais o meu território, vou ficando de fora, até mesmo com minha esposa.
Veja a que ponto as coisas chegaram: sou flamenguista doente, toda minha família torce para o Flamengo, isso faz parte da mim história e vem de algumas gerações. Para me sacanear, recentemente ele deu para torcer para o Botafogo, que é o time do meu sogro, meus cunhados, ou seja, do lado da família materna. Eu sei que é para me tirar do sério, bater de frente comigo. O que fazer?
Aprendi que não devo intervir, que devo deixá-lo à vontade nas suas escolhas.
Mesmo antes de ele nascer, eu já me preocupava: como iria agir, como me comportar, como dar bons exemplos? Lia livros que procuram explicar como ser um bom pai. Frequentei cursos e palestras sobre como educar filhos e de nada adiantou. A ênfase estava colocada na importância de colocar limites. Mas, é justamente o que não consigo fazer, pois fico com pena dele. Tudo soa como algo frouxo! Sempre fui um bom filho: obediente, cumpria minhas obrigações, estudava até demais e respeitava os limites. A voz do meu pai era lei para todos dentro de casa. Bastava um olhar e lá estava eu obedecendo o que era determinado por ele e por minha mãe. Parece que não tenho voz dentro de casa.
Meu filho agora deu para dizer que está com medo à noite e não consegue dormir sozinho em seu quarto. Com isso, ele se enfia na nossa cama e dorme no meio do casal. Eu e minha mulher não temos mais intimidade alguma. Procuro de todas as maneiras seguir à risca o que seria um bom pai. Dou amor e carinho até demais, faço tudo que ele me pede, mas não consigo colocar ordem, limites, ou seja, não consigo ser pai. Nunca bati no meu filho, embora sentisse vontade de dar uns cascudos nele. No início eu contava até dez para não bater. Agora já estou contando até cinquenta. Tornei-me dependente de seus caprichos e de suas tiranias. O que fazer?
César Augusto Pontual
Como ser um bom pai?
Uma história interessante, no mínimo fenomenal, pois retrata com o máximo de fidelidade o que se passa nos bastidores de uma família. Vejam como estamos em relação aos nossos filhos: somos verdadeiros reféns de seus caprichos pelo viés da culpa. Meu Deus!
Quando um pai adormece e não ocupa efetivamente seu lugar de lei, o filho toma conta do seu território, fazendo casal com a mãe. Uma luta de prestígio, de vida e de morte? Uma verdadeira disputa em torno de um mesmo objeto: a mãe.
Meu caro, nunca queira ser um bom pai para seu filho. Aliás, nunca queira ser o pai. Simplesmente deixa-te ser o pai que você é, o pai que você pode ser em sua autenticidade, nada mais que isto! Ocupe este lugar que lhe é oferecido pela mulher que está na origem desta criança. Isso não é pouco, isso não é fácil. Corra, ande logo, porque senão seu filho chegará primeiro. Ah, seu capetinha infernal! Eu te coloquei no mundo, te dei tudo e agora você quer tomar a única coisa que me restaria? É isso mesmo, apresse-se e ocupe seu lugar, o lugar que é o seu, porque senão nada lhe sobrará. De todo modo, cabe perguntar: qual é o teu desejo?
Mas será que você deseja mesmo ocupar o lugar de pai? Há, em seu querer, algo falho, algo dividido. Será que você quer mesmo funcionar como pai? Acredito que a coisa chegou onde chegou porque você é esse menino que quer a mãe como única e para mais ninguém. Uma criança que permaneceu em instância no seu inconsciente com a qual você se compraz e se delicia através de seu filho. Você o usa para preservar um gozo materno que seu próprio pai não deu conta em relação à senhora sua mãe. Vamos ver, vamos seguir.
A doutrina psicanalítica propõe a seguinte equação: é a mãe quem funda o pai, é quem dá as primeiras cartas no sentido de transmitir ou não a palavra do pai, como efeito de lei. Isto não é gratuito, tem um custo altíssimo, é caro demais, tanto para a mãe quanto para a criança. Para alguém ocupar este lugar de pai, ele mesmo deve portar alguns atributos ou insígnias que são necessárias para tal empreitada. De todo modo, há uma dignidade em jogo que sinaliza um desejo particular. O lugar a ser ocupado por um pai está ali, vazio, ele poderá ou não ocupá-lo a partir de uma diretriz que escreve a particularidade de um desejo.
É possível, sim ou não, ensinar alguém a ser um bom pai? É difícil acreditar que existam escolas ou até mesmo profissionais que possam dizer o que se deve fazer para ser um bom pai. Conselhos, normas, regras: faça isto, não faça aquilo, seja tolerante, converse muito com seu filho, procure sempre o diálogo, preocupe-se, não lhe deixe faltar nada. Ora, tudo isto de nada adiantará! Tudo isto e nada é a mesma coisa! A experiência demonstra que ocupar o lugar de pai não passa por uma presença de bons comportamentos, de bons exemplos, de querer ser isto ou aquilo para o bem do filho.
Meu caro pai perdido numa paternidade, eu o elogio pela sua coragem e pela sua transparência ao se colocar tão abertamente em suas faltas, em suas carências de pai. Não é o que se observa. Hoje, mais do que nunca, os pais estão se ocupando mais com seus filhos. Eles têm se preocupado até mesmo excessivamente com seus rebentos, fazendo demais, sufocando-os, pecando por seus excessos. Parece que não estão permitindo que filhos possam desejar, que possam dizer o que desejam ou não desejam. Temos, na atualidade, uma safra de pais excessivos, dependentes de seus filhos. Neste sentido, algo fica esquecido, eles se esquecem como homem e mulher. O excessivo que está dirigido aos filhos é uma das maneiras do casal se esquivar sexualmente. Por baixo das nomeações pai e mãe, habita um homem e uma mulher que estão adormecidos, claudicantes, se fazendo esquecer um do outro, num necessário encontro tão traumático que é o ato sexual.
Os pais da atualidade adoecem seus filhos e os enviam para especialistas e para escolas para serem “reformados”. Ou, se quiserem, uma palavra mais adequada e menos agressiva: “retificados” em sua subjetividade. Eles querem terceirizar a educação de seus filhos para com isto se eximirem daquilo que seria da sua responsabilidade. Sempre preocupados com o futuro profissional dos filhos esquecem, por exemplo, a sexualidade latente num filho ou numa filha. Então, o que você apresenta a Problemas de Família, é o núcleo, a base, a razão causal de tantos e tantos sintomas que as crianças têm apresentado, que se evidenciam nas suas relações sociais: distúrbios de comportamento, bulimias e anorexias, insônias e depressões, dificuldade no aprendizado escolar, agressividade e passividade excedente, transgressões reiteradas que podem caminhar para posições perversas diante da lei, a assim chamada hiperatividade, compulsões e impulsões fora de qualquer controle e por aí vai. Estes distúrbios já chegam prontos, estruturados, dificultando qualquer intervenção.
Um pai que se inibe como homem frente à sua mulher, mãe de seus filhos, que não cuida, devidamente, dos anseios sexuais de uma mulher que vige sob os escombros de uma mãe, permitirá que filhos se façam deformar frente a um excesso de gozo materno, justo onde falha a presença efetiva de um pai, como um homem desejante. Veja bem: um pai funciona na triangulação com a mãe e o filho como fiel representante da lei simbólica, uma lei que interdita a relação incestuosa da mãe com o filho. Meu caro, por alguma razão particular você resiste neste ponto de interdição por onde os limites necessários seriam colocados.
O que é um pai? Pai não é nem o genitor nem o provedor. Menos ainda o educador. Um pai é pai no regime da função de separação da criança e sua mãe. O importante será saber como um pai se sustenta, como ele intervém nesta relação. Quando você insiste em ser um bom pai, por alguma razão particular que lhe é desconhecida, você resiste justo neste ponto de interdição por onde os limites necessários seriam colocados. Seu filho está disputando, com você, a mãe - diga-se, sua mulher, mãe de seu filho. Por que isto está acontecendo nesta intensidade? Você quer mesmo saber? Este filho é você! Trata-se de um desejo infantil que permaneceu adormecido em seu inconsciente, e que fora atualizado na relação de seu filho com a mãe dele. Esta que teria sido sua mulher, e não sua mãe.
Nesse sentido, vamos trilhar um difícil e tortuoso caminho para situar suas reais dificuldades no exercício da função paterna. Esqueça, por favor, esta história de querer ser um bom pai. Pai é pai, cada um se faz tecer em sua versão paterna. Trata-se, de todo modo, de um ponto que fundamenta o inconsciente de um sujeito particular. Pai é uma função inconsciente que recusa toda e qualquer abordagem consciente que advenha pela via do conhecimento. Por isso mesmo, é impossível ensinar alguém a ser pai, um bom pai. Você é médico, afeito ao discurso da ciência, talvez tenha dificuldades de entender isto: pai é uma função que nada tem a ver, por exemplo, com o genitor.
Como corrigir o erro que se constituiu na vida deste pai e que não diz respeito somente a ele, mas também a gerações anteriores? Alguém que se fez impregnar de uma crença de que poderia ser o pai que ele imaginava poder ser para seu filho, e que descarrilou e se estruturou pelo avesso? Porque você, na realidade, está mais para irmão mais velho de seu filho tão amado e tão querido. Veja meu caro jovem médico perdido em suas esperanças de ser um bom pai, escreva isto com letras sagradas: reafirmo que você está nesta estrutura familiar como irmão mais velho, bonzinho, carinhoso, que quer ser amado. Você foi buscar respostas lá fora, nos livros, nos especialistas, nos amigos, mas que sempre estiveram dentro de si mesmo. Quando o assunto é pai temos que tomar muito cuidado com os chamados “especialistas”. Ninguém poderá lhe ensinar como e de que maneira agir para que você mesmo possa se pautar como um bom pai. Novamente: nunca queira ser um bom pai, o pai. Ao querer ser um bom pai - diga-se, um pai exemplar - você erra! O erro deu-se de saída: você quis ser um bom pai e se esqueceu de si mesmo, de ser você mesmo. Nunca, em hipótese alguma, deixe de ser você mesmo.
Mas existem algumas coisas que podem vir a ajudá-lo. Isto se você realmente estiver disposto a um questionamento mais efetivo que possa operar, em sua vida, mudanças significativas. Mudanças reais, você me entende?
Qual caminho seguir? O que torna alguém pai? Há um dado positivo nisso que você apresenta em sua carta. Você teve a dignidade de se mostrar falho no exercício de sua função de pai, de tornar público este ponto que é tão importante na estrutura das famílias e que, certamente, são os fatores mais patogênicos que levam nossos filhos a adoecerem. Digo que se trata de uma atitude digna e corajosa de sua parte, porque este é realmente um sintoma da nossa atualidade de pais inseridos numa modernidade que não cessa de pedir por novos argumentos.
Certamente você está em crise e não é algo simples que se possa resolver com conselhos ou simples pontuações. E isso não é mal. A criança que te habita pede para falar. Mas posso lhe afirmar que este sofrimento que te atormenta é o que há de melhor na sua vida, é um pedido de escuta. Donde a necessidade da indicação de um longo tratamento analítico para que você possa redirecionar a função paterna, porque senão seu filho vai pagar por este sintoma que é o seu. Você nos apresenta, com muita clareza, a seguinte questão: a frouxidão de um pai em suas vertentes de lei paterna. Você revela, a céu aberto, um cenário que jaz adormecido sob os lençóis de muitos casais que se mantêm silenciados. Muitos pais, por razões particulares, permanecem surdos, mudos em relação a esta sintomática tão evidente, que denuncia a frouxidão de um pai. Pai frouxo, pai culpado com dificuldades de ocupar esta função simbólica tanto na relação de triangulação onde estão juntos pai, mãe e filho quanto numa relativa extensão social.
Por onde andam os pais? E vejam que esta pergunta se coloca justo num momento em que nunca se viu pais tão preocupados, pais tão presentes na vida dos filhos. Incoerência? Ou não seria mais apropriado e condizente perguntar: o que aconteceu com a autoridade paterna? O que mudou? De que sofre esta reluzente função que outrora imperava tranquilamente, apenas com um olhar, um pigarro, ou a voz de uma mãe dizendo: “eu vou contar pro seu pai”.
O que é um pai? Posso afirmar que não é somente você que se encontra perdido, à deriva, às escuras em relação a ocupar e exercer a função de pai. Realmente, quase todos os pais estão perdidos, se sentindo meio que sem lugar. Olhamos à nossa volta e vamos observar que, dia após dia, os pais encontram-se desalojados das insígnias que o demarcavam como o bicho papão. O que aconteceu com este homem todo poderoso? Por exemplo: o seu pai, o meu pai, os nossos pais? Os pais de antes, que respeitávamos tanto! Teriam sido eles melhores pais que os de hoje?
Por outro lado, eu te digo mais e com todas as letras, e isto não o exime de sua própria falta, de sua carência como pai: o lugar e a função que um pai ocupa na família, em suas formações familiares e sociais, é realmente algo cada vez mais difícil de ser ocupado. A autoridade paterna perdeu lugar para uma avassaladora responsabilidade paterna. Os pais de hoje estão em processo de desfazimento de sua virilidade frente a uma sociedade impregnada de um juridismo. Eles estão condenados como pais devedores, servis de seus deveres de pais. Os deveres amputaram os poderes paternos. Pai, então, torna-se sinônimo de dever para com o filho, verdadeiro refém dos caprichos subjetivos de um filho ou de uma filha. Leia sua frase, caro pai: você se encontra dependente de seu filho.
Como conseguir assumir, de fato e de direito, uma função paterna que é tão vital para um filho ou uma filha? Digo que a mãe coloca o filho no mundo, mas é um pai aquele que verdadeiramente dá vida ao filho, trata-se da função da palavra do pai. Não existe o pai, mas sim um pai. Veja seu engano como pai: você quis ser o pai, o melhor dos pais, um bom pai. Em todo caso, podemos dizer que você pode ocupar o lugar e exercer a função de pai. O pai é uma função simbólica à qual todos aqueles que ocupam este lugar estão, eles próprios, submetidos. Querer se apropriar desta função é introduzir um filho ou uma filha rumo ao adoecimento psíquico. Quando alguém quer ser verdadeiramente o pai, é uma desgraça para a criança. De entrada, diremos: o pai é uma função simbólica, nada mais que isto. Ao querer ser o melhor, erra-se. Deixa-te ser e ponto.
Vale ressaltar o caminho de retorno que deve ser realizado por você mesmo, jovem pai perdido na paternidade. Como está sua vida sexual com a tua mulher? Digo com a tua mulher, mãe de teu filho? Porque aqui reside o ponto crucial. Há sujeitos que se casam, têm filhos, e a vida sexual passa a ser um problema para o casal. Trata-se de um momento difícil de ser ultrapassado, pois são muitas as fantasias familiares que emergem tanto num quanto noutro. Há impedimentos e proibições psíquicas que os levam a buscar sexo fora de casa. Quando o casal esfria sexualmente, os filhos adoecem. Isto é de livro! O investimento libidinal dos pais migra para a criança. Por que um filho invade o quarto dos pais, a cama dos pais? Justamente porque a porta está aberta. A abertura da porta do quarto do casal é causa de distúrbios psíquicos nas crianças.
TERCEIRO CASO:
Tenho 32 anos de idade, sou mãe de uma menina de 6 anos e nunca me casei. Resolvi ter esta filha e criá-la sem pai. Durou uma noite. Ele é casado, colega de profissão, reside em outra cidade. Eu já o conhecia de alguns encontros de trabalho, e sempre soube que ele é casado, pai de dois filhos. Fiz de caso pensado: escolhi este homem para me dar esta menina.
Nunca esteve nos meus planos viver uma vida de casada com alguém. Sou bem sucedida na minha profissão, respeitada no que eu faço. Eu e minha filha formamos uma família, falamos a mesma língua, nos compreendemos bem. Vez por outra, saio com um ou outro homem, simplesmente para fazer sexo, nada mais que isto, ninguém fixo. Eu disse, eu e minha filha, nos bastamos uma para outra. Nunca tive boa relação com minha mãe, então procuro dar a melhor das mães para minha filha. Loucura ou não, é assim!
Em momento algum acreditei que ela necessitasse de um pai. Fui levando e bem. Agora, começaram os problemas: ela não quer se relacionar com ninguém, recusa de alimentação e baixo rendimento na escola. A coordenadora da escola me chamou para conversas e tocou nesta questão do pai. Ela conta para amiguinhas que o pai está viajando. É o que eu contava para ela, mesmo antes dela falar.
Penso que ela esteja se sentindo inferior em relação às suas amiguinhas pelo fato de não ter um pai. É possível? É necessário pai dentro de casa? Não sei se pai faz falta. Sempre achei que não, dava para ir levando. Estou começando a me convencer de que não é bem assim. Gostaria de orientação.
Adelaide Saraiva.
A falta que faz um pai!
Uma estrutura familiar não é sem um pai: um pai é necessário, ele realmente faz falta. Pai e mãe são funções distintas, cada um tem sua importância, um lugar específico na vida psíquica e emocional do filho e da filha.
Que falta faz um pai? Isso depende da mãe, do desejo materno. A mãe funda o pai, o reconhece, o inaugura; o desejo da mãe o legitima para seus filhos. Isto, logicamente, também vai depender das insígnias, das qualidades, dos atributos do pai. De todo modo, a coisa passa pela mãe, depende dela.
Você resolveu ter uma filha tão somente dentro de seus propósitos e de seus interesses. Não pensou em se casar, no sentido de estabelecer um projeto, no intuito de procriar. A questão é que filhos nascem de uma conjugação de desejos de um homem com uma mulher que se querem e se escolhem para construir um futuro. É o que se espera, é o que se observa na maioria dos casos, o que não quer dizer que não possa ser diferente. Você não se colocou outra opção a não ser esta: fazer uma filha e educá-la sem a presença efetiva de um pai. Esta filha carrega então o peso de um sentimento de inferioridade em relação às amiguinhas, ela não tem pai, sente-se menos, é claro!
Portanto, você nos afirma dentro de seu próprio engano: você deixou o pai de fora, você o tripudiou, brincou com ele e está sentindo na pele que isto não é uma coisa com a qual se possa brincar. Um pai, no mínimo, merece o respeito. Não se trata um pai desta maneira, tão desdenhosa, de um uso e abuso. É lógico, temos a outra parte: há aquele que se fez usar. Mas você, mãe desta menina em sofrimento, brincou uma brincadeira cara, amarga, com um custo muito alto.
A função paterna é algo da ordem do sagrado na estrutura da família, de uma família que se quer como tal, que quer filhos bons e bacanas, no encaminhamento de filhos possivelmente mais saudáveis, menos sofridos, nesta vida que não é fácil de ser vivida com dignidade.
Digo, e insisto, o seu movimento de ter uma filha foi tão somente a partir de seus caprichos neuróticos. Você, minha querida, deu a ver que seria só por uma noite, mas esqueceu-se que esta noite vale por uma vida. Pensou unicamente em si mesma, não quis saber de mais nada, pois em momento algum você pensou nela, na sua filha por vir, nas consequências sobre ela em seu futuro, o que poderia ou não acontecer com ela nesta triste aventura consigo mesma. É justo? Digo isto porque, parece-me, que você pensou tão somente no seu gozo, no seu umbigo, a partir de seu narcisismo.
Os distúrbios os quais sua filha está sofrendo - inibição, queda no rendimento escolar, anorexia, embotamento afetivo -, representa uma verdade que te habita e que, por alguma razão, você nunca se permitiu saber. Sua filha sofre os efeitos desta história silenciada que você carrega, não sem um alto custo. O sintoma desta filha é a resposta a estes desejos desencontrados que te habitam, como mãe, e que você carrega dentro de si e que se fizeram atualizar na origem desta menina. Poderíamos dizer, ao contrário do que diz, que você provocou a origem desta filha num ato, sem pensar. Mesmo que o diga que fez de caso pensado, acredito que não: você foi levada a se fazer engravidar sem pensar, a partir de seus fantasmas inconscientes, de elementos de sua historicidade.
O sofrimento que sua filha apresenta é um apelo, um pedido de ajuda dirigido ao pai. Ela pede um pai que você se recusou a dar a ela, e que lhe é de direito. Um pai que você surrupiou, trancafiou, impedindo-o de qualquer dom de legitimidade. Que se diga, um pai que você nunca deixou se aproximar desta filha, pois ele “está sempre viajando”, e não se sabe bem para onde e quando retorna, por isso mesmo ele nunca chega. Que pai é este que você passou para sua filha? Um pai, certamente, da sua própria história de vida.
Pobre filha, pobre menina! Mas, agora que ela pode pedir pelo pai, ela não deixa por menos. Graças a Deus! Ela pede forte, no corpo, ela implora, ela o quer, ela cobra, ela exige sua presença. Esta filha fala este pai ausente, mais que ausente, recusado, justo a partir da presença maciça de seus sintomas no corpo. A menina, que sofre na carne os desencontros da vida conturbada desta mãe, agora quer a verdade: chega, chega de enganos! Quero um mínimo de verdade! A menina, que sofre no seu corpo as mentiras de uma mãe, quer que a verdade seja dita, que seja falada. Ela quer saber deste pai. Onde ele anda, quando irá retornar. Pai, onde estás, porque não me escutas? Isso não é pedir demais, um pedaço de verdade que seja, sim, falada por esta mãe, que lhe seja dada voz, que seja colocada em palavras e nada mais!
Você me faz duas perguntas distintas que se encaminham para um mesmo ponto lógico: o que é um pai? Sua pergunta é pertinente, pois o pai pode não estar presente, ele pode faltar, sim! Mas o importante é que algo possa vir em seu lugar. Nada, nenhum namorado, nenhum outro para além dela, sua filha, que fala sua língua, a “mesma língua”. Veja bem, minha cara, os sintomas de sua filha a estão salvando de um mal bem maior, de doenças mais graves. Ela quer falar sua própria língua, uma outra língua, e o faz a partir de sua anorexia. Um signo, uma mensagem cifrada: decifra-me ou te devoro, eis a questão, mamãe querida.
Um pai pode vir a faltar como presença física. Mas sua função deve operar efetivamente a partir do desejo e da fala da mãe, o que não é o caso aqui. Mas alguma coisa mais forte que você mesma se impôs, barrou seu gozo avassalador em relação à sua filha e fez falar o sintoma no corpo desta menina. Veja bem, minha colega, que coisa interessante e que somente a psicanálise pode alcançar, somente ela pode afirmar: um pai sempre opera no regime de uma função, pois ele não é necessariamente o genitor. O provedor, o educador, isso por si só não o define, não basta para definir um pai. Nem mesmo o registro civil, isso é pouco! O que é um pai, não o pai, que não existe, mas sim um pai?
O que é um pai, verdadeiramente? Não é, necessariamente, aquele que participou do ato sexual, que condicionou a origem desta menina. Não! Não é só isso! Isso não basta para definir um pai no sentido das gerações. Um homem é um pai se você, enquanto uma mulher, o reconhecer como tal, como causa de seu desejo como mulher, aquele que barra seu gozo avassalador em relação à sua filha. Aquele que se coloca como um para além da criança, do filho, como único objeto de satisfação para uma mulher. Tudo, porém, irá depender de você reconhecê-lo, ou não, como agente de um desejo que está na origem do nascimento desta filha como representante da lei que interdita a relação incestuosa mãe-filha. É isto: somente você, como mãe desta menina, pode abrir portas para que este pai dê nome a ela. Ela pede por isto, por isto ela sofre.
É necessário um pai dentro de casa? Ele faz falta na educação e no desenvolvimento de um filho, de uma filha? É o que entendi, não é isto? É isto. Um pai sempre faz falta na estrutura de uma família. Aqui, em todos os sentidos, você me entende? O que não quer dizer que ele não possa faltar numa relação mãe-criança, não estar aí. Pode acontecer, por alguma contingência, que ele falte. Pode ser que, por uma separação prematura, uma morte ou uma carência, mesmo estando fisicamente presente, ele não opere como pai. Como também ele pode estar presente como pessoa e não funcionar como um pai, como uma função simbólica. Em todo caso, importa que a função paterna possa vigorar, pelo menos através do discurso materno, que a criança possa se autorizar em seu desejo, em sua língua própria, não é mesmo? Mas esta língua depende da conjugação de dois desejos para que seja suficiente para sustentar uma existência digna.
O fundamental é que possamos entender que a falta que um pai provoca ela estruturante na formação da cabeça da criança em seu desenvolvimento psíquico, que vai reger todos os passos futuros de um filho ou de uma filha. A presença ou ausência de um pai promove um tipo de falta que é muito específica, que retira a criança da condição de objeto de gozo materno. A falta que um pai inaugura no psiquismo da criança é condição única para que esta venha a desejar tornando-se sujeito do desejo, sujeito de direito. É quando, muito cedo, o olhar da mãe vai se dirigir para além da criança, e este mais-além, enigmático, para onde se dirige o desejo da mãe, salva a criança de todos os tipos de transtornos mentais. "Ah, então não sou tudo para esta mãe? Quer dizer que há algo para além de mim mesma? Para além do que ela me diz em relação ao que realmente ela deseja? Há outra coisa: um pai?" Sim! Este deslocamento é crucial para o desenvolvimento, no sentido do amadurecimento psíquico da criança, das escolhas por vir, de produção ou não de patologias, de sucessos ou fracassos, amorosos e profissionais.
Ela, a falta de um pai, é única! É a ética por excelência. Esta produz uma abertura para o desejo da criança. Sua ausência, como neste caso, pode produzir um buraco na vida subjetiva abrindo portas para uma patologia mais grave ainda, que se torna irrecuperável. Um pai é justamente aquele que salva a criança de uma invasão maciça do gozo materno. Ele cria condições de desvelamento dessa figura materna enquanto mulher. Os anseios e caprichos maternos se tornarão menos pesarosos sobre o filho ou a filha. Menos sufocante certamente.
A presença de um pai funda o universo simbólico de uma criança. Você, certamente, me entenderá. No caso desta menina, seu universo é a mãe: nada mais que isto! Esta menina, desde sempre, foi colocada numa posição de objeto do gozo doentio desta “mãe”, prestando um serviço de complemento de todas as faltas desta, por assim dizer. Como afirmou ela mesma, de caso pensado. Meu santo Deus, que raiva você tem da figura paterna! Você castrou o pai, nada mais que isto! Vamos agir para salvar sua filha. Urgentemente, pois você, ao desejar ser uma mãe idealizada, acabou errando e produzindo o pior: a anorexia de sua menina quer dizer isto: BASTA! Chega de tanto amor, chega de tanta invasão, não quero mais, mãe!
Se você, cara doutora - você me chamou de colega, não é mesmo? -, quer saber se sua filha vai adoecer psiquicamente pela falta do pai, eu te digo, com todas as letras: SIM! E muito! Ela já está dando sinais, e o vagão certamente irá descarrilar. Você está adoecendo sua filha, você a está sufocando, acabando com sua vida. Pelos simples caprichos da cabeça de uma mãe enferma, você atualizou um desejo doentio de ter sua mãe somente para si, não é mesmo?
Você pode ser excelente na sua profissão - temos casos assim, aos borbotões -, mas está sendo uma das piores mães que existe na face da terra! Péssima, egoísta, doente em seu querer narcisista! Pois você poderia ter oferecido para esta menina pelo menos um substituto de pai. Não! Você a tomou somente para si. Podemos dizer, sim, que você a tomou como objeto de seu gozo doentio. Isso é grave! Mas ela está reagindo, está colocando lei nesta história. É lógico, você mesma está despertando, abrindo as ruelas de seu inconsciente. O que você ofereceu a ela? Uma mentira, um pai que está viajando. Pai, quando você irá chegar? Ela, sua filha, é sábia. Ou, pelo menos, seu inconsciente: fez patologias como uma maneira de não se enlouquecer. Os sintomas são as formas distorcidas de chamar pelo pai, no lugar de um pai. Graças a Deus, minha colega, uma verdade quer falar, porque você não conseguiu ainda se dizer nesta história. Uma verdade quer falar através dos sofrimentos de sua filha. Diga a verdade para ela, solicite a paternidade, converse com o homem da sua escolha neste ato sexual, ainda há tempo. Fale com ele, ele irá assumir a paternidade da filha de vocês. Ela necessita conhecer este pai, você me entende, não é mesmo? Eu não disse: ela deveria conhecê-lo; eu disse: ELA NECESSITA! É necessário, não pode faltar, é obrigatório, é de direito, pois senão será um crime o que você estará realizando. Dê o pai que é o dela, pois você o está matando em vida. Não é justo, ela irá decidir no futuro o que fazer com este pai. Houve um erro, isso é humano. O importante é corrigirmos este erro por onde você procurou atualizar uma fantasia da criança que você teria sido, só, com sua mãe. Tomou sua filha como objeto de seu gozo narcísico, egoísta, recusando-se a dar a ela seu bem mais precioso: UM PAI! Um pai bom, um pai ruim, como saber? Não temos garantias, só saberemos depois. Tudo irá depender da modulação da estrutura do desejo de cada filho. A referência paterna dá sustentação de desejo para tanto para o filho quanto para a filha de maneira particular. O pai, quando funciona barrando os caprichos da mãe, cria condições de liberdade para os filhos.
No seu caso com sua filha - aqui, caso mesmo -, você precisa agir rápido. Você e sua filha se beneficiariam muito com uma psicanálise pessoal. Mas corra, corra mesmo, e encontre o pai desta sua filha!
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José Nazar. Médico Psiquiatra e Psicanalista. Especialização e Mestrado (Universidade do Brasil – UFRJ). Psicanalista Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise Brasília, Rio de Janeiro e Vitória. Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria e Associação Psiquiátrica do Espírito Santo. Membro da Associação Médica do Espírito Santo (AMES). Editor Chefe da Companhia de Freud Editora. Autor do livro: Amor de Mãe.
Email para: problemasdefamilia@seculodiario.com
FONTE: http://www.seculodiario.com.br
O terceiro caso evidencia a falta que faz um pai numa família. Então, e a mãe? Será que ela faz falta?
É que, embora concordando com a resposta dada a esta mãe -que, apesar de tudo, assume que possa ter errado na sua decisão- a mesma questão se põe a todo o homem que contrata uma barriga de aluguer, a fim de poder criar os filhos sem a presença de uma mãe! O que dizer a esses senhores?
Valdomiro Carezia
Família e Vida
Ex-professor e Auditor Fiscal Aposentado, possui Curso de Teologia para leigos. É colaborador no jornal "A Federação" de Itu.
Mãe faz falta!
Publicado: Sexta-feira, 9 de maio de 2008
Mãe sabe tudo, tudo do amor, tudo da vida, tudo do lar...
Mãe é presença, presente de Deus...
Mãe é ação, decisão; é paciência, compreensão...
Mãe é coragem, sexo forte...
Mãe é do pai e é dos filhos...
Mãe sabe ser, sabe dizer, sabe calar... sabe ir, sabe ficar... sabe rir, sabe chorar...
Mãe tem faro, ouvido, sensibilidade...
Mãe tem instinto, intuição, sabedoria...
Mãe tem sempre razão...
E coração? Tem, grande e poderoso...
Sensível, frágil, que se quebra,
Mas que logo se refaz porque é forte.
Mãe, atenção mais atenta,
Olhos ligeiros. Ouvidos abertos. Espertos...
Mãos dedicadas, calejadas. Colo macio e disposto. Mãe tem tudo isso e muito mais.
Sorriso no rosto, apesar do cansaço e até do desprezo.
Mãe espera, insiste.
Mãe torce, aplaude.
Mãe ensina, cobra.
Sabe sofrer calada, sabe chorar sem ser notada.
Mãe proíbe e desagrada às vezes...
Mas sabe ninar como ninguém, sabe contar histórias, sabe do que seus amores gostam...
Mãe é a felicidade dos filhos...
Mãe é mãe e pronto!
E faz falta, muita falta!
* * * * *
A verdade é que mãe é insubstituível... Mãe lembra família, uma instituição sem similar. Podemos dizer que a mãe faz falta porque não pode haver família sem mãe, ela é o seu eixo de sustentação, sua espinha dorsal, sem querer, com isso, achar que pai não é importante e também fundamental, só que o “ninho doméstico” inclina-se naturalmente para a mãe.
Ela é capaz de transformar sofrimentos e dificuldades em alegria e felicidade. A mãe luta para que seu lar seja um paraíso. Mas sofre porque precisa vencer inúmeras batalhas e dificuldades; sofre porque não é onipotente e são muitas as situações onde lhe faltam forças e, não raramente o apoio necessário; sofre porque sua luta é contínua, faltando, muitas vezes, até o tempo para o merecido descanso. Sofre, mas consegue transformar tudo isso em alegria de cumprir sua missão, de desempenhar o seu grande papel. Resiste a tudo, tudo enfrenta, tudo supera, porque tem um coração diferente, cheio de um amor diferente..., o mais próximo de Deus.
Mãe é alguém que nasceu não só para gerar a vida, mas para cuidar dela. Faz isso como ninguém! Para Bosco Aguirre, professor espanhol, “As mulheres são insuperáveis em sua relação com cada um dos filhos. Falar de maternidade é falar de um privilégio da mulher.”
A vida moderna facilitou a vida em muitos aspectos, mas a nossa sociedade abandonou os valores humanos, e o papel de mãe, infelizmente, foi muito afetado. Hoje a mulher que deseja ser mãe enfrenta novos obstáculos...
FONTE: http://www.itu.com.br/colunistas/artigo.asp?cod_conteudo=13732
Sinopse de AMOR DE MÃE, de José Nazar:
Não se deve duvidar do amor de mãe. Por isso mesmo não sentimos necessidade alguma de questionar seu amor. É como se a mãe ocupasse o lugar de um amor eterno. Estamos sempre certos e seguros em relação a seu amor, seu perdão e, por sua compreensão. Não é a mesma coisa com o pai. Nem sempre estamos tão garantidos do amor do pai, mesmo porque o que ele quer dos filhos não é tanto o amor, mas o respeito. O pai é esta função simbólica – não necessariamente o pai será o pai biológico – que interdita a relação toda amorosa mãe e filhos.
O que quer uma mãe? Uma mãe quer duas coisas em sua vida. Primeiro, que seja preservado, a qualquer custo seu amor e seus cuidados por seu filho. Segundo, que seja traduzida como mulher por seu parceiro e que, de preferência, este seja o pai de seu filho. Também quer algo: que seu homem crie condições verdadeiras para que sua relação com o filho se inscreva na história como um amor imbatível.
PRIMEIRO CASO:
Sou uma mulher casada. Aliás, bem casada. Eu e meu marido nos amamos, respeitamos muito um ao outro.
O problema é comigo, doutor, e nada tem a ver com o casamento, embora meu sofrimento esteja afetando minha relação conjugal, principalmente no que diz respeito ao sexo. Coisa que não havia antes, porque sempre gostamos de fazer sexo um com o outro.
Há pouco mais de um ano, tivemos nosso primeiro e único filho. Menino bonito e saudável, muito comunicativo. Algo estranho vem acontecendo comigo, pois de quatro meses para cá, venho me distanciando de tudo, não sou mais a mesma na minha profissão, nos relacionamentos, e com meu marido que tanto amo. Uma espécie de frieza vem tomando conta de minha vida.
Comecei a ficar mal quando meu filho passou a gostar de outras coisas além de meus cuidados, como sair com a babá, aceitar bem ir para a creche, gostar de frequentar a pracinha com outras crianças, ou seja, coisas boas, saudáveis. Não sou doida, sei, do fundo do meu coração, que tudo isto é muito bom para ele, é o que se espera para filhos.
De início, comecei a me irritar, eu ficava com raiva, com ódio, porque eu via que ele já não necessitava mais de mim, e isto começou a me entristecer. Senti que fiquei sem lugar, perdida, que não tinha mais importância para ele. Tudo caiu por terra, vivo numa completa falta de ânimo, doutor.
Por vezes me ocorreu estar me sentindo traída por este filho que coloquei no mundo, e que amo tanto. O sentimento que não me sai da cabeça é que fui enganada.
Tenho vergonha de conversar com meu marido sobre os meus sentimentos, digo sempre que logo irá passar. Sempre fui uma mulher forte, enfrentava os problemas de frente. Agora, sinto-me desvitalizada, sem forças para continuar. É normal uma mãe pensar que foi enganada pelo filho que já não precisa mais tanto dela? Estou com medo de mim mesma. Obrigada.
Filhos bons e bacanas!
Como compreender que uma mãe sofra ao ver o filho dar os primeiros passos na vida rumo ao melhor? Uma mãe que se sente traída porque seu filho caminha em direção a uma vida que é a dele, que estabelece um movimento de independência, fundamental para todos desta família que se inicia? Isto é normal ou patológico? Nada disto, trata-se de uma questão ética!
Você deve conversar com seu marido. Fale com ele sobre o que está se passando, de seus sentimentos, de suas tristezas, de sua dor. Não esconda nada, tome-o com cúmplice, diga a ele sobre a seriedade da questão, pois você está se deprimindo e isto pode se agravar mais ainda.
Procure uma ajuda especializada, pois você precisa falar com alguém que a escute sobre as razões de seu sofrimento, em relação à separação de seu filho. Não minimize este fato. Dê crédito ao que você está sofrendo, fale a partir daí, que é de onde nasce uma verdade sobre o teu desejo. Diga-se, um desejo desencontrado que pede por uma leitura, para que você possa se libertar das amarras da tua dor. Depressão significa isto: que, por alguma razão que lhe é desconhecida, o sujeito não quer aquilo que deseja. Você não está conseguindo?
De todo modo, você se apresenta como uma mãe que se ressente quando vê, com seus próprios olhos, seu filho indo pra encontrar sua própria vida. Por alguma razão, ela não está podendo ver que este filho, ao se separar, carrega dentro de si algo desta mãe, alguma coisa que fala de um grande gesto de amor.
Observa-se que há crianças mais soltas, mais seguras de si. Outras, não, são frágeis, apresentam dificuldades frente à vida, permanecem dependentes, grudados em seus pais.
Qual é o fator determinante? O que possibilita o bom amadurecimento de uma criança, de um adolescente? O que é, então, necessário para que filhos se soltem, se desgarrem e se tornem independentes? Que pais possam provocar uma separação necessária em relação a seus filhos. É o que se espera.
Um filho, uma filha, avança na vida se realmente os pais conseguem tombar do lugar de pais idealizados. Isto tem um nome, e é o que decide o futuro de cada filho, para o melhor ou para o pior: luto! Ou seja, pais podendo faltar nas relações com seus filhos, mesmo estando presentes.
Pais devem saber tombar deste lugar de pais idealizados para os filhos. Há que se construir o luto dos filhos, da infância, tão querida, tão amada – e isso está para pais e filhos - para que filhos venham, por sua vez, a construir o luto destes pais. Vale dizer, o luto é uma separação, uma boa separação, uma separação que não deve ser contaminada nem de remorso, nem de abandono, nem de desesperança!
Para que um filho ou uma filha alcance uma vida mais saudável, é preciso que se estabeleça uma separação que não seja conturbada, ressentida. O tombamento dos pais cauciona uma liberdade dos filhos. Por isso mesmo é preciso se separar dos pais, que cresçam, e que tenham espaço no sentido de alçarem seus próprios voos. É a confiança dos pais que inaugura a liberdade de ir e vir dos filhos.
Muitas vezes, há dúvidas: mas, será que pais querem verdadeiramente filhos soltos, ou os querem sob suas asas, como se fossem crias inseparáveis de si mesmos? A atualidade tem mostrado que, mais e mais, pais têm dificuldades de se separarem de filhos.
Na experiência analítica, observa-se que mães carregam sentimentos de traição em relação ao filho que começa ter sua vida própria. Isto é razoável, porque durante algum tempo um filho habita o mais íntimo de seu ser, mora dentro dela, respira suas entranhas. Portanto, são fantasias legítimas, fantasias de mãe.
Pode acontecer que estes pensamentos não venham à tona, não são pensados, verbalizados, colocados em palavras, mas sim agidos, atuados pela mãe. Nestas situações, filhos pagam a conta, carregam em suas cabeças distúrbios que são vividos como sentimentos de culpa, que vigem por debaixo das supostas dependências afetivas, drogas, cigarros, bebidas. “Ora, meu Deus, mas eu coloquei este filho no mundo e agora ele não necessita mais de mim? Não posso acreditar, ele era eu mesma, tornando-se um pedaço de mim, em mim mesma, eu o carreguei dentro de mim, fazendo parte de meu corpo, nutrindo-o de mim, do mais íntimo de meu ser”. Não é, no mínimo, estranho e paradoxal?
Sentimentos de pai, não são os mesmos que aqueles de mãe. Pai se protege muito mais das dores de uma separação. Mãe, não! Mãe é um constante vulcão em atividade. Uma mãe carrega seu fogo ardente, numa constante ebulição. Por isto mesmo, somente uma mãe, pode sentir sentimentos tão paradoxais quanto os seus, sentir-se traída pelo próprio filho!
Você, como a maioria das mães, quer um filho feliz, solto, desprendido. Uma mãe sempre quer o bem de seu filho. Mas, então, que diabo de sentimento é este que caminha no sentido oposto, diverso, contrariando todas as expectativas de um bom senso materno? Ficar triste, justo porque seu filho vai para a vida, cheio de confiança e alegria de viver! Ah! Mas que coisa, meu Deus, como a cabeça humana é feita de nós que dificultam qualquer entendimento racional! Mas este movimento de um progresso de seu filho implica que haja, realmente, numa boa separação, uma separação que é necessária para que a criança se constitua como sujeito, que tenha um futuro saudável. O problema é que, por alguma razão da sua história, você está interpretando o desprendimento de seu filho como um abandono, se fazendo abandonar. Traída!
O sentir-se traída, por si só fala de uma incongruência lógica, de uma quebra da razão reflexiva. O nascimento deste filho reacendeu um traço de sua infância, algo adormecido, que remete àquela menina que você teria sido no desejo de sua mãe, uma criança aprisionada ao desejo da mãe. Vale dizer, sua mãe não se separou de você, num certo sentido há uma fusão das duas, dentro de você mesma, em seu inconsciente. Aceitar de bom grado a separação de seu filho é poder trair o desejo desta mãe, que vive encarnado, em sua vida psíquica.
Tome este sofrimento como uma boa questão, tire ensinamentos dele, a partir dele, pois você tem o que falar sobre sua infância. Tudo está adormecido, esquecido, guardado carinhosamente, a sete chaves, no cofrinho de seus segredos de criança. A criança que te habita pede para falar, por isso seu sofrimento, sua mágoa, seu sentimento de tristeza, que leva você a sentir-se traída.
SEGUNDO CASO:
Estou perdido em relação à educação de meu filho. Sou casado há seis anos e temos um menino de 3 anos de idade que transformou minha vida num verdadeiro inferno. Sei que o problema não está nele, mas em mim. Ou nos dois, sei lá!
Conversei com alguns amigos, professores e especialistas sobre a minha questão com este filho e todos foram unânimes: isto é coisa de filho único. Eu e minha esposa decidimos ter somente um filho. Foi uma decisão consciente, bem pensada, muito discutida. Somos médicos e trabalhamos muito. Somos muito bem realizados profissionalmente.
Dirijo-me a você para pedir ajuda. Não consigo agir como pai, o pai que eu imaginava ser para meu filho. Estou sem rumo, sem saber o que fazer. Sei que violência não adianta, jamais faria isso. Vivo tenso, nervoso, irritado e sem paciência com meu filho. Não consigo funcionar como autoridade junto a ele. Meto os pés pelas mãos, me atrapalho todo, acabo cedendo. Para ser sincero, estou sem saber como me posicionar: este filho não me obedece, vai contra tudo que eu digo, e agora deu para me peitar. A coisa chega a tal ponto que nós dois parecemos dois irmãos!
Sinto-me envergonhado de dizer, mas observo que a cada dia eu vou ficando sem lugar dentro de casa. Ele tem ocupado cada vez mais o meu território, vou ficando de fora, até mesmo com minha esposa.
Veja a que ponto as coisas chegaram: sou flamenguista doente, toda minha família torce para o Flamengo, isso faz parte da mim história e vem de algumas gerações. Para me sacanear, recentemente ele deu para torcer para o Botafogo, que é o time do meu sogro, meus cunhados, ou seja, do lado da família materna. Eu sei que é para me tirar do sério, bater de frente comigo. O que fazer?
Aprendi que não devo intervir, que devo deixá-lo à vontade nas suas escolhas.
Mesmo antes de ele nascer, eu já me preocupava: como iria agir, como me comportar, como dar bons exemplos? Lia livros que procuram explicar como ser um bom pai. Frequentei cursos e palestras sobre como educar filhos e de nada adiantou. A ênfase estava colocada na importância de colocar limites. Mas, é justamente o que não consigo fazer, pois fico com pena dele. Tudo soa como algo frouxo! Sempre fui um bom filho: obediente, cumpria minhas obrigações, estudava até demais e respeitava os limites. A voz do meu pai era lei para todos dentro de casa. Bastava um olhar e lá estava eu obedecendo o que era determinado por ele e por minha mãe. Parece que não tenho voz dentro de casa.
Meu filho agora deu para dizer que está com medo à noite e não consegue dormir sozinho em seu quarto. Com isso, ele se enfia na nossa cama e dorme no meio do casal. Eu e minha mulher não temos mais intimidade alguma. Procuro de todas as maneiras seguir à risca o que seria um bom pai. Dou amor e carinho até demais, faço tudo que ele me pede, mas não consigo colocar ordem, limites, ou seja, não consigo ser pai. Nunca bati no meu filho, embora sentisse vontade de dar uns cascudos nele. No início eu contava até dez para não bater. Agora já estou contando até cinquenta. Tornei-me dependente de seus caprichos e de suas tiranias. O que fazer?
César Augusto Pontual
Como ser um bom pai?
Uma história interessante, no mínimo fenomenal, pois retrata com o máximo de fidelidade o que se passa nos bastidores de uma família. Vejam como estamos em relação aos nossos filhos: somos verdadeiros reféns de seus caprichos pelo viés da culpa. Meu Deus!
Quando um pai adormece e não ocupa efetivamente seu lugar de lei, o filho toma conta do seu território, fazendo casal com a mãe. Uma luta de prestígio, de vida e de morte? Uma verdadeira disputa em torno de um mesmo objeto: a mãe.
Meu caro, nunca queira ser um bom pai para seu filho. Aliás, nunca queira ser o pai. Simplesmente deixa-te ser o pai que você é, o pai que você pode ser em sua autenticidade, nada mais que isto! Ocupe este lugar que lhe é oferecido pela mulher que está na origem desta criança. Isso não é pouco, isso não é fácil. Corra, ande logo, porque senão seu filho chegará primeiro. Ah, seu capetinha infernal! Eu te coloquei no mundo, te dei tudo e agora você quer tomar a única coisa que me restaria? É isso mesmo, apresse-se e ocupe seu lugar, o lugar que é o seu, porque senão nada lhe sobrará. De todo modo, cabe perguntar: qual é o teu desejo?
Mas será que você deseja mesmo ocupar o lugar de pai? Há, em seu querer, algo falho, algo dividido. Será que você quer mesmo funcionar como pai? Acredito que a coisa chegou onde chegou porque você é esse menino que quer a mãe como única e para mais ninguém. Uma criança que permaneceu em instância no seu inconsciente com a qual você se compraz e se delicia através de seu filho. Você o usa para preservar um gozo materno que seu próprio pai não deu conta em relação à senhora sua mãe. Vamos ver, vamos seguir.
A doutrina psicanalítica propõe a seguinte equação: é a mãe quem funda o pai, é quem dá as primeiras cartas no sentido de transmitir ou não a palavra do pai, como efeito de lei. Isto não é gratuito, tem um custo altíssimo, é caro demais, tanto para a mãe quanto para a criança. Para alguém ocupar este lugar de pai, ele mesmo deve portar alguns atributos ou insígnias que são necessárias para tal empreitada. De todo modo, há uma dignidade em jogo que sinaliza um desejo particular. O lugar a ser ocupado por um pai está ali, vazio, ele poderá ou não ocupá-lo a partir de uma diretriz que escreve a particularidade de um desejo.
É possível, sim ou não, ensinar alguém a ser um bom pai? É difícil acreditar que existam escolas ou até mesmo profissionais que possam dizer o que se deve fazer para ser um bom pai. Conselhos, normas, regras: faça isto, não faça aquilo, seja tolerante, converse muito com seu filho, procure sempre o diálogo, preocupe-se, não lhe deixe faltar nada. Ora, tudo isto de nada adiantará! Tudo isto e nada é a mesma coisa! A experiência demonstra que ocupar o lugar de pai não passa por uma presença de bons comportamentos, de bons exemplos, de querer ser isto ou aquilo para o bem do filho.
Meu caro pai perdido numa paternidade, eu o elogio pela sua coragem e pela sua transparência ao se colocar tão abertamente em suas faltas, em suas carências de pai. Não é o que se observa. Hoje, mais do que nunca, os pais estão se ocupando mais com seus filhos. Eles têm se preocupado até mesmo excessivamente com seus rebentos, fazendo demais, sufocando-os, pecando por seus excessos. Parece que não estão permitindo que filhos possam desejar, que possam dizer o que desejam ou não desejam. Temos, na atualidade, uma safra de pais excessivos, dependentes de seus filhos. Neste sentido, algo fica esquecido, eles se esquecem como homem e mulher. O excessivo que está dirigido aos filhos é uma das maneiras do casal se esquivar sexualmente. Por baixo das nomeações pai e mãe, habita um homem e uma mulher que estão adormecidos, claudicantes, se fazendo esquecer um do outro, num necessário encontro tão traumático que é o ato sexual.
Os pais da atualidade adoecem seus filhos e os enviam para especialistas e para escolas para serem “reformados”. Ou, se quiserem, uma palavra mais adequada e menos agressiva: “retificados” em sua subjetividade. Eles querem terceirizar a educação de seus filhos para com isto se eximirem daquilo que seria da sua responsabilidade. Sempre preocupados com o futuro profissional dos filhos esquecem, por exemplo, a sexualidade latente num filho ou numa filha. Então, o que você apresenta a Problemas de Família, é o núcleo, a base, a razão causal de tantos e tantos sintomas que as crianças têm apresentado, que se evidenciam nas suas relações sociais: distúrbios de comportamento, bulimias e anorexias, insônias e depressões, dificuldade no aprendizado escolar, agressividade e passividade excedente, transgressões reiteradas que podem caminhar para posições perversas diante da lei, a assim chamada hiperatividade, compulsões e impulsões fora de qualquer controle e por aí vai. Estes distúrbios já chegam prontos, estruturados, dificultando qualquer intervenção.
Um pai que se inibe como homem frente à sua mulher, mãe de seus filhos, que não cuida, devidamente, dos anseios sexuais de uma mulher que vige sob os escombros de uma mãe, permitirá que filhos se façam deformar frente a um excesso de gozo materno, justo onde falha a presença efetiva de um pai, como um homem desejante. Veja bem: um pai funciona na triangulação com a mãe e o filho como fiel representante da lei simbólica, uma lei que interdita a relação incestuosa da mãe com o filho. Meu caro, por alguma razão particular você resiste neste ponto de interdição por onde os limites necessários seriam colocados.
O que é um pai? Pai não é nem o genitor nem o provedor. Menos ainda o educador. Um pai é pai no regime da função de separação da criança e sua mãe. O importante será saber como um pai se sustenta, como ele intervém nesta relação. Quando você insiste em ser um bom pai, por alguma razão particular que lhe é desconhecida, você resiste justo neste ponto de interdição por onde os limites necessários seriam colocados. Seu filho está disputando, com você, a mãe - diga-se, sua mulher, mãe de seu filho. Por que isto está acontecendo nesta intensidade? Você quer mesmo saber? Este filho é você! Trata-se de um desejo infantil que permaneceu adormecido em seu inconsciente, e que fora atualizado na relação de seu filho com a mãe dele. Esta que teria sido sua mulher, e não sua mãe.
Nesse sentido, vamos trilhar um difícil e tortuoso caminho para situar suas reais dificuldades no exercício da função paterna. Esqueça, por favor, esta história de querer ser um bom pai. Pai é pai, cada um se faz tecer em sua versão paterna. Trata-se, de todo modo, de um ponto que fundamenta o inconsciente de um sujeito particular. Pai é uma função inconsciente que recusa toda e qualquer abordagem consciente que advenha pela via do conhecimento. Por isso mesmo, é impossível ensinar alguém a ser pai, um bom pai. Você é médico, afeito ao discurso da ciência, talvez tenha dificuldades de entender isto: pai é uma função que nada tem a ver, por exemplo, com o genitor.
Como corrigir o erro que se constituiu na vida deste pai e que não diz respeito somente a ele, mas também a gerações anteriores? Alguém que se fez impregnar de uma crença de que poderia ser o pai que ele imaginava poder ser para seu filho, e que descarrilou e se estruturou pelo avesso? Porque você, na realidade, está mais para irmão mais velho de seu filho tão amado e tão querido. Veja meu caro jovem médico perdido em suas esperanças de ser um bom pai, escreva isto com letras sagradas: reafirmo que você está nesta estrutura familiar como irmão mais velho, bonzinho, carinhoso, que quer ser amado. Você foi buscar respostas lá fora, nos livros, nos especialistas, nos amigos, mas que sempre estiveram dentro de si mesmo. Quando o assunto é pai temos que tomar muito cuidado com os chamados “especialistas”. Ninguém poderá lhe ensinar como e de que maneira agir para que você mesmo possa se pautar como um bom pai. Novamente: nunca queira ser um bom pai, o pai. Ao querer ser um bom pai - diga-se, um pai exemplar - você erra! O erro deu-se de saída: você quis ser um bom pai e se esqueceu de si mesmo, de ser você mesmo. Nunca, em hipótese alguma, deixe de ser você mesmo.
Mas existem algumas coisas que podem vir a ajudá-lo. Isto se você realmente estiver disposto a um questionamento mais efetivo que possa operar, em sua vida, mudanças significativas. Mudanças reais, você me entende?
Qual caminho seguir? O que torna alguém pai? Há um dado positivo nisso que você apresenta em sua carta. Você teve a dignidade de se mostrar falho no exercício de sua função de pai, de tornar público este ponto que é tão importante na estrutura das famílias e que, certamente, são os fatores mais patogênicos que levam nossos filhos a adoecerem. Digo que se trata de uma atitude digna e corajosa de sua parte, porque este é realmente um sintoma da nossa atualidade de pais inseridos numa modernidade que não cessa de pedir por novos argumentos.
Certamente você está em crise e não é algo simples que se possa resolver com conselhos ou simples pontuações. E isso não é mal. A criança que te habita pede para falar. Mas posso lhe afirmar que este sofrimento que te atormenta é o que há de melhor na sua vida, é um pedido de escuta. Donde a necessidade da indicação de um longo tratamento analítico para que você possa redirecionar a função paterna, porque senão seu filho vai pagar por este sintoma que é o seu. Você nos apresenta, com muita clareza, a seguinte questão: a frouxidão de um pai em suas vertentes de lei paterna. Você revela, a céu aberto, um cenário que jaz adormecido sob os lençóis de muitos casais que se mantêm silenciados. Muitos pais, por razões particulares, permanecem surdos, mudos em relação a esta sintomática tão evidente, que denuncia a frouxidão de um pai. Pai frouxo, pai culpado com dificuldades de ocupar esta função simbólica tanto na relação de triangulação onde estão juntos pai, mãe e filho quanto numa relativa extensão social.
Por onde andam os pais? E vejam que esta pergunta se coloca justo num momento em que nunca se viu pais tão preocupados, pais tão presentes na vida dos filhos. Incoerência? Ou não seria mais apropriado e condizente perguntar: o que aconteceu com a autoridade paterna? O que mudou? De que sofre esta reluzente função que outrora imperava tranquilamente, apenas com um olhar, um pigarro, ou a voz de uma mãe dizendo: “eu vou contar pro seu pai”.
O que é um pai? Posso afirmar que não é somente você que se encontra perdido, à deriva, às escuras em relação a ocupar e exercer a função de pai. Realmente, quase todos os pais estão perdidos, se sentindo meio que sem lugar. Olhamos à nossa volta e vamos observar que, dia após dia, os pais encontram-se desalojados das insígnias que o demarcavam como o bicho papão. O que aconteceu com este homem todo poderoso? Por exemplo: o seu pai, o meu pai, os nossos pais? Os pais de antes, que respeitávamos tanto! Teriam sido eles melhores pais que os de hoje?
Por outro lado, eu te digo mais e com todas as letras, e isto não o exime de sua própria falta, de sua carência como pai: o lugar e a função que um pai ocupa na família, em suas formações familiares e sociais, é realmente algo cada vez mais difícil de ser ocupado. A autoridade paterna perdeu lugar para uma avassaladora responsabilidade paterna. Os pais de hoje estão em processo de desfazimento de sua virilidade frente a uma sociedade impregnada de um juridismo. Eles estão condenados como pais devedores, servis de seus deveres de pais. Os deveres amputaram os poderes paternos. Pai, então, torna-se sinônimo de dever para com o filho, verdadeiro refém dos caprichos subjetivos de um filho ou de uma filha. Leia sua frase, caro pai: você se encontra dependente de seu filho.
Como conseguir assumir, de fato e de direito, uma função paterna que é tão vital para um filho ou uma filha? Digo que a mãe coloca o filho no mundo, mas é um pai aquele que verdadeiramente dá vida ao filho, trata-se da função da palavra do pai. Não existe o pai, mas sim um pai. Veja seu engano como pai: você quis ser o pai, o melhor dos pais, um bom pai. Em todo caso, podemos dizer que você pode ocupar o lugar e exercer a função de pai. O pai é uma função simbólica à qual todos aqueles que ocupam este lugar estão, eles próprios, submetidos. Querer se apropriar desta função é introduzir um filho ou uma filha rumo ao adoecimento psíquico. Quando alguém quer ser verdadeiramente o pai, é uma desgraça para a criança. De entrada, diremos: o pai é uma função simbólica, nada mais que isto. Ao querer ser o melhor, erra-se. Deixa-te ser e ponto.
Vale ressaltar o caminho de retorno que deve ser realizado por você mesmo, jovem pai perdido na paternidade. Como está sua vida sexual com a tua mulher? Digo com a tua mulher, mãe de teu filho? Porque aqui reside o ponto crucial. Há sujeitos que se casam, têm filhos, e a vida sexual passa a ser um problema para o casal. Trata-se de um momento difícil de ser ultrapassado, pois são muitas as fantasias familiares que emergem tanto num quanto noutro. Há impedimentos e proibições psíquicas que os levam a buscar sexo fora de casa. Quando o casal esfria sexualmente, os filhos adoecem. Isto é de livro! O investimento libidinal dos pais migra para a criança. Por que um filho invade o quarto dos pais, a cama dos pais? Justamente porque a porta está aberta. A abertura da porta do quarto do casal é causa de distúrbios psíquicos nas crianças.
TERCEIRO CASO:
Tenho 32 anos de idade, sou mãe de uma menina de 6 anos e nunca me casei. Resolvi ter esta filha e criá-la sem pai. Durou uma noite. Ele é casado, colega de profissão, reside em outra cidade. Eu já o conhecia de alguns encontros de trabalho, e sempre soube que ele é casado, pai de dois filhos. Fiz de caso pensado: escolhi este homem para me dar esta menina.
Nunca esteve nos meus planos viver uma vida de casada com alguém. Sou bem sucedida na minha profissão, respeitada no que eu faço. Eu e minha filha formamos uma família, falamos a mesma língua, nos compreendemos bem. Vez por outra, saio com um ou outro homem, simplesmente para fazer sexo, nada mais que isto, ninguém fixo. Eu disse, eu e minha filha, nos bastamos uma para outra. Nunca tive boa relação com minha mãe, então procuro dar a melhor das mães para minha filha. Loucura ou não, é assim!
Em momento algum acreditei que ela necessitasse de um pai. Fui levando e bem. Agora, começaram os problemas: ela não quer se relacionar com ninguém, recusa de alimentação e baixo rendimento na escola. A coordenadora da escola me chamou para conversas e tocou nesta questão do pai. Ela conta para amiguinhas que o pai está viajando. É o que eu contava para ela, mesmo antes dela falar.
Penso que ela esteja se sentindo inferior em relação às suas amiguinhas pelo fato de não ter um pai. É possível? É necessário pai dentro de casa? Não sei se pai faz falta. Sempre achei que não, dava para ir levando. Estou começando a me convencer de que não é bem assim. Gostaria de orientação.
Adelaide Saraiva.
A falta que faz um pai!
Uma estrutura familiar não é sem um pai: um pai é necessário, ele realmente faz falta. Pai e mãe são funções distintas, cada um tem sua importância, um lugar específico na vida psíquica e emocional do filho e da filha.
Que falta faz um pai? Isso depende da mãe, do desejo materno. A mãe funda o pai, o reconhece, o inaugura; o desejo da mãe o legitima para seus filhos. Isto, logicamente, também vai depender das insígnias, das qualidades, dos atributos do pai. De todo modo, a coisa passa pela mãe, depende dela.
Você resolveu ter uma filha tão somente dentro de seus propósitos e de seus interesses. Não pensou em se casar, no sentido de estabelecer um projeto, no intuito de procriar. A questão é que filhos nascem de uma conjugação de desejos de um homem com uma mulher que se querem e se escolhem para construir um futuro. É o que se espera, é o que se observa na maioria dos casos, o que não quer dizer que não possa ser diferente. Você não se colocou outra opção a não ser esta: fazer uma filha e educá-la sem a presença efetiva de um pai. Esta filha carrega então o peso de um sentimento de inferioridade em relação às amiguinhas, ela não tem pai, sente-se menos, é claro!
Portanto, você nos afirma dentro de seu próprio engano: você deixou o pai de fora, você o tripudiou, brincou com ele e está sentindo na pele que isto não é uma coisa com a qual se possa brincar. Um pai, no mínimo, merece o respeito. Não se trata um pai desta maneira, tão desdenhosa, de um uso e abuso. É lógico, temos a outra parte: há aquele que se fez usar. Mas você, mãe desta menina em sofrimento, brincou uma brincadeira cara, amarga, com um custo muito alto.
A função paterna é algo da ordem do sagrado na estrutura da família, de uma família que se quer como tal, que quer filhos bons e bacanas, no encaminhamento de filhos possivelmente mais saudáveis, menos sofridos, nesta vida que não é fácil de ser vivida com dignidade.
Digo, e insisto, o seu movimento de ter uma filha foi tão somente a partir de seus caprichos neuróticos. Você, minha querida, deu a ver que seria só por uma noite, mas esqueceu-se que esta noite vale por uma vida. Pensou unicamente em si mesma, não quis saber de mais nada, pois em momento algum você pensou nela, na sua filha por vir, nas consequências sobre ela em seu futuro, o que poderia ou não acontecer com ela nesta triste aventura consigo mesma. É justo? Digo isto porque, parece-me, que você pensou tão somente no seu gozo, no seu umbigo, a partir de seu narcisismo.
Os distúrbios os quais sua filha está sofrendo - inibição, queda no rendimento escolar, anorexia, embotamento afetivo -, representa uma verdade que te habita e que, por alguma razão, você nunca se permitiu saber. Sua filha sofre os efeitos desta história silenciada que você carrega, não sem um alto custo. O sintoma desta filha é a resposta a estes desejos desencontrados que te habitam, como mãe, e que você carrega dentro de si e que se fizeram atualizar na origem desta menina. Poderíamos dizer, ao contrário do que diz, que você provocou a origem desta filha num ato, sem pensar. Mesmo que o diga que fez de caso pensado, acredito que não: você foi levada a se fazer engravidar sem pensar, a partir de seus fantasmas inconscientes, de elementos de sua historicidade.
O sofrimento que sua filha apresenta é um apelo, um pedido de ajuda dirigido ao pai. Ela pede um pai que você se recusou a dar a ela, e que lhe é de direito. Um pai que você surrupiou, trancafiou, impedindo-o de qualquer dom de legitimidade. Que se diga, um pai que você nunca deixou se aproximar desta filha, pois ele “está sempre viajando”, e não se sabe bem para onde e quando retorna, por isso mesmo ele nunca chega. Que pai é este que você passou para sua filha? Um pai, certamente, da sua própria história de vida.
Pobre filha, pobre menina! Mas, agora que ela pode pedir pelo pai, ela não deixa por menos. Graças a Deus! Ela pede forte, no corpo, ela implora, ela o quer, ela cobra, ela exige sua presença. Esta filha fala este pai ausente, mais que ausente, recusado, justo a partir da presença maciça de seus sintomas no corpo. A menina, que sofre na carne os desencontros da vida conturbada desta mãe, agora quer a verdade: chega, chega de enganos! Quero um mínimo de verdade! A menina, que sofre no seu corpo as mentiras de uma mãe, quer que a verdade seja dita, que seja falada. Ela quer saber deste pai. Onde ele anda, quando irá retornar. Pai, onde estás, porque não me escutas? Isso não é pedir demais, um pedaço de verdade que seja, sim, falada por esta mãe, que lhe seja dada voz, que seja colocada em palavras e nada mais!
Você me faz duas perguntas distintas que se encaminham para um mesmo ponto lógico: o que é um pai? Sua pergunta é pertinente, pois o pai pode não estar presente, ele pode faltar, sim! Mas o importante é que algo possa vir em seu lugar. Nada, nenhum namorado, nenhum outro para além dela, sua filha, que fala sua língua, a “mesma língua”. Veja bem, minha cara, os sintomas de sua filha a estão salvando de um mal bem maior, de doenças mais graves. Ela quer falar sua própria língua, uma outra língua, e o faz a partir de sua anorexia. Um signo, uma mensagem cifrada: decifra-me ou te devoro, eis a questão, mamãe querida.
Um pai pode vir a faltar como presença física. Mas sua função deve operar efetivamente a partir do desejo e da fala da mãe, o que não é o caso aqui. Mas alguma coisa mais forte que você mesma se impôs, barrou seu gozo avassalador em relação à sua filha e fez falar o sintoma no corpo desta menina. Veja bem, minha colega, que coisa interessante e que somente a psicanálise pode alcançar, somente ela pode afirmar: um pai sempre opera no regime de uma função, pois ele não é necessariamente o genitor. O provedor, o educador, isso por si só não o define, não basta para definir um pai. Nem mesmo o registro civil, isso é pouco! O que é um pai, não o pai, que não existe, mas sim um pai?
O que é um pai, verdadeiramente? Não é, necessariamente, aquele que participou do ato sexual, que condicionou a origem desta menina. Não! Não é só isso! Isso não basta para definir um pai no sentido das gerações. Um homem é um pai se você, enquanto uma mulher, o reconhecer como tal, como causa de seu desejo como mulher, aquele que barra seu gozo avassalador em relação à sua filha. Aquele que se coloca como um para além da criança, do filho, como único objeto de satisfação para uma mulher. Tudo, porém, irá depender de você reconhecê-lo, ou não, como agente de um desejo que está na origem do nascimento desta filha como representante da lei que interdita a relação incestuosa mãe-filha. É isto: somente você, como mãe desta menina, pode abrir portas para que este pai dê nome a ela. Ela pede por isto, por isto ela sofre.
É necessário um pai dentro de casa? Ele faz falta na educação e no desenvolvimento de um filho, de uma filha? É o que entendi, não é isto? É isto. Um pai sempre faz falta na estrutura de uma família. Aqui, em todos os sentidos, você me entende? O que não quer dizer que ele não possa faltar numa relação mãe-criança, não estar aí. Pode acontecer, por alguma contingência, que ele falte. Pode ser que, por uma separação prematura, uma morte ou uma carência, mesmo estando fisicamente presente, ele não opere como pai. Como também ele pode estar presente como pessoa e não funcionar como um pai, como uma função simbólica. Em todo caso, importa que a função paterna possa vigorar, pelo menos através do discurso materno, que a criança possa se autorizar em seu desejo, em sua língua própria, não é mesmo? Mas esta língua depende da conjugação de dois desejos para que seja suficiente para sustentar uma existência digna.
O fundamental é que possamos entender que a falta que um pai provoca ela estruturante na formação da cabeça da criança em seu desenvolvimento psíquico, que vai reger todos os passos futuros de um filho ou de uma filha. A presença ou ausência de um pai promove um tipo de falta que é muito específica, que retira a criança da condição de objeto de gozo materno. A falta que um pai inaugura no psiquismo da criança é condição única para que esta venha a desejar tornando-se sujeito do desejo, sujeito de direito. É quando, muito cedo, o olhar da mãe vai se dirigir para além da criança, e este mais-além, enigmático, para onde se dirige o desejo da mãe, salva a criança de todos os tipos de transtornos mentais. "Ah, então não sou tudo para esta mãe? Quer dizer que há algo para além de mim mesma? Para além do que ela me diz em relação ao que realmente ela deseja? Há outra coisa: um pai?" Sim! Este deslocamento é crucial para o desenvolvimento, no sentido do amadurecimento psíquico da criança, das escolhas por vir, de produção ou não de patologias, de sucessos ou fracassos, amorosos e profissionais.
Ela, a falta de um pai, é única! É a ética por excelência. Esta produz uma abertura para o desejo da criança. Sua ausência, como neste caso, pode produzir um buraco na vida subjetiva abrindo portas para uma patologia mais grave ainda, que se torna irrecuperável. Um pai é justamente aquele que salva a criança de uma invasão maciça do gozo materno. Ele cria condições de desvelamento dessa figura materna enquanto mulher. Os anseios e caprichos maternos se tornarão menos pesarosos sobre o filho ou a filha. Menos sufocante certamente.
A presença de um pai funda o universo simbólico de uma criança. Você, certamente, me entenderá. No caso desta menina, seu universo é a mãe: nada mais que isto! Esta menina, desde sempre, foi colocada numa posição de objeto do gozo doentio desta “mãe”, prestando um serviço de complemento de todas as faltas desta, por assim dizer. Como afirmou ela mesma, de caso pensado. Meu santo Deus, que raiva você tem da figura paterna! Você castrou o pai, nada mais que isto! Vamos agir para salvar sua filha. Urgentemente, pois você, ao desejar ser uma mãe idealizada, acabou errando e produzindo o pior: a anorexia de sua menina quer dizer isto: BASTA! Chega de tanto amor, chega de tanta invasão, não quero mais, mãe!
Se você, cara doutora - você me chamou de colega, não é mesmo? -, quer saber se sua filha vai adoecer psiquicamente pela falta do pai, eu te digo, com todas as letras: SIM! E muito! Ela já está dando sinais, e o vagão certamente irá descarrilar. Você está adoecendo sua filha, você a está sufocando, acabando com sua vida. Pelos simples caprichos da cabeça de uma mãe enferma, você atualizou um desejo doentio de ter sua mãe somente para si, não é mesmo?
Você pode ser excelente na sua profissão - temos casos assim, aos borbotões -, mas está sendo uma das piores mães que existe na face da terra! Péssima, egoísta, doente em seu querer narcisista! Pois você poderia ter oferecido para esta menina pelo menos um substituto de pai. Não! Você a tomou somente para si. Podemos dizer, sim, que você a tomou como objeto de seu gozo doentio. Isso é grave! Mas ela está reagindo, está colocando lei nesta história. É lógico, você mesma está despertando, abrindo as ruelas de seu inconsciente. O que você ofereceu a ela? Uma mentira, um pai que está viajando. Pai, quando você irá chegar? Ela, sua filha, é sábia. Ou, pelo menos, seu inconsciente: fez patologias como uma maneira de não se enlouquecer. Os sintomas são as formas distorcidas de chamar pelo pai, no lugar de um pai. Graças a Deus, minha colega, uma verdade quer falar, porque você não conseguiu ainda se dizer nesta história. Uma verdade quer falar através dos sofrimentos de sua filha. Diga a verdade para ela, solicite a paternidade, converse com o homem da sua escolha neste ato sexual, ainda há tempo. Fale com ele, ele irá assumir a paternidade da filha de vocês. Ela necessita conhecer este pai, você me entende, não é mesmo? Eu não disse: ela deveria conhecê-lo; eu disse: ELA NECESSITA! É necessário, não pode faltar, é obrigatório, é de direito, pois senão será um crime o que você estará realizando. Dê o pai que é o dela, pois você o está matando em vida. Não é justo, ela irá decidir no futuro o que fazer com este pai. Houve um erro, isso é humano. O importante é corrigirmos este erro por onde você procurou atualizar uma fantasia da criança que você teria sido, só, com sua mãe. Tomou sua filha como objeto de seu gozo narcísico, egoísta, recusando-se a dar a ela seu bem mais precioso: UM PAI! Um pai bom, um pai ruim, como saber? Não temos garantias, só saberemos depois. Tudo irá depender da modulação da estrutura do desejo de cada filho. A referência paterna dá sustentação de desejo para tanto para o filho quanto para a filha de maneira particular. O pai, quando funciona barrando os caprichos da mãe, cria condições de liberdade para os filhos.
No seu caso com sua filha - aqui, caso mesmo -, você precisa agir rápido. Você e sua filha se beneficiariam muito com uma psicanálise pessoal. Mas corra, corra mesmo, e encontre o pai desta sua filha!
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José Nazar. Médico Psiquiatra e Psicanalista. Especialização e Mestrado (Universidade do Brasil – UFRJ). Psicanalista Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise Brasília, Rio de Janeiro e Vitória. Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria e Associação Psiquiátrica do Espírito Santo. Membro da Associação Médica do Espírito Santo (AMES). Editor Chefe da Companhia de Freud Editora. Autor do livro: Amor de Mãe.
Email para: problemasdefamilia@seculodiario.com
FONTE: http://www.seculodiario.com.br
O terceiro caso evidencia a falta que faz um pai numa família. Então, e a mãe? Será que ela faz falta?
É que, embora concordando com a resposta dada a esta mãe -que, apesar de tudo, assume que possa ter errado na sua decisão- a mesma questão se põe a todo o homem que contrata uma barriga de aluguer, a fim de poder criar os filhos sem a presença de uma mãe! O que dizer a esses senhores?
Valdomiro Carezia
Família e Vida
Ex-professor e Auditor Fiscal Aposentado, possui Curso de Teologia para leigos. É colaborador no jornal "A Federação" de Itu.
Mãe faz falta!
Publicado: Sexta-feira, 9 de maio de 2008
Mãe sabe tudo, tudo do amor, tudo da vida, tudo do lar...
Mãe é presença, presente de Deus...
Mãe é ação, decisão; é paciência, compreensão...
Mãe é coragem, sexo forte...
Mãe é do pai e é dos filhos...
Mãe sabe ser, sabe dizer, sabe calar... sabe ir, sabe ficar... sabe rir, sabe chorar...
Mãe tem faro, ouvido, sensibilidade...
Mãe tem instinto, intuição, sabedoria...
Mãe tem sempre razão...
E coração? Tem, grande e poderoso...
Sensível, frágil, que se quebra,
Mas que logo se refaz porque é forte.
Mãe, atenção mais atenta,
Olhos ligeiros. Ouvidos abertos. Espertos...
Mãos dedicadas, calejadas. Colo macio e disposto. Mãe tem tudo isso e muito mais.
Sorriso no rosto, apesar do cansaço e até do desprezo.
Mãe espera, insiste.
Mãe torce, aplaude.
Mãe ensina, cobra.
Sabe sofrer calada, sabe chorar sem ser notada.
Mãe proíbe e desagrada às vezes...
Mas sabe ninar como ninguém, sabe contar histórias, sabe do que seus amores gostam...
Mãe é a felicidade dos filhos...
Mãe é mãe e pronto!
E faz falta, muita falta!
* * * * *
A verdade é que mãe é insubstituível... Mãe lembra família, uma instituição sem similar. Podemos dizer que a mãe faz falta porque não pode haver família sem mãe, ela é o seu eixo de sustentação, sua espinha dorsal, sem querer, com isso, achar que pai não é importante e também fundamental, só que o “ninho doméstico” inclina-se naturalmente para a mãe.
Ela é capaz de transformar sofrimentos e dificuldades em alegria e felicidade. A mãe luta para que seu lar seja um paraíso. Mas sofre porque precisa vencer inúmeras batalhas e dificuldades; sofre porque não é onipotente e são muitas as situações onde lhe faltam forças e, não raramente o apoio necessário; sofre porque sua luta é contínua, faltando, muitas vezes, até o tempo para o merecido descanso. Sofre, mas consegue transformar tudo isso em alegria de cumprir sua missão, de desempenhar o seu grande papel. Resiste a tudo, tudo enfrenta, tudo supera, porque tem um coração diferente, cheio de um amor diferente..., o mais próximo de Deus.
Mãe é alguém que nasceu não só para gerar a vida, mas para cuidar dela. Faz isso como ninguém! Para Bosco Aguirre, professor espanhol, “As mulheres são insuperáveis em sua relação com cada um dos filhos. Falar de maternidade é falar de um privilégio da mulher.”
A vida moderna facilitou a vida em muitos aspectos, mas a nossa sociedade abandonou os valores humanos, e o papel de mãe, infelizmente, foi muito afetado. Hoje a mulher que deseja ser mãe enfrenta novos obstáculos...
FONTE: http://www.itu.com.br/colunistas/artigo.asp?cod_conteudo=13732
Sinopse de AMOR DE MÃE, de José Nazar:
Não se deve duvidar do amor de mãe. Por isso mesmo não sentimos necessidade alguma de questionar seu amor. É como se a mãe ocupasse o lugar de um amor eterno. Estamos sempre certos e seguros em relação a seu amor, seu perdão e, por sua compreensão. Não é a mesma coisa com o pai. Nem sempre estamos tão garantidos do amor do pai, mesmo porque o que ele quer dos filhos não é tanto o amor, mas o respeito. O pai é esta função simbólica – não necessariamente o pai será o pai biológico – que interdita a relação toda amorosa mãe e filhos.
O que quer uma mãe? Uma mãe quer duas coisas em sua vida. Primeiro, que seja preservado, a qualquer custo seu amor e seus cuidados por seu filho. Segundo, que seja traduzida como mulher por seu parceiro e que, de preferência, este seja o pai de seu filho. Também quer algo: que seu homem crie condições verdadeiras para que sua relação com o filho se inscreva na história como um amor imbatível.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
"QUEM DÁ A VIDA MESMO É O HOMEM", DISSE ELE.
O homem é que dá a vida. A mulher só empresta a barriga.
Eis o que se conclui das palavras de um certo senhor. E estamos nós no século XXI!
Ora vejam:
"(...). Isto tem que acabar de vez. Não é porque a natureza disse que a mulher é quem irá gerar um filho em sua barriga que se tirará o direito do homem pelo simples fato de ñão ter sido ele quem a natureza escolheu para esta gestação, alem do mais, porque se tende a achar que porque um filho passa apenas 9 meses na barriga de uma mãe, que por isto todos os outros anos restantes de sua vida pertencerão somente a ela com maior direito ? Isto é injustiça. A mulher prover a gestação, mas uma vez fora do útero, o novo ser não precisa mais daquela "casca" que foi gerada, e nem a criança precisa ser penalizada pelo resto da vida apenas pelo fato de que a natureza é quem quis assim. Outra coisa que poucos talvez não tenham percebido. A mulher prover a gestação e cede o seu óvulo, que apenas contém o seu material genético, mas observem que quem dá a vida mesmo é o homem, pois é o espermatozóide que traz os movimentos. Observem que o óvulo não se mexe. A vida, esta troca de energia contínua que faz algo se mover, quem dar mesmo é só o homem atraves do seu espermatozóide. Este é o meu ponto de vista que deixo aqui e que faço questão de colocá-lo apenas para mostrar que a mulher não tem que se sentir com direito nenhum a mais que o pai, e ponto final. A disputa deverá ser sim, por bons comportamentos e conduta, que isto era o que a justiça deveria ver, e não somente quem pariu e cedeu a barriga apenas por 9 meses, pois já que é assim, a justiça deveria também considerar que quem dar a vida, movimento, mmesmo, é o homem e não amulher, então isto por si só se anulam estes dois fatos equilibrando-sos mutuamente. (...)"
Ora estas palavras vêm corroborar aquilo que Martin Dufresne (MD) disse em entrevista:
(...)
CST: Um dos depoimentos destacados pelos diretores do filme In Nomine Patris é o do deputado europeu Alain Lipietz, no qual ele chama atenção sobre o fato de os movimentos de pais reivindicarem seus DIREITOS sobre os filhos (e não seus DEVERES enquanto progenitores), argumentando que, no limite, trata-se de um regresso à velha condição patriarcal, centrada na noção de que os filhos ao homem pertencem. O que você acha desse argumento?
MD: As reivindicações desse tipo de movimento fazem da criança uma espécie de propriedade do pai, o que nos leva de novo à velha noção fantasmática de que embrião é uma simples extensão do pai colocada no ventre da mulher que se torna sua propriedade. Sim, essa na verdade é uma regressão quanto ao reconhecimento dos direitos das mulheres de controlarem seu próprio corpo, e poder-se-ia falar também do direito das crianças de não serem apropriadas como um bem que pertença a seu genitor. Em lugar da partilha desejada, que seria, em tese, justa, há muitos elementos de regressão essencialista e biologizante no discurso masculinista, elementos que são facilmente banalizados na psicologia popular e numa certa romantização do papel dos pais como figuras de autoridade, muito mais que de partilha eqüitativa.
(...)
Mas será que este senhor (o de cima) tem razão?
Talvez uma aulita de biologia nos venha ilucidar.
Ora cá vai então:
A reprodução é a capacidade de constituir descendência portadora de genes dos progenitores assegurando a renovação continua da espécie e a transmissão da informação genética de geração em geração.
A espécie humana, como a maior parte das espécies que existem no planeta Terra, reproduzem-se sexuadamente. Na reprodução sexuada ocorre a fecundação, com fusão de gâmetas, geralmente provenientes de dois progenitores diferentes, e formação de um ovo. Os descendentes são únicos, geneticamente diferentes entre si e dos progenitores.
Reprodução Humana
Na reprodução humana intervêm órgãos especializados que formam os sistemas reprodutores (feminino e masculino).
Sistema Reprodutor Feminino
O sistema reprodutor feminino é um conjunto de órgãos que asseguram a produção de óvulos e o desenvolvimento de embriões. Tem como funções básicas:
. Génese de gâmetas;
. Transporte dos gâmetas ao local de fecundação;
. Recepção do esperma;
. Desenvolvimento de novos seres.
Sistema Reprodutor Masculino
O sistema reprodutor masculino é constituído por órgãos que asseguram globalmente a produção de espermatozóides. Tem com funções básicas:
. Génese de espermatozóides e seu armazenamento;
. Produção de secreções que, com os espermatozóides, formam o esperma;
. Transporte e libertação de esperma;
. Copulação.
FONTE: http://www.notapositiva.com/pt/apntestbs/biologia/12_reprod_humana_man_fert.htm
Os senhores por acaso já ouviram falar em mitocôndrias? Não?
Pois eu vim a descobrir que as mitocôndrias são essenciais para a vida das células, pois que são elas que geram energia. Herdámo-las da MÃE. Muito raramente provêm do pai, sendo que mesmo nesses casos, prevalecem as mitocôndrias maternas.
Na generalidade, as paternas são eliminadas logo após a fecundação. Do espermatozóide apenas fica o seu núcleo. A mãe, para além do núcleo, fornece tudo o resto.
Na fusão de ambos os gâmetas, o masculino e o feminino, só lá ficam, portanto, as mitocôndrias maternas, o que faz com que tenhamos mais material genético provindo da mãe. Isso explica o facto de se ter encontrado a primeira mulher da raça humana, mãe de todos nós. E é por isso que cada um de nós deve, na busca pelo seu passado, seguir principalmente o rasto materno.
Quer isto dizer que o espermatozóide, uma das mais pequeninas células do corpo humano depende das mitocôndrias (que herdou da mãe) para viver e para se movimentar. Assim me parece.
Por seu turno, o óvulo, a maior célula do corpo humano, também contém em si mitocôndrias. E são elas que vão, de facto, garantir a vida da nova célula que se gera após a fecundação. O pai apenas transmite o seu material genético, que se irá juntar ao material genético da mãe.
Parece que as minhas conclusões não estão erradas!
Ora vejamos:
BIOLOGIA
QUESTÃO 1
OS ESPERMATOZÓIDES ESTÃO ENTRE AS CÉLULAS HUMANAS QUE POSSUEM MAIOR NÚMERO DE MITOCÔNDRIAS.
A) COMO SE EXPLICA A PRESENÇA DO ALTO NÚMERO DESSAS ORGANELAS NO ESPERMATOZÓIDE?
B) EXPLIQUE POR QUE, MESMO HAVENDO TANTAS MITOCÔNDRIAS NO ESPERMATOZÓIDE, DIZEMOS QUE A HERANÇA MITOCONDRIAL É MATERNA.
RESPOSTA:
A) A GRANDE QUANTIDADE DE MITOCÔNDRIAS TEM A FINALIDADE DE SUPRIR O ESPERMATOZÓIDE DA ENERGIA NECESSÁRIA PARA OS BATIMENTOS DO FLAGELO. É ATRAVÉS DOS MOVIMENTOS DO FLAGELO QUE O ESPERMATOZÓIDE SE LOCOMOVE.
B) A HERANÇA MITOCONDRIAL É MATERNA PORQUE APENAS AS MITOCÔNDRIAS PRESENTES NO ÓVULO FARÃO PARTE DA CONSTITUIÇÃO ESTRUTURAL DO ZIGOTO.
AS MITOCÔNDRIAS DO ESPERMATOZÓIDE ESTÃO LOCALIZADAS NA SUA PEÇA INTERMEDIÁRIA. DURANTE O PROCESSO DE FECUNDAÇÃO APENAS O NÚCLEO DO ESPERMATOZÓIDE PENETRA O ÓVULO.
FONTE: http://www.etapa.com.br/gabaritos/resolucao_pdf/gab_2004/01_unifesp/prova3/unifesp2004ce-b.pdf
Ora cá está: o espermatozóide não é nada sem as mitocôndrias, fonte de energia. Por seu turno, o óvulo também tem essas tais mitocôndrias.
Como as mitocôndrias do espermatozóide se perdem logo após a "fecundação", são as mitocôndrias do óvulo as responsáveis por garantir a vida dessa nova célula formada pela fusão dos núcleos de um (espermatozóide) e do outro (óvulo).
Logo, é de facto a mulher que garante e que dá a vida.
Sem quaisquer dúvidas.
Não esquecendo que as mitocôndrias vêm carregadas de material genético (o ADN mitocondrial).
Como as mitocôndrias do pai se perderam (quase garantidamente), temos nas mitocôndrias apenas o material genético da mãe.
Daí ser tão fácil identificar a primeira Eva (haveria outras mulheres no seu tempo, e mesmo antes, mas só o material genético dessa mulher chegou até nós).
Mas o trabalho da mulher não acaba aqui.
O corpo feminino segrega uma substância química (talvez as mitocôndrias, geradoras de energia,e presentes em todas as células do nosso corpo, sejam de novo responsáveis) que irá orientar os espermatozóides no seu árduo percurso.
Sem isso, e sem os batimentos da sua cauda -são as mitocôndrias que lhes dão energia para se moverem, relembro, e essas foram herdadas da mãe- os espermatozóides não chegavam lá.
Na verdade, essa substância age mais como um magnético, atraindo os espermatozóides para o óvulo.
Daí, talvez, esta piada:
Por que são necessários milhões de espermatozóides para fertilizar um único óvulo?
Porque os espermatozóides são masculinos e se negam a perguntar o caminho.
Frases e Mensagens - Frases Feministas
Para além disso, é a mulher que "escolhe" os espermatozóides que irão fertilizar o seu óvulo.
Significa isto que, apesar de ser o homem a determinar o sexo da criança, na verdade é a mullher quem tem 100% do contrôle.
Daí a razão (uma delas, se não a principal) de um casal só ter meninas, ou só ter meninos. Ou mesmo de ter um menino, e depois uma menina, ou vice-versa.
Foi o homem que assim quis?
Ou foi a mulher que, mesmo inconscientemente, assim decidiu?
Veja-se, por exemplo, o caso de Luis Figo e de David Bechkam: o primeiro é pai de três raparigas, o segundo de três rapazes.
Das suas uma: ou os espermatozódes XY (no caso de Luis Figo)e os XX (no caso de David Bechkam) não tiveram força para marcar, ou isto é obra das respectivas senhoras. A ver como se saem da próxima.
Portanto, quando o homem pensa que tem o contrôle da situação, na verdade é a mulher quem controla.
O que põe por terra certas expressões muito masculinas, tais como "eu comi a gaja!", já que foi o contrário.
Mas porque razão ainda prevalece a ideia de que é o homem que faz e que na mulher acontece?
Talvez por ainda prevalecerem termos como "fecundar" e "fertilizar" (que são de origem latina, e, portanto, prova de que vivia-se, então, numa sociedade patriarcal, em que se acreditava que o homem gerava um prolongamento de si na mulher, sendo dono e senhor quer desta quer da prole) e símbolos como seta para cima e cruz para baixo, que conferem ao homem um papel activo, de verdadeiro actor.
Ou pelo menos passam essa ideia, pois que ainda perdura essa crença e essa mesma atitude.
Eles, os homens, são a potência.
Eles fazem acontecer.
E nós, mulheres, meras barrigas de aluguer.
E pronto, acontece.
Ora, bem vistas as coisas, a autoria é de ambos.
Mas a mulher tem, indubitavelmente, maior participação.
Haja quem o negue.
Nove meses de gestação não são "apenas" nove meses.
SÃO NOVE MESES!
E ainda que, depois de nascer, o filho não mais precise da "casca", ele precisa, mais do que nunca, da mãe.
Entretanto, encontrei este texto muito interessante. Só lamento a tradução...
O ÓVULO E O ESPERMA: COMO A CIÊNCIA CONSTRUIU UM ROMANCE BASEADO EM PAPÉIS ESTEREOTÍPICOS MACHO - FÊMEA
Reprodução livre, em Português Brasileiro, do texto original de Emily Martin para fins de estudo, sem vantagens pecuniárias envolvidas.
Todos os direitos preservados.
Free reproduction, in Brazilian Portuguese, of Emily Martin’s original text for study purposes.
No pecuniary advantagens involved. Copyrights preserved.
Emily Martin
(tradução de Fernando Manso)
Publicação original
Martin, Emily. “The Egg and the Sperm: How Science has Constructed a Romance based on Stereotypical Male-Female Roles”.
In: KELLER, Evelyn F., e LONGINO, Helen E. (eds.). Feminism and Science. New York: Oxford University Press, 1996, p. 103-20.
A teoria do corpo humano é sempre uma parte de uma visão de mundo. A teoria do corpo humano é sempre uma parte de uma fantasia.
[James Hillmam, O mito da Análise]
Como uma antropóloga, eu me interesso pela possibilidade que a cultura molde a forma pela qual os cientistas biólogos descrevem o que eles descobrem sobre o mundo natural. Se isso for verdade, então estaremos aprendendo mais do que o mundo natural nas aulas de biologia; estaremos aprendendo sobre crenças e práticas culturais como se elas fossem parte da natureza. No curso de minha pesquisa eu verifiquei que as figuras do óvulo e do esperma desenhados nos relatos populares e científicos da biologia reprodutiva se baseia em estereótipos centrais a nossa definição cultural de macho e fêmea. Os estereótipos implicam não apenas que os processos biológicos femininos valem menos que seu correspondente masculino, mas também que as mulheres valem menos que os homens. Parte do meu objetivo em escrever este artigo é lançar uma luz nos estereótipos de gênero escondidos dentro da linguagem científica da biologia. Expostos de tal forma, eu espero que eles venham a perder muito de seu poder de nos prejudicar.
O óvulo e o esperma: Um conto de fadas científico
Num nível fundamental, todos os principais livros textos científicos descrevem os órgãos reprodutores masculino e feminino como sistemas para a produção de substâncias valiosas, tais como óvulos e esperma. No caso da mulher, o ciclo mensal é descrito como sendo projetado para produzir óvulos e preparar um local adequado para eles serem fertilizados e crescerem – tudo com a finalidade de fazer bebês. Mas o entusiasmo termina aí. Exaltando o ciclo feminino como um empreendimento produtivo, a menstruação passa a ser vista, necessariamente, como uma falha. Os textos médicos descrevem a menstruação como a “ruína” do forro uterino, o resultado de necrose, ou morte de tecido. A descrição implica que um sistema funcionou mal, fazendo produtos inúteis, fora da especificação, invendáveis, desperdiçados, sucata. Uma ilustração em um testo médico largamente utilizado mostra a menstruação como uma desintegração caótica de forma, complementando os muitos textos que a descrevem como “interrupção”, “morte”, “perda”, “privação”, “expulsão”.
A fisiologia reprodutiva masculina é avaliada de forma bem diferente. Um dos textos que vê menstruação como uma produção falha emprega um tipo de prosa apologética quando descreve a maturação do esperma: “Os mecanismos que guiam a extraordinária transformação celular do ‘spermatid’ em esperma maduro permanece incerta ... Talvez a mais fantástica característica da espermatogênese é sua enorme magnitude: o homem normal pode produzir várias centenas de milhões de espermas por dia”. No texto clássico Medical Physiology, editado por Vernon Mountcastle, a comparação macho/fêmea, produtivo/destrutivo é mais explícita: “Enquanto a fêmea verte apenas um único gameta a cada mês, os túbulos seminíferos produzem centenas de milhões de espermas a cada dia”. A autora feminina de outro texto se deslumbra com o comprimento dos microscópicos túbulos seminíferos, os quais, se desenrolados e esticados “cobririam quase um terço de uma milha!” Ela escreve, “Num adulto macho estas estruturas produzem milhões de espermas a cada dia.” Mais adiante ela pergunta, “Como este feito é conseguido?” Nenhum desses textos expressam entusiasmo tão intenso por qualquer dos processos femininos. Certamente, não é acidente que o “extraordinário” processo de fazer esperma envolve precisamente aquilo que, na visão médica, a menstruação não faz: produção de alguma coisa considerada valiosa.
Poderia ser argumentado que a menstruação e a espermatogênese não são processos análogos e, portanto, não deveria ser esperado que elas provocassem o mesmo tipo de resposta. A analogia feminina própria com a espermatogênese, biologicamente, é a ovulação. Mas a ovulação também não merece o entusiasmo nesses textos. As descrições nos livros textos enfatizam que os folículos ovarianos que contêm o gameta feminino já estão presentes no nascimento. Longe de serem produzidos, como são os espermas, eles meramente aguardam, degenerando lentamente e envelhecendo como um estoque: “No nascimento, os ovários humanos normais contêm um número estimado de um milhão de folículos (cada um), e nenhum novo folículo aparece após o nascimento. Assim em contraste acentuado com o macho, a fêmea recém nascida já tem todas as suas células germinativas. Apenas umas poucas, talvez 400, estão destinadas a atingir plena maturidade, durante sua vida produtiva ativa. Todas as outras se degeneram em algum ponto durante seu desenvolvimento, de tal forma que poucas, se alguma, permanecem ao tempo em que ela atinge a menopausa numa idade de aproximadamente 50 anos”. Note-se o “contraste acentuado” que esta descrição estabelece entre macho e fêmea: o macho, que produz continuamente células germinativas novas, e a fêmea, que estocou ao nascer células germinativas e se depara com a sua degeneração.
Nem são os órgãos femininos poupados de descrições mais intensas. Um cientista escreveu em um artigo de jornal que os ovários de uma mulher se tornam velhos e gastos pelo amadurecimento dos óvulos a cada mês, mesmo que a mulher seja ainda relativamente jovem: “Quando você olha através de um laparoscópio ... num ovário que tenha passado por centenas de ciclos, mesmo em uma fêmea americana extremamente saudável, você vê um órgão marcado e batido”
Para evitar a conotação negativa que algumas pessoas associam ao sistema reprodutor feminino, os cientistas poderiam começar a descrever os processos masculino e feminino como homólogos. Eles poderiam creditar às fêmeas a “produção” de gametas maduros um a cada vez, uma vez que eles são necessários cada mês, e descrever os machos como tendo de encarar problemas de degeneração de células germinativas. Esta degeneração ocorreria ao longo de toda a vida entre os espermatogônios, que são as células germinativas indiferenciadas nos testículos que são as duradouras e inativas precursoras do esperma.
Mas os textos tem uma insistência quase tenaz em expressar os processos femininos numa luz negativa. Os textos celebram a produção de esperma porque ele é contínuo da puberdade à velhice, enquanto eles retratam a produção de óvulos como inferior porque ela está terminada no nascimento. Isto faz a fêmea parecer improdutiva, mas alguns textos também insistem que é ela que é desperdiçadora. Num título de seção do Molecular Biology of the cell, um texto muito lido, está escrito que “A oogênese é desperdiçadora”. O texto enfatiza que de sete milhões de oogônios, ou células germinadoras do óvulo, no embrião feminino, a maioria degenera no ovário. Daquelas que sobrevivem e se tornam oócitos, ou óvulos, muitas também degeneram, de tal forma que no nascimento apenas dois milhões de óvulos permanecem no ovário. A degeneração continua ao longo de toda a vida da mulher: na puberdade permanecem 300.000 óvulos, e apenas alguns poucos estão presentes na menopausa. “durante os quarenta e poucos anos da vida reprodutiva da mulher, apenas 400 ou 500 óvulos serão liberados”, os autores escrevem. “Todo o resto terá degenerado. É ainda um mistério por que tantos óvulos são formados apenas para morrer nos ovários.”
O mistério real é por que a vasta produção de esperma masculina não é vista como um desperdício. Assumindo que um homem produza 100 milhões (108) de espermas por dia (uma estimativa conservadora) durante uma vida reprodutiva média de sessenta anos, ele produziria mais que dois trilhões de espermas em sua vida. Assumindo que um mulher “amadurece” um óvulo por mês lunar, ou treze por ano, ao longo do curso de sua vida reprodutiva de quarenta anos, ela totalizaria cinco centenas de óvulos em sua vida. Mas a palavra desperdício implica um excesso, produção em demasia. Assumindo dois ou três filhos, para cada bebê que uma mulher produz, ela desperdiça apenas por volta de 200 óvulos. Para cada bebê que um homem produz, ele desperdiça mais de um trilhão de espermas.
Como é que imagens positivas são negadas aos corpos das mulheres? Uma olhada na linguagem, neste caso a linguagem científica, fornece a primeira pista. Considere o óvulo e o esperma. É extraordinário como o óvulo se comporta “femininamente” e o esperma se comporta “masculinamente”. O óvulo é visto como grande e passivo. Ele não se move, nem viaja, mas passivamente “é transportado”, “é arrastado”, ou “desliza” pelo tubo falopiano. Em completo contraste, o esperma é pequeno, “dinâmico”, e invariavelmente ativo. Eles “entregam” seus genes ao óvulo, “ativam o programa de desenvolvimento do óvulo”, e têm uma velocidade que é freqüentemente assinalada. Suas caudas são “fortes” e eficientemente dotadas de potência. Junto com as forças da ejaculação eles podem propelir o sêmen nos mais profundos recessos da vagina. Para isso eles precisam de “energia”, “combustível”, de tal forma que com um “movimento como o de um chicote e fortes sacudidelas” eles podem furar a superfície do óvulo e penetrá-lo.
No seu extremo, o velho relacionamento entre o óvulo e o esperma assumem uma aura real ou religiosa. A superfície do óvulo, sua cobertura protetora, é algumas vezes chamada de seus “paramentos”, um termo usualmente reservado para vestimentas sagradas e religiosas. Diz-se que o óvulo tem uma “coroa” e é acompanhado de “células servidoras”. Ele é sagrado, posto de lado e acima, a rainha para o rei do esperma. O óvulo é também passivo, o que significa que ele depende do esperma para ser salvo. Gerald Schatten e Helen Schatten comparam o papel do óvulo ao da Bela Adormecida: “uma noiva adormecida aguardando o beijo mágico de seu companheiro”. O esperma, ao contrário tem uma “missão”, que é “se mover através do trato genital feminino em busca do óvulo”. Um relato popular diz que o esperma executa uma “jornada arriscada” na “escuridão ardente” onde alguns tombam “exaustos”. “Os sobreviventes” “assaltam” o óvulo, os candidatos bem sucedidos “cercando o prêmio”. Parte da urgência dessa jornada, em termos mais científicos, é devida ao fato que “uma vez liberto do ambiente protetor do ovário, um óvulo morrerá dentro de horas a menos que seja salvo por um esperma. As palavras enfatizam a fragilidade e a dependência do óvulo, muito embora o mesmo texto assinala em outra parte que o esperma também vive apenas umas poucas horas.
Em 1948, num livro extraordinário pelas suas primeiras percepções desses assuntos, Ruth Herschberger argumentou que os órgãos reprodutores femininos são vistos como biologicamente interdependentes, enquanto os órgãos masculinos são vistos como autônomos, operando independentemente e isolados:
No presente a funcionalidade é enfatizada apenas em conexão com as mulheres: é nelas que ovários, tubos, útero, e vagina têm interdependências intermináveis. No macho, a reprodução parece envolver apenas “órgãos”.
No entanto o esperma, tanto quanto o óvulo, é dependente de muitos processos relacionados. Há secreções que aliviam a urina na uretra antes da ejaculação, para proteger o esperma. Há o reflexo fechando a conexão com a bexiga, a provisão de secreções prostáticas, e vários tipos de propulsão muscular. O esperma não é mais independente do seu meio do que o óvulo, e no entanto por uma espécie de desejo, os biólogos suportam a noção de que a fêmea, a começar pelo óvulo, é congenitamente mais dependente do que o macho.
Trazendo um outro aspecto da autonomia do esperma, um artigo no periódico Cell tem o esperma tomando uma “decisão existencial” para penetrar no óvulo: “espermas são células com um repertório comportamental limitado, que é direcionado no sentido de fertilizar óvulos. Para executar a decisão de abandonar seu estado haplóide, o esperma nada para um óvulo e lá ele adquire a sua capacidade de efetuar a fusão de membrana”. Não é esta uma versão de um gerente corporativo das atividades do esperma – “executar decisões” angustiado pelas difíceis opções que envolvem altos riscos?
Há uma outra forma pela qual o esperma, apesar do seu pequeno tamanho, pode ser levado a crescer em importância com relação aos óvulos. Numa coleção de artigos científicos, uma micrografia eletrônica de um enorme óvulo e um minúsculo esperma é intitulada “Um Retrato do Esperma”. Isto é um pouco como mostrar a foto de um cachorro e chamá-la de um quadro das pulgas. Admite-se que o esperma microscópico é mais difícil de fotografar do que os óvulos, os quais são suficientemente grandes para serem vistos a olho nu. Mas certamente o uso do termo “retrato”, uma palavra associada com o poderoso e o saudável, é significante. Óvulos têm apenas micrografias ou quadros, não retratos.
Uma descrição do esperma como fraco e tímido, em vez de forte e poderoso – a única tal representação na civilização ocidental até onde eu sei – ocorre no filme de Woody Allen Tudo que você queria saber sobre saber sobre sexo mas teve medo de perguntar. Allen, fazendo o papel de um esperma apreensivo dentro dos testículos de um homem, está assustado com o orgasmo que se aproxima. Ele está relutante em se lançar no escuro, com medo dos dispositivos contraceptivos, com medo de ir parar no teto se o homem se masturba.
O quadro mais comum – o óvulo como uma jovem angustiada, protegida apenas pelas suas vestimentas sagradas; o esperma como um heróico guerreiro pronto a salvá-la – não pode ser provado que seja ditado pela biologia desses eventos. Mesmo que os “fatos” da biologia podem não ser sempre construídos em termos culturais, neste caso eu argumentaria que são. O grau de conteúdo metafórico nessas descrições, a extensão até a qual as diferenças entre o óvulo e o esperma são enfatizadas, e os paralelos entre os estereótipos culturais dos comportamentos do macho e da fêmea e o caráter do óvulo e do esperma, tudo aponta para essa conclusão.
Novas pesquisas, velhas imagens
Na medida em que novos entendimentos do óvulo e do esperma emergem, as imagens de gênero nos livros textos são revisadas. Mas as novas pesquisas, longe de escapar da representações estereotípicas do óvulo e do esperma, simplesmente replicam elementos das imagens de gênero nos livros textos numa forma diferente. A persistência dessas imagens faz lembrar daquilo que Ludwik Fleck chamou de natureza “autocontida” do pensamento científico. Segundo ele a descreve, “a interação entre o que já é sabido, o que permanece a ser aprendido, e aqueles que vão apreender, assegura harmonia dentro do sistema. Mas ao mesmo tempo eles também preservam a harmonia das ilusões, a qual é bastante segura dentro dos limites de um dado estilo de pensamento”. Nós precisamos entender a forma pela qual o conteúdo cultural em descrições científicas muda na medida em que as descobertas biológicas se desdobram, e se o conteúdo cultural está solidamente entrelaçado, ou se é facilmente alterado.
Em todos os textos referidos acima, o esperma é descrito como o que penetra no óvulo, e substâncias específicas ha cabeça do esperma são descritas como as que se ligam ao óvulo. Recentemente, esta descrição de eventos foi revista em um laboratório de biofísica na Universidade Johns Hopkins – transformando o óvulo de parte passiva para ativa.
Anteriormente a essa pesquisa, pensava-se que a zona, os paramentos internos do óvulo, formavam uma barreira impenetrável. O esperma vencia a barreira furando-a mecanicamente, batendo sua cauda e progredindo lentamente. Pesquisas posteriores mostraram que o esperma liberava enzimas digestivas que quebravam quimicamente a zona; assim os cientistas presumiam que o esperma usava meios mecânicos e químicos para entrar no óvulo.
Nesta recente investigação, os pesquisadores começaram a fazer perguntas sobre a força mecânica da cauda do esperma. (O objetivo do laboratório era desenvolver um contraceptivo que trabalhasse topicamente no esperma.) Eles descobriram, para sua grande surpresa, que a força do esperma para a frente é extremamente fraca, o que contradiz o pressuposto de que os espermas são penetradores vigorosos. Em vez de fazer força para a frente, a cabeça do esperma era agora vista se mover, a maior parte do tempo, para a frente e para trás. Os movimentos laterais da cauda do esperma faz a cabeça se mover lateralmente com uma força que é dez vezes mais forte do que seu movimento para a frente. Portanto, mesmo se a força total do esperma fosse suficiente para quebrar mecanicamente a zona, a maior parte de sua forças seria dirigida para os lados e não para a frente. Na verdade, sua tendência mais forte, dez vezes maior, é escapar tentando se libertar do óvulo. Os espermas, então, têm de ser excepcionalmente eficientes para escapar de qualquer superfície celular que eles encostem. E a superfície do óvulo precisa ser projetada para apanhar o esperma e evitar que ele escape. Caso contrário, poucos, ou mesmo nenhum, esperma alcançaria o óvulo.
Os pesquisadores da Johns Hopkins concluíram que o esperma e o óvulo se ligam por conta de moléculas adesivas que há na superfície de cada um deles. O óvulo agarra o esperma e adere a ele tão apertadamente que a cabeça do esperma é forçada a se recostar sobre a superfície da zona, um pouco como, eles me disseram, “o Coelho Br’ er ficando cada vez mais preso ao (tar baby) quanto mais se mexa”. O esperma agarrado continua a se mexer lateralmente, mas sem efeito. A força mecânica da sua cauda é tão fraca que o esperma não pode quebrar nem mesmo uma ligação química. Isto é onde os enzimas digestivos liberados pelo esperma entram em ação. Se eles começam a amolecer a zona exatamente na ponta do esperma e os lados permanecem presos, então o fraco e agitante esperma consegue se orientar na direção certa e consegue atravessar a zona – desde que suas ligações com a zona se dissolvam na medida em que ele se move.
Embora essa nova versão da saga do óvulo e do esperma fosse contra as expectativas culturais, os pesquisadores que fizeram a descoberta continuaram a escrever artigos e resumos como se o esperma fosse a parte ativa que ataca, liga, penetra, e adentra o óvulo. A única diferença era que agora o esperma era visto como se executasse essas ações fracamente. Só em agosto de 1987, mais de três anos após os achados acima descritos, que estes pesquisadores reconceituaram o processo dando ao óvulo um papel mais ativo. Eles começaram a descrever a zona como uma apanhadora agressiva de espermas, coberta com moléculas adesivas que podem capturar um esperma com uma simples ligação e mantê-lo preso na superfície da zona. Nas palavras de seu relato publicado: “O paramento mais interno, a zona pelúcida, é uma capa de glicoproteína, que captura o esperma e o prende antes que ele a penetre ... O esperma é capturado no contato inicial entre sua ponta e a zona ... Uma vez que a força (do esperma) é muito menor que a força necessária para romper uma simples ligação de afinidade, a primeira ligação feita sobre a ponta – primeiro encontro do esperma e a zona – pode resultar na captura do esperma.
Experimentos em um outro laboratório revelaram padrões similares de interpretação de dados. Gerrald Schatten e Helen Schatten mostraram que, contrariamente a sabedoria convencional, “o óvulo não é meramente uma esfera grande cheia de gema a qual o esperma fura para produzir uma nova vida. Ao contrário, pesquisa recente sugere a visão quase herética de que o esperma e o óvulo são parceiros mutuamente ativos.” Isto soa como um afastamento da visão estereotípica dos livros textos, mas lendo um pouco mais revela-se a conformidade dos Schatten com a metáfora do esperma agressivo. Eles descrevem como se dá o encontro do esperma e do óvulo: “é quando da ponta da cabeça triangular do esperma um filamento longo e fino é disparado e arpeia o óvulo”. Ficamos então sabendo que “extraordinariamente, o arpão é não somente disparado mas montado a grande velocidade, molécula por molécula, a partir de uma reserva de proteína armazenadas numa região especializada chamada acrossomo. O filamento pode crescer até 20 vezes maior que a cabeça do esperma até que sua ponta alcance e se fixe no óvulo.” Por que não chamar isso de “construir uma ponte” ou “atirar uma linha” em vez de atirar um arpão? Arpões perfuram as presas e ferem-nas ou matam-nas, enquanto este filamento apenas gruda. E por que não focar, como fez o laboratório Hopkins, no poder grudante do óvulo em vez do poder grudante do esperma? Mais adiante no artigo. Os Schattens replicam a visão da jornada perigosa do esperma pelo escuro ardente da vagina, desta vez com o objetivo de explicar sua jornada dentro do óvulo: “(o esperma) ainda tem uma árdua jornada pela frente. Ele tem de penetrar além dentro da enorme esfera do óvulo de citoplasma e de alguma forma localizar o núcleo, de forma a que os cromossomas das duas células possam de fundir. O esperma mergulha no citoplasma, sua cauda bate. Mas é logo interrompido pela súbita e rápida migração do núcleo do óvulo, que corre na direção do esperma com uma velocidade três vezes maior do que a do movimento dos cromossomas durante a divisão celular, atravessando todo o óvulo em cerca de um minuto”.
Assim como os Schatten e o biofísico da John Hopkins, outro pesquisador fez descobertas recentes que parecem apontar para uma visão mais interativa da relação entre o óvulo e o esperma. Este trabalho, que Paul Wassarman conduziu sobre espermas e óvulos de ratos, foca na identificação de moléculas específicas na cobertura do óvulo (a zona pelúcida) que são envolvidas na interação óvulo esperma. A primeira vista, suas descrições parecem se adequar ao modelo de um relacionamento igualitário. Gametas machos e fêmeos “se reconhecem” e “interações ... ocorrem entre o esperma e o óvulo.” Mas o artigo na Scientific American no qual essas descrições aparecem começa com uma vinheta que pressagia o tema principal de sua apresentação: “Há mais de um século desde que Hermann Fol, um zoólogo suíço, olhando fixamente em seu microscópio, tornou-se a primeira pessoa a ver um esperma penetrar um óvulo, fertilizá-lo e formar a primeira célula do novo embrião”. Este retrato do esperma como a parte ativa – aquele que penetra e fertiliza o óvulo e produz o primeiro embrião – não é citado como exemplo de uma visão anterior e ultrapassada. Ao contrário, o autor reitera o ponto mais adiante no artigo: “Muitos espermas podem se ligar e penetrar a zona pelúcida, ou cobertura externa, de um óvulo de rata infertilizado, mas apenas um esperma se unirá com a fina membrana de plasma que envolve o óvulo propriamente (a esfera interior), fertilizando o óvulo e produzindo um novo embrião.”
As imagens do esperma como agressor são particularmente surpreendentes neste caso: a principal descoberta sendo reportada é o isolamento de uma molécula particular na cobertura do óvulo que cumpre um papel importante na fertilização! A escolha de linguagem de Wassarman sustenta o quadro. Ele chama a molécula que foi isolada de ZP3, um “receptor de esperma”. Assim atribuindo ao óvulo o papel passivo, do que espera, Wassarman pode continuar a descrever o esperma como o ator, aquele que faz tudo acontecer: “O processo básico começa quando muitos espermas primeiro atacam livremente e então se ligam tenazmente aos receptores na superfície na espessa cobertura externa do óvulo, a zona pelúcida. Cada esperma, que tem em sua superfície um grande número de proteínas ligantes ao óvulo, se liga a muitos receptores de esperma no óvulo. Mais especificamente, um lugar em cada uma das proteínas ligantes se encaixa num lugar complementar no receptor do esperma, assim como uma chave se encaixa numa fechadura.” Com o esperma designado como a “chave” e o óvulo como a “fechadura”, é óbvio que um age e o outro sofre a ação. Não poderiam essas imagens serem invertidas, deixando o esperma (a fechadura) esperar até que o óvulo produza a chave? Ou poderíamos falar de duas metades de um encontro de encaixe, e apreciar o encontro em si como a ação que inicia a fertilização?
É como se Wassarman estivesse determinado a fazer do óvulo o parceiro receptor. Usualmente, em pesquisa biológica, as proteínas membros do par de moléculas ligantes são chamadas de receptoras, e fisicamente elas têm um bolso que se parece com uma fechadura. Como mostra o diagrama que ilustra o artigo de Wassarman, as moléculas no esperma são proteínas e têm “bolsos”. As moléculas pequenas e móveis que se encaixam nesses bolsos são chamadas “ligands”. Conforme mostrado no diagrama, ZP3 no óvulo é um polímero de “chaves”; muitas pequenas maçanetas se projetam para fora. Tipicamente, as moléculas do esperma seriam chamadas receptoras, e as moléculas do óvulo seriam chamadas “ligands”. Mas Wassarman escolheu denominar ZP3 no óvulo receptor, e criar um novo termo, “a proteína ligante ao óvulo”, para a molécula do esperma a qual, de outra forma teria sido chamada a receptora.
Wassarman credita à cobertura do óvulo mais funções do que as de um receptor de esperma. Ao mesmo tempo em que ele observa que “a zona pelúcida tem sido vista por vezes por investigadores como uma obstrução, uma barreira para o esperma e assim um impedimento a fertilização”, sua nova pesquisa revela que a cobertura do óvulo “serve como um sofisticado sistema de segurança biológica que examina os espermas que chegam, seleciona apenas aqueles compatíveis com a fertilização e desenvolvimento, prepara o esperma para a fusão com o óvulo e mais tarde protege o embrião resultante da poliespermatização (uma condição letal causada pela fusão de mais que um esperma com um único óvulo)”. Embora esta descrição dê ao óvulo um papel ativo, este papel é reduzido em termos estereotipicamente femininos. O óvulo seleciona um companheiro apropriado, prepara-o para a fusão, e então protege o filho resultante do perigo. Isto é cortejo e comportamento de uma companheira segundo os olhos de um sociobiólogo: mulher como o prêmio difícil de ser obtido, a qual em seguida a união com o escolhido, se torna mulher como servidora e mãe.
E Wassarman não para aí. Num artigo de revisão para a Science, ele resume a “cronologia da fertilização”. Próximo do final do artigo há dois títulos de seção. O primeiro é “A Penetração do Esperma”, sob o qual Wassarman descreve como a química dissolvente da zona pelúcida combina com a “substancial força propulsiva gerada pelo esperma”. O segundo título é “A Fusão Esperma – Óvulo”. Esta seção descreve o que acontece dentro da zona após o esperma “penetrá-la”. O esperma pode fazer contato, aderir, e fundir (ou seja, fertilizar) o óvulo”. A escolha de palavras de Wassarman, novamente, é surpreendentemente favorável a atividade do esperma, pois no próximo pronunciamento ele diz que o esperma perde toda a mobilidade após a fusão com a superfície do óvulo. Nos óvulos dos ratos e ouriços do mar, o esperma entra na volição do óvulo, de acordo com a descrição de Wassarman: “Uma vez fundido com a membrana do plasma do óvulo (a superfície do óvulo), como um esperma adentra o óvulo? A superfície dos óvulos tanto das ratas como dos ouriços marinhos é coberta com milhares de projeções do plasma ligadas a membrana, chamadas microvilli (minúsculos cabelos). Evidência nos ouriços do mar sugere que, após a fusão da membrana, um grupo de microvilli alongadas se agrupam apertadamente e se entrelaçam com a cabeça do esperma. Na medida em que as microvilli são sugadas, o esperma é levado para dentro do óvulo. Portanto, a mobilidade do esperma, que cessa no momento da fusão tanto na rata como no ouriço do mar, não é requerida para a entrada do esperma”. A seção chamada “A penetração do esperma” seria seguida, mais logicamente, por uma seção chamada “O óvulo envelopa” do que “A fusão esperma óvulo”. Isto daria um sentido paralelo – e mais preciso – de que tanto o óvulo quanto o esperma iniciam a ação.
Uma outra forma pela qual Wasserman reduz a atividade do óvulo é pela descrição de componentes do óvulo enquanto se refere ao esperma como uma entidade inteira. Deborah Gordon descreveu tal abordagem como “atomismo” (“a parte é independente e primordial para o todo”) e a identificou como um dos “pressupostos persistentes” da ciência e medicina ocidentais. Wassarman emprega o atomismo em seu favor. Quando ele refere a processos que ocorrem dentro do esperma, ele consistentemente retorna a descrições que nos lembram de onde essas atividades vem: elas são parte do esperma que penetra um óvulo ou gera força propulsiva. Quando ele refere a processos que ocorrem dentro do óvulo, ele para aí. Como resultado, qualquer papel ativo que ele lhes atribui parece ser atribuído a partes do óvulo, e não ao óvulo em si. Na citação acima, é o microvilli que ativamente se agrupa em torno do esperma. Num outro exemplo, “a força propulsora da absorção de um esperma fundido vem de uma região do citoplasma imediatamente abaixo de uma membrana do plasma do óvulo”
Implicações sociais: Pensando além
Todos esses três relatos revisionistas do óvulo e esperma parecem não poder escapar das imagens hierárquicas dos relatos antigos. Muito embora cada novo relato dê ao óvulo um papel maior e mais ativo, apreciados juntos eles trazem a cena um outro estereótipo cultural: a mulher como uma ameaça perigosa e agressiva. No modelo revisado do laboratório John Hopkins, o óvulo termina como a fêmea agressora que “captura e prende” o esperma com sua zona aderente, assim como uma aranha aguarda em sua teia. O laboratório dos Schatten dispõe que o núcleo do óvulo “interrompe” o mergulho do esperma com uma corrida “súbita e rápida” pela qual ele segura o esperma e guia seu núcleo para o centro. A descrição de Wassarman da superfície do óvulo “coberto por milhares de projeções do plasma ligadas a membrana, chamadas micvrovilli” que alcança e segura o esperma endossa as imagens do tipo aranha.
Essa imagens atribuem ao óvulo um papel ativo, mas ao custo de parecerem indevidamente agressivos. Imagens de mulher como perigosas e agressivas, a fêmea fatal que vitima os homens, são largamente difundidas na literatura ocidental. Mais específica é a conexão das imagens de aranha com a idéia de mãe absorvente e devoradora. Novos dados não levaram os cientistas a eliminar os estereótipos de gênero de suas descrições do óvulo e do esperma. Ao contrário, os cientistas simplesmente começaram a descrever o óvulo e o esperma em termos diferentes, mas não menos danosos.
Podemos pensar numa visão menos estereotípica? A própria biologia fornece um outro modelo que poderia ser aplicado ao óvulo e ao esperma. O modelo cibernético, com seus ciclos de realimentação, adaptação flexível a mudança, coordenação das partes dentro do todo, evolução no tempo, respostas mutáveis ao ambiente – é comum em genética, endocrinologia, e ecologia e tem uma influência crescente na medicina em geral. Este modelo tem o potencial de deslocar nossas imagens do negativo, onde o sistema reprodutivo feminino é castigado tanto por não produzir óvulos após o nascimento e por produzir (e assim desperdiçar) ovos em demasia, para algo mais positivo. O sistema reprodutivo feminino poderia ser visto como respondendo ao ambiente (gravidez ou menopausa), ajustando às mudanças mensais (menstruação), e se alterando flexivelmente de reprodutor após a puberdade a não reprodutor mais tarde na vida. As interações entre o esperma e o óvulo poderiam também ser descritas em termos cibernéticos. A pesquisa de J. F. Hartman em biologia reprodutiva demonstrou quinze anos atrás que se um óvulo é morto por ser espetado com uma agulha, o esperma vivo não pode atravessar a zona. Claramente, esta evidência mostra que o óvulo e o esperma interagem em termos mais mútuos, tornando inconveniente a recusa da biologia em retratá-los dessa forma.
Faríamos bem em estarmos conscientes, no entanto, que as imagens cibernéticas não são neutras. No passado, modelos cibernéticos cumpriram uma parte importante na imposição do controle social. Estes modelos fornecem inerentemente uma forma de pensar sobre um “campo” de componentes interativos. Uma vez que o campo pode ser visto, ele pode se tornar o objeto de novas formas de conhecimento, o que por sua vez pode permitir novas formas de controle social a serem exercidas sobre os componentes do campo. Durante os anos 50, por exemplo, a medicina começou a reconhecer o ambiente psicossocial do paciente: a família do paciente e sua psicodinâmica. Profissões tais como o serviço social começaram a focar sobre este novo ambiente, e o conhecimento resultante tornou-se um modo de controlar mais o paciente. Pacientes começaram a ser vistos não mais como corpos individuais isolados, mas como entidades psicossociais localizadas num sistema “ecológico”: a administração da “psicologia do paciente foi uma nova forma de controle do paciente.”
Os modelos que os biólogos usam para descrever seus dados podem ter importantes efeitos sociais. Durante o século dezenove as ciências sociais e naturais influenciaram fortemente uma a outra: as idéias sociais de Malthus sobre como evitar o crescimento natural do pobre inspiraram A Origem das Espécies de Darwin. Uma vez que a Origem se colocou como uma descrição do mundo natural, completa com competição e lutas de mercado, ela pode ser reimportada pela ciência social como o Darwinismo social, no objetivo de justificar a ordem social. O que estamos vendo agora é similar: a importação de idéias culturais sobre fêmeas passivas e machos heróicos pelas “personalidades” dos gametas. Isto significa “implantar imagens sociais sobre representações da natureza de forma a estabelecer uma base firma para reimportar as mesmas imagens como explicações naturais de fenômenos sociais.
Mais pesquisa nos mostraria exatamente quais efeitos sociais estão sendo trabalhados a partir das imagens biológicas do óvulo e do esperma. No mínimo, as imagens mantêm vivas alguns dos estereótipos mais antigos sobre as fracas donzelas angustiadas e seus fortes machos salvadores. Que estes estereótipos estejam agora sendo escritos ao nível da célula constitui um movimento poderoso para fazê-los parecer tão naturais que sejam imunes a alteração.
As imagens estereotípicas podem também encorajar pessoas a imaginar que o que resulta da interação entre o óvulo e o esperma – um óvulo fertilizado – é o resultado de uma ação “humana” deliberada no nível celular. Independentemente das intenções do casal humano, nesta “cultura” microscópica uma “noiva” celular (ou fêmea fatal) e um “noivo” celular (sua vítima) fazem um bebê celular. Rosalind Petchesky aponta que através de representações visuais tais como os as imagens ultrassônicas, temos acesso a “imagens de fetos cada vez mais novos e cada vez menores sendo ‘salvos’.” Isto leva ao “ponto de visibilidade ser ‘empurrado para trás’ indefinidamente”. Dotar os óvulos e espermas de ação intencional, um aspecto chave da pessoalidade em nossa cultura, estabelece as fundações para o ponto de visibilidade ser empurrado para trás até o momento da fertilização. Isto, provavelmente, levará a uma maior aceitação dos desenvolvimentos tecnológicos e a novas formas de investigação e manipulação, para o benefício dessas “pessoas” internas: restrições legais às atividades de mulheres grávidas para proteger seus fetos, cirurgia fetal, amniocentesis, e revogação dos direitos de aborto, para citar uns poucos exemplos.
Mesmo que tenhamos sucesso em substituir metáforas mais igualitárias e interativas para descrever as atividades do óvulo e do esperma, e consigamos evitar os perigos dos modelos cibernéticos, ainda estaríamos culpadas de dotar entidades celulares com pessoalidade. Mais crucial do que os tipos de personalidade que estamos outorgando às células é o próprio fato de estarmos fazendo isso. Este processo pode vir a ter conseqüências sociais profundamente danosas.
Um claro desafio feminista é acordar metáforas adormecidas nas ciências, particularmente aquelas envolvidas em descrições do óvulo e do esperma. Embora a convenção literária seja chamar tais metáforas de “mortas”, elas não estão mais mortas do que adormecidas, escondidas dentro do conteúdo científico de textos – e muito poderosas para ele. Acordar tais metáforas, tornando-nos conscientes de quando nós estamos projetando imagens culturais sobre o que estudamos, melhorará nossa capacidade de investigar e entender a natureza. Acordar tais metáforas, tornando-nos conscientes de suas implicações, as furtará de seu poder de naturalizar nossas convenções sociais sobre gênero.
Eis o que se conclui das palavras de um certo senhor. E estamos nós no século XXI!
Ora vejam:
"(...). Isto tem que acabar de vez. Não é porque a natureza disse que a mulher é quem irá gerar um filho em sua barriga que se tirará o direito do homem pelo simples fato de ñão ter sido ele quem a natureza escolheu para esta gestação, alem do mais, porque se tende a achar que porque um filho passa apenas 9 meses na barriga de uma mãe, que por isto todos os outros anos restantes de sua vida pertencerão somente a ela com maior direito ? Isto é injustiça. A mulher prover a gestação, mas uma vez fora do útero, o novo ser não precisa mais daquela "casca" que foi gerada, e nem a criança precisa ser penalizada pelo resto da vida apenas pelo fato de que a natureza é quem quis assim. Outra coisa que poucos talvez não tenham percebido. A mulher prover a gestação e cede o seu óvulo, que apenas contém o seu material genético, mas observem que quem dá a vida mesmo é o homem, pois é o espermatozóide que traz os movimentos. Observem que o óvulo não se mexe. A vida, esta troca de energia contínua que faz algo se mover, quem dar mesmo é só o homem atraves do seu espermatozóide. Este é o meu ponto de vista que deixo aqui e que faço questão de colocá-lo apenas para mostrar que a mulher não tem que se sentir com direito nenhum a mais que o pai, e ponto final. A disputa deverá ser sim, por bons comportamentos e conduta, que isto era o que a justiça deveria ver, e não somente quem pariu e cedeu a barriga apenas por 9 meses, pois já que é assim, a justiça deveria também considerar que quem dar a vida, movimento, mmesmo, é o homem e não amulher, então isto por si só se anulam estes dois fatos equilibrando-sos mutuamente. (...)"
Ora estas palavras vêm corroborar aquilo que Martin Dufresne (MD) disse em entrevista:
(...)
CST: Um dos depoimentos destacados pelos diretores do filme In Nomine Patris é o do deputado europeu Alain Lipietz, no qual ele chama atenção sobre o fato de os movimentos de pais reivindicarem seus DIREITOS sobre os filhos (e não seus DEVERES enquanto progenitores), argumentando que, no limite, trata-se de um regresso à velha condição patriarcal, centrada na noção de que os filhos ao homem pertencem. O que você acha desse argumento?
MD: As reivindicações desse tipo de movimento fazem da criança uma espécie de propriedade do pai, o que nos leva de novo à velha noção fantasmática de que embrião é uma simples extensão do pai colocada no ventre da mulher que se torna sua propriedade. Sim, essa na verdade é uma regressão quanto ao reconhecimento dos direitos das mulheres de controlarem seu próprio corpo, e poder-se-ia falar também do direito das crianças de não serem apropriadas como um bem que pertença a seu genitor. Em lugar da partilha desejada, que seria, em tese, justa, há muitos elementos de regressão essencialista e biologizante no discurso masculinista, elementos que são facilmente banalizados na psicologia popular e numa certa romantização do papel dos pais como figuras de autoridade, muito mais que de partilha eqüitativa.
(...)
Mas será que este senhor (o de cima) tem razão?
Talvez uma aulita de biologia nos venha ilucidar.
Ora cá vai então:
A reprodução é a capacidade de constituir descendência portadora de genes dos progenitores assegurando a renovação continua da espécie e a transmissão da informação genética de geração em geração.
A espécie humana, como a maior parte das espécies que existem no planeta Terra, reproduzem-se sexuadamente. Na reprodução sexuada ocorre a fecundação, com fusão de gâmetas, geralmente provenientes de dois progenitores diferentes, e formação de um ovo. Os descendentes são únicos, geneticamente diferentes entre si e dos progenitores.
Reprodução Humana
Na reprodução humana intervêm órgãos especializados que formam os sistemas reprodutores (feminino e masculino).
Sistema Reprodutor Feminino
O sistema reprodutor feminino é um conjunto de órgãos que asseguram a produção de óvulos e o desenvolvimento de embriões. Tem como funções básicas:
. Génese de gâmetas;
. Transporte dos gâmetas ao local de fecundação;
. Recepção do esperma;
. Desenvolvimento de novos seres.
Sistema Reprodutor Masculino
O sistema reprodutor masculino é constituído por órgãos que asseguram globalmente a produção de espermatozóides. Tem com funções básicas:
. Génese de espermatozóides e seu armazenamento;
. Produção de secreções que, com os espermatozóides, formam o esperma;
. Transporte e libertação de esperma;
. Copulação.
FONTE: http://www.notapositiva.com/pt/apntestbs/biologia/12_reprod_humana_man_fert.htm
Os senhores por acaso já ouviram falar em mitocôndrias? Não?
Pois eu vim a descobrir que as mitocôndrias são essenciais para a vida das células, pois que são elas que geram energia. Herdámo-las da MÃE. Muito raramente provêm do pai, sendo que mesmo nesses casos, prevalecem as mitocôndrias maternas.
Na generalidade, as paternas são eliminadas logo após a fecundação. Do espermatozóide apenas fica o seu núcleo. A mãe, para além do núcleo, fornece tudo o resto.
Na fusão de ambos os gâmetas, o masculino e o feminino, só lá ficam, portanto, as mitocôndrias maternas, o que faz com que tenhamos mais material genético provindo da mãe. Isso explica o facto de se ter encontrado a primeira mulher da raça humana, mãe de todos nós. E é por isso que cada um de nós deve, na busca pelo seu passado, seguir principalmente o rasto materno.
Quer isto dizer que o espermatozóide, uma das mais pequeninas células do corpo humano depende das mitocôndrias (que herdou da mãe) para viver e para se movimentar. Assim me parece.
Por seu turno, o óvulo, a maior célula do corpo humano, também contém em si mitocôndrias. E são elas que vão, de facto, garantir a vida da nova célula que se gera após a fecundação. O pai apenas transmite o seu material genético, que se irá juntar ao material genético da mãe.
Parece que as minhas conclusões não estão erradas!
Ora vejamos:
BIOLOGIA
QUESTÃO 1
OS ESPERMATOZÓIDES ESTÃO ENTRE AS CÉLULAS HUMANAS QUE POSSUEM MAIOR NÚMERO DE MITOCÔNDRIAS.
A) COMO SE EXPLICA A PRESENÇA DO ALTO NÚMERO DESSAS ORGANELAS NO ESPERMATOZÓIDE?
B) EXPLIQUE POR QUE, MESMO HAVENDO TANTAS MITOCÔNDRIAS NO ESPERMATOZÓIDE, DIZEMOS QUE A HERANÇA MITOCONDRIAL É MATERNA.
RESPOSTA:
A) A GRANDE QUANTIDADE DE MITOCÔNDRIAS TEM A FINALIDADE DE SUPRIR O ESPERMATOZÓIDE DA ENERGIA NECESSÁRIA PARA OS BATIMENTOS DO FLAGELO. É ATRAVÉS DOS MOVIMENTOS DO FLAGELO QUE O ESPERMATOZÓIDE SE LOCOMOVE.
B) A HERANÇA MITOCONDRIAL É MATERNA PORQUE APENAS AS MITOCÔNDRIAS PRESENTES NO ÓVULO FARÃO PARTE DA CONSTITUIÇÃO ESTRUTURAL DO ZIGOTO.
AS MITOCÔNDRIAS DO ESPERMATOZÓIDE ESTÃO LOCALIZADAS NA SUA PEÇA INTERMEDIÁRIA. DURANTE O PROCESSO DE FECUNDAÇÃO APENAS O NÚCLEO DO ESPERMATOZÓIDE PENETRA O ÓVULO.
FONTE: http://www.etapa.com.br/gabaritos/resolucao_pdf/gab_2004/01_unifesp/prova3/unifesp2004ce-b.pdf
Ora cá está: o espermatozóide não é nada sem as mitocôndrias, fonte de energia. Por seu turno, o óvulo também tem essas tais mitocôndrias.
Como as mitocôndrias do espermatozóide se perdem logo após a "fecundação", são as mitocôndrias do óvulo as responsáveis por garantir a vida dessa nova célula formada pela fusão dos núcleos de um (espermatozóide) e do outro (óvulo).
Logo, é de facto a mulher que garante e que dá a vida.
Sem quaisquer dúvidas.
Não esquecendo que as mitocôndrias vêm carregadas de material genético (o ADN mitocondrial).
Como as mitocôndrias do pai se perderam (quase garantidamente), temos nas mitocôndrias apenas o material genético da mãe.
Daí ser tão fácil identificar a primeira Eva (haveria outras mulheres no seu tempo, e mesmo antes, mas só o material genético dessa mulher chegou até nós).
Mas o trabalho da mulher não acaba aqui.
O corpo feminino segrega uma substância química (talvez as mitocôndrias, geradoras de energia,e presentes em todas as células do nosso corpo, sejam de novo responsáveis) que irá orientar os espermatozóides no seu árduo percurso.
Sem isso, e sem os batimentos da sua cauda -são as mitocôndrias que lhes dão energia para se moverem, relembro, e essas foram herdadas da mãe- os espermatozóides não chegavam lá.
Na verdade, essa substância age mais como um magnético, atraindo os espermatozóides para o óvulo.
Daí, talvez, esta piada:
Porque os espermatozóides são masculinos e se negam a perguntar o caminho.
Frases e Mensagens - Frases Feministas
Para além disso, é a mulher que "escolhe" os espermatozóides que irão fertilizar o seu óvulo.
Significa isto que, apesar de ser o homem a determinar o sexo da criança, na verdade é a mullher quem tem 100% do contrôle.
Daí a razão (uma delas, se não a principal) de um casal só ter meninas, ou só ter meninos. Ou mesmo de ter um menino, e depois uma menina, ou vice-versa.
Foi o homem que assim quis?
Ou foi a mulher que, mesmo inconscientemente, assim decidiu?
Veja-se, por exemplo, o caso de Luis Figo e de David Bechkam: o primeiro é pai de três raparigas, o segundo de três rapazes.
Das suas uma: ou os espermatozódes XY (no caso de Luis Figo)e os XX (no caso de David Bechkam) não tiveram força para marcar, ou isto é obra das respectivas senhoras. A ver como se saem da próxima.
Portanto, quando o homem pensa que tem o contrôle da situação, na verdade é a mulher quem controla.
O que põe por terra certas expressões muito masculinas, tais como "eu comi a gaja!", já que foi o contrário.
Mas porque razão ainda prevalece a ideia de que é o homem que faz e que na mulher acontece?
Talvez por ainda prevalecerem termos como "fecundar" e "fertilizar" (que são de origem latina, e, portanto, prova de que vivia-se, então, numa sociedade patriarcal, em que se acreditava que o homem gerava um prolongamento de si na mulher, sendo dono e senhor quer desta quer da prole) e símbolos como seta para cima e cruz para baixo, que conferem ao homem um papel activo, de verdadeiro actor.
Ou pelo menos passam essa ideia, pois que ainda perdura essa crença e essa mesma atitude.
Eles, os homens, são a potência.
Eles fazem acontecer.
E nós, mulheres, meras barrigas de aluguer.
E pronto, acontece.
Ora, bem vistas as coisas, a autoria é de ambos.
Mas a mulher tem, indubitavelmente, maior participação.
Haja quem o negue.
Nove meses de gestação não são "apenas" nove meses.
SÃO NOVE MESES!
E ainda que, depois de nascer, o filho não mais precise da "casca", ele precisa, mais do que nunca, da mãe.
Entretanto, encontrei este texto muito interessante. Só lamento a tradução...
O ÓVULO E O ESPERMA: COMO A CIÊNCIA CONSTRUIU UM ROMANCE BASEADO EM PAPÉIS ESTEREOTÍPICOS MACHO - FÊMEA
Reprodução livre, em Português Brasileiro, do texto original de Emily Martin para fins de estudo, sem vantagens pecuniárias envolvidas.
Todos os direitos preservados.
Free reproduction, in Brazilian Portuguese, of Emily Martin’s original text for study purposes.
No pecuniary advantagens involved. Copyrights preserved.
Emily Martin
(tradução de Fernando Manso)
Publicação original
Martin, Emily. “The Egg and the Sperm: How Science has Constructed a Romance based on Stereotypical Male-Female Roles”.
In: KELLER, Evelyn F., e LONGINO, Helen E. (eds.). Feminism and Science. New York: Oxford University Press, 1996, p. 103-20.
A teoria do corpo humano é sempre uma parte de uma visão de mundo. A teoria do corpo humano é sempre uma parte de uma fantasia.
[James Hillmam, O mito da Análise]
Como uma antropóloga, eu me interesso pela possibilidade que a cultura molde a forma pela qual os cientistas biólogos descrevem o que eles descobrem sobre o mundo natural. Se isso for verdade, então estaremos aprendendo mais do que o mundo natural nas aulas de biologia; estaremos aprendendo sobre crenças e práticas culturais como se elas fossem parte da natureza. No curso de minha pesquisa eu verifiquei que as figuras do óvulo e do esperma desenhados nos relatos populares e científicos da biologia reprodutiva se baseia em estereótipos centrais a nossa definição cultural de macho e fêmea. Os estereótipos implicam não apenas que os processos biológicos femininos valem menos que seu correspondente masculino, mas também que as mulheres valem menos que os homens. Parte do meu objetivo em escrever este artigo é lançar uma luz nos estereótipos de gênero escondidos dentro da linguagem científica da biologia. Expostos de tal forma, eu espero que eles venham a perder muito de seu poder de nos prejudicar.
O óvulo e o esperma: Um conto de fadas científico
Num nível fundamental, todos os principais livros textos científicos descrevem os órgãos reprodutores masculino e feminino como sistemas para a produção de substâncias valiosas, tais como óvulos e esperma. No caso da mulher, o ciclo mensal é descrito como sendo projetado para produzir óvulos e preparar um local adequado para eles serem fertilizados e crescerem – tudo com a finalidade de fazer bebês. Mas o entusiasmo termina aí. Exaltando o ciclo feminino como um empreendimento produtivo, a menstruação passa a ser vista, necessariamente, como uma falha. Os textos médicos descrevem a menstruação como a “ruína” do forro uterino, o resultado de necrose, ou morte de tecido. A descrição implica que um sistema funcionou mal, fazendo produtos inúteis, fora da especificação, invendáveis, desperdiçados, sucata. Uma ilustração em um testo médico largamente utilizado mostra a menstruação como uma desintegração caótica de forma, complementando os muitos textos que a descrevem como “interrupção”, “morte”, “perda”, “privação”, “expulsão”.
A fisiologia reprodutiva masculina é avaliada de forma bem diferente. Um dos textos que vê menstruação como uma produção falha emprega um tipo de prosa apologética quando descreve a maturação do esperma: “Os mecanismos que guiam a extraordinária transformação celular do ‘spermatid’ em esperma maduro permanece incerta ... Talvez a mais fantástica característica da espermatogênese é sua enorme magnitude: o homem normal pode produzir várias centenas de milhões de espermas por dia”. No texto clássico Medical Physiology, editado por Vernon Mountcastle, a comparação macho/fêmea, produtivo/destrutivo é mais explícita: “Enquanto a fêmea verte apenas um único gameta a cada mês, os túbulos seminíferos produzem centenas de milhões de espermas a cada dia”. A autora feminina de outro texto se deslumbra com o comprimento dos microscópicos túbulos seminíferos, os quais, se desenrolados e esticados “cobririam quase um terço de uma milha!” Ela escreve, “Num adulto macho estas estruturas produzem milhões de espermas a cada dia.” Mais adiante ela pergunta, “Como este feito é conseguido?” Nenhum desses textos expressam entusiasmo tão intenso por qualquer dos processos femininos. Certamente, não é acidente que o “extraordinário” processo de fazer esperma envolve precisamente aquilo que, na visão médica, a menstruação não faz: produção de alguma coisa considerada valiosa.
Poderia ser argumentado que a menstruação e a espermatogênese não são processos análogos e, portanto, não deveria ser esperado que elas provocassem o mesmo tipo de resposta. A analogia feminina própria com a espermatogênese, biologicamente, é a ovulação. Mas a ovulação também não merece o entusiasmo nesses textos. As descrições nos livros textos enfatizam que os folículos ovarianos que contêm o gameta feminino já estão presentes no nascimento. Longe de serem produzidos, como são os espermas, eles meramente aguardam, degenerando lentamente e envelhecendo como um estoque: “No nascimento, os ovários humanos normais contêm um número estimado de um milhão de folículos (cada um), e nenhum novo folículo aparece após o nascimento. Assim em contraste acentuado com o macho, a fêmea recém nascida já tem todas as suas células germinativas. Apenas umas poucas, talvez 400, estão destinadas a atingir plena maturidade, durante sua vida produtiva ativa. Todas as outras se degeneram em algum ponto durante seu desenvolvimento, de tal forma que poucas, se alguma, permanecem ao tempo em que ela atinge a menopausa numa idade de aproximadamente 50 anos”. Note-se o “contraste acentuado” que esta descrição estabelece entre macho e fêmea: o macho, que produz continuamente células germinativas novas, e a fêmea, que estocou ao nascer células germinativas e se depara com a sua degeneração.
Nem são os órgãos femininos poupados de descrições mais intensas. Um cientista escreveu em um artigo de jornal que os ovários de uma mulher se tornam velhos e gastos pelo amadurecimento dos óvulos a cada mês, mesmo que a mulher seja ainda relativamente jovem: “Quando você olha através de um laparoscópio ... num ovário que tenha passado por centenas de ciclos, mesmo em uma fêmea americana extremamente saudável, você vê um órgão marcado e batido”
Para evitar a conotação negativa que algumas pessoas associam ao sistema reprodutor feminino, os cientistas poderiam começar a descrever os processos masculino e feminino como homólogos. Eles poderiam creditar às fêmeas a “produção” de gametas maduros um a cada vez, uma vez que eles são necessários cada mês, e descrever os machos como tendo de encarar problemas de degeneração de células germinativas. Esta degeneração ocorreria ao longo de toda a vida entre os espermatogônios, que são as células germinativas indiferenciadas nos testículos que são as duradouras e inativas precursoras do esperma.
Mas os textos tem uma insistência quase tenaz em expressar os processos femininos numa luz negativa. Os textos celebram a produção de esperma porque ele é contínuo da puberdade à velhice, enquanto eles retratam a produção de óvulos como inferior porque ela está terminada no nascimento. Isto faz a fêmea parecer improdutiva, mas alguns textos também insistem que é ela que é desperdiçadora. Num título de seção do Molecular Biology of the cell, um texto muito lido, está escrito que “A oogênese é desperdiçadora”. O texto enfatiza que de sete milhões de oogônios, ou células germinadoras do óvulo, no embrião feminino, a maioria degenera no ovário. Daquelas que sobrevivem e se tornam oócitos, ou óvulos, muitas também degeneram, de tal forma que no nascimento apenas dois milhões de óvulos permanecem no ovário. A degeneração continua ao longo de toda a vida da mulher: na puberdade permanecem 300.000 óvulos, e apenas alguns poucos estão presentes na menopausa. “durante os quarenta e poucos anos da vida reprodutiva da mulher, apenas 400 ou 500 óvulos serão liberados”, os autores escrevem. “Todo o resto terá degenerado. É ainda um mistério por que tantos óvulos são formados apenas para morrer nos ovários.”
O mistério real é por que a vasta produção de esperma masculina não é vista como um desperdício. Assumindo que um homem produza 100 milhões (108) de espermas por dia (uma estimativa conservadora) durante uma vida reprodutiva média de sessenta anos, ele produziria mais que dois trilhões de espermas em sua vida. Assumindo que um mulher “amadurece” um óvulo por mês lunar, ou treze por ano, ao longo do curso de sua vida reprodutiva de quarenta anos, ela totalizaria cinco centenas de óvulos em sua vida. Mas a palavra desperdício implica um excesso, produção em demasia. Assumindo dois ou três filhos, para cada bebê que uma mulher produz, ela desperdiça apenas por volta de 200 óvulos. Para cada bebê que um homem produz, ele desperdiça mais de um trilhão de espermas.
Como é que imagens positivas são negadas aos corpos das mulheres? Uma olhada na linguagem, neste caso a linguagem científica, fornece a primeira pista. Considere o óvulo e o esperma. É extraordinário como o óvulo se comporta “femininamente” e o esperma se comporta “masculinamente”. O óvulo é visto como grande e passivo. Ele não se move, nem viaja, mas passivamente “é transportado”, “é arrastado”, ou “desliza” pelo tubo falopiano. Em completo contraste, o esperma é pequeno, “dinâmico”, e invariavelmente ativo. Eles “entregam” seus genes ao óvulo, “ativam o programa de desenvolvimento do óvulo”, e têm uma velocidade que é freqüentemente assinalada. Suas caudas são “fortes” e eficientemente dotadas de potência. Junto com as forças da ejaculação eles podem propelir o sêmen nos mais profundos recessos da vagina. Para isso eles precisam de “energia”, “combustível”, de tal forma que com um “movimento como o de um chicote e fortes sacudidelas” eles podem furar a superfície do óvulo e penetrá-lo.
No seu extremo, o velho relacionamento entre o óvulo e o esperma assumem uma aura real ou religiosa. A superfície do óvulo, sua cobertura protetora, é algumas vezes chamada de seus “paramentos”, um termo usualmente reservado para vestimentas sagradas e religiosas. Diz-se que o óvulo tem uma “coroa” e é acompanhado de “células servidoras”. Ele é sagrado, posto de lado e acima, a rainha para o rei do esperma. O óvulo é também passivo, o que significa que ele depende do esperma para ser salvo. Gerald Schatten e Helen Schatten comparam o papel do óvulo ao da Bela Adormecida: “uma noiva adormecida aguardando o beijo mágico de seu companheiro”. O esperma, ao contrário tem uma “missão”, que é “se mover através do trato genital feminino em busca do óvulo”. Um relato popular diz que o esperma executa uma “jornada arriscada” na “escuridão ardente” onde alguns tombam “exaustos”. “Os sobreviventes” “assaltam” o óvulo, os candidatos bem sucedidos “cercando o prêmio”. Parte da urgência dessa jornada, em termos mais científicos, é devida ao fato que “uma vez liberto do ambiente protetor do ovário, um óvulo morrerá dentro de horas a menos que seja salvo por um esperma. As palavras enfatizam a fragilidade e a dependência do óvulo, muito embora o mesmo texto assinala em outra parte que o esperma também vive apenas umas poucas horas.
Em 1948, num livro extraordinário pelas suas primeiras percepções desses assuntos, Ruth Herschberger argumentou que os órgãos reprodutores femininos são vistos como biologicamente interdependentes, enquanto os órgãos masculinos são vistos como autônomos, operando independentemente e isolados:
No presente a funcionalidade é enfatizada apenas em conexão com as mulheres: é nelas que ovários, tubos, útero, e vagina têm interdependências intermináveis. No macho, a reprodução parece envolver apenas “órgãos”.
No entanto o esperma, tanto quanto o óvulo, é dependente de muitos processos relacionados. Há secreções que aliviam a urina na uretra antes da ejaculação, para proteger o esperma. Há o reflexo fechando a conexão com a bexiga, a provisão de secreções prostáticas, e vários tipos de propulsão muscular. O esperma não é mais independente do seu meio do que o óvulo, e no entanto por uma espécie de desejo, os biólogos suportam a noção de que a fêmea, a começar pelo óvulo, é congenitamente mais dependente do que o macho.
Trazendo um outro aspecto da autonomia do esperma, um artigo no periódico Cell tem o esperma tomando uma “decisão existencial” para penetrar no óvulo: “espermas são células com um repertório comportamental limitado, que é direcionado no sentido de fertilizar óvulos. Para executar a decisão de abandonar seu estado haplóide, o esperma nada para um óvulo e lá ele adquire a sua capacidade de efetuar a fusão de membrana”. Não é esta uma versão de um gerente corporativo das atividades do esperma – “executar decisões” angustiado pelas difíceis opções que envolvem altos riscos?
Há uma outra forma pela qual o esperma, apesar do seu pequeno tamanho, pode ser levado a crescer em importância com relação aos óvulos. Numa coleção de artigos científicos, uma micrografia eletrônica de um enorme óvulo e um minúsculo esperma é intitulada “Um Retrato do Esperma”. Isto é um pouco como mostrar a foto de um cachorro e chamá-la de um quadro das pulgas. Admite-se que o esperma microscópico é mais difícil de fotografar do que os óvulos, os quais são suficientemente grandes para serem vistos a olho nu. Mas certamente o uso do termo “retrato”, uma palavra associada com o poderoso e o saudável, é significante. Óvulos têm apenas micrografias ou quadros, não retratos.
Uma descrição do esperma como fraco e tímido, em vez de forte e poderoso – a única tal representação na civilização ocidental até onde eu sei – ocorre no filme de Woody Allen Tudo que você queria saber sobre saber sobre sexo mas teve medo de perguntar. Allen, fazendo o papel de um esperma apreensivo dentro dos testículos de um homem, está assustado com o orgasmo que se aproxima. Ele está relutante em se lançar no escuro, com medo dos dispositivos contraceptivos, com medo de ir parar no teto se o homem se masturba.
O quadro mais comum – o óvulo como uma jovem angustiada, protegida apenas pelas suas vestimentas sagradas; o esperma como um heróico guerreiro pronto a salvá-la – não pode ser provado que seja ditado pela biologia desses eventos. Mesmo que os “fatos” da biologia podem não ser sempre construídos em termos culturais, neste caso eu argumentaria que são. O grau de conteúdo metafórico nessas descrições, a extensão até a qual as diferenças entre o óvulo e o esperma são enfatizadas, e os paralelos entre os estereótipos culturais dos comportamentos do macho e da fêmea e o caráter do óvulo e do esperma, tudo aponta para essa conclusão.
Novas pesquisas, velhas imagens
Na medida em que novos entendimentos do óvulo e do esperma emergem, as imagens de gênero nos livros textos são revisadas. Mas as novas pesquisas, longe de escapar da representações estereotípicas do óvulo e do esperma, simplesmente replicam elementos das imagens de gênero nos livros textos numa forma diferente. A persistência dessas imagens faz lembrar daquilo que Ludwik Fleck chamou de natureza “autocontida” do pensamento científico. Segundo ele a descreve, “a interação entre o que já é sabido, o que permanece a ser aprendido, e aqueles que vão apreender, assegura harmonia dentro do sistema. Mas ao mesmo tempo eles também preservam a harmonia das ilusões, a qual é bastante segura dentro dos limites de um dado estilo de pensamento”. Nós precisamos entender a forma pela qual o conteúdo cultural em descrições científicas muda na medida em que as descobertas biológicas se desdobram, e se o conteúdo cultural está solidamente entrelaçado, ou se é facilmente alterado.
Em todos os textos referidos acima, o esperma é descrito como o que penetra no óvulo, e substâncias específicas ha cabeça do esperma são descritas como as que se ligam ao óvulo. Recentemente, esta descrição de eventos foi revista em um laboratório de biofísica na Universidade Johns Hopkins – transformando o óvulo de parte passiva para ativa.
Anteriormente a essa pesquisa, pensava-se que a zona, os paramentos internos do óvulo, formavam uma barreira impenetrável. O esperma vencia a barreira furando-a mecanicamente, batendo sua cauda e progredindo lentamente. Pesquisas posteriores mostraram que o esperma liberava enzimas digestivas que quebravam quimicamente a zona; assim os cientistas presumiam que o esperma usava meios mecânicos e químicos para entrar no óvulo.
Nesta recente investigação, os pesquisadores começaram a fazer perguntas sobre a força mecânica da cauda do esperma. (O objetivo do laboratório era desenvolver um contraceptivo que trabalhasse topicamente no esperma.) Eles descobriram, para sua grande surpresa, que a força do esperma para a frente é extremamente fraca, o que contradiz o pressuposto de que os espermas são penetradores vigorosos. Em vez de fazer força para a frente, a cabeça do esperma era agora vista se mover, a maior parte do tempo, para a frente e para trás. Os movimentos laterais da cauda do esperma faz a cabeça se mover lateralmente com uma força que é dez vezes mais forte do que seu movimento para a frente. Portanto, mesmo se a força total do esperma fosse suficiente para quebrar mecanicamente a zona, a maior parte de sua forças seria dirigida para os lados e não para a frente. Na verdade, sua tendência mais forte, dez vezes maior, é escapar tentando se libertar do óvulo. Os espermas, então, têm de ser excepcionalmente eficientes para escapar de qualquer superfície celular que eles encostem. E a superfície do óvulo precisa ser projetada para apanhar o esperma e evitar que ele escape. Caso contrário, poucos, ou mesmo nenhum, esperma alcançaria o óvulo.
Os pesquisadores da Johns Hopkins concluíram que o esperma e o óvulo se ligam por conta de moléculas adesivas que há na superfície de cada um deles. O óvulo agarra o esperma e adere a ele tão apertadamente que a cabeça do esperma é forçada a se recostar sobre a superfície da zona, um pouco como, eles me disseram, “o Coelho Br’ er ficando cada vez mais preso ao (tar baby) quanto mais se mexa”. O esperma agarrado continua a se mexer lateralmente, mas sem efeito. A força mecânica da sua cauda é tão fraca que o esperma não pode quebrar nem mesmo uma ligação química. Isto é onde os enzimas digestivos liberados pelo esperma entram em ação. Se eles começam a amolecer a zona exatamente na ponta do esperma e os lados permanecem presos, então o fraco e agitante esperma consegue se orientar na direção certa e consegue atravessar a zona – desde que suas ligações com a zona se dissolvam na medida em que ele se move.
Embora essa nova versão da saga do óvulo e do esperma fosse contra as expectativas culturais, os pesquisadores que fizeram a descoberta continuaram a escrever artigos e resumos como se o esperma fosse a parte ativa que ataca, liga, penetra, e adentra o óvulo. A única diferença era que agora o esperma era visto como se executasse essas ações fracamente. Só em agosto de 1987, mais de três anos após os achados acima descritos, que estes pesquisadores reconceituaram o processo dando ao óvulo um papel mais ativo. Eles começaram a descrever a zona como uma apanhadora agressiva de espermas, coberta com moléculas adesivas que podem capturar um esperma com uma simples ligação e mantê-lo preso na superfície da zona. Nas palavras de seu relato publicado: “O paramento mais interno, a zona pelúcida, é uma capa de glicoproteína, que captura o esperma e o prende antes que ele a penetre ... O esperma é capturado no contato inicial entre sua ponta e a zona ... Uma vez que a força (do esperma) é muito menor que a força necessária para romper uma simples ligação de afinidade, a primeira ligação feita sobre a ponta – primeiro encontro do esperma e a zona – pode resultar na captura do esperma.
Experimentos em um outro laboratório revelaram padrões similares de interpretação de dados. Gerrald Schatten e Helen Schatten mostraram que, contrariamente a sabedoria convencional, “o óvulo não é meramente uma esfera grande cheia de gema a qual o esperma fura para produzir uma nova vida. Ao contrário, pesquisa recente sugere a visão quase herética de que o esperma e o óvulo são parceiros mutuamente ativos.” Isto soa como um afastamento da visão estereotípica dos livros textos, mas lendo um pouco mais revela-se a conformidade dos Schatten com a metáfora do esperma agressivo. Eles descrevem como se dá o encontro do esperma e do óvulo: “é quando da ponta da cabeça triangular do esperma um filamento longo e fino é disparado e arpeia o óvulo”. Ficamos então sabendo que “extraordinariamente, o arpão é não somente disparado mas montado a grande velocidade, molécula por molécula, a partir de uma reserva de proteína armazenadas numa região especializada chamada acrossomo. O filamento pode crescer até 20 vezes maior que a cabeça do esperma até que sua ponta alcance e se fixe no óvulo.” Por que não chamar isso de “construir uma ponte” ou “atirar uma linha” em vez de atirar um arpão? Arpões perfuram as presas e ferem-nas ou matam-nas, enquanto este filamento apenas gruda. E por que não focar, como fez o laboratório Hopkins, no poder grudante do óvulo em vez do poder grudante do esperma? Mais adiante no artigo. Os Schattens replicam a visão da jornada perigosa do esperma pelo escuro ardente da vagina, desta vez com o objetivo de explicar sua jornada dentro do óvulo: “(o esperma) ainda tem uma árdua jornada pela frente. Ele tem de penetrar além dentro da enorme esfera do óvulo de citoplasma e de alguma forma localizar o núcleo, de forma a que os cromossomas das duas células possam de fundir. O esperma mergulha no citoplasma, sua cauda bate. Mas é logo interrompido pela súbita e rápida migração do núcleo do óvulo, que corre na direção do esperma com uma velocidade três vezes maior do que a do movimento dos cromossomas durante a divisão celular, atravessando todo o óvulo em cerca de um minuto”.
Assim como os Schatten e o biofísico da John Hopkins, outro pesquisador fez descobertas recentes que parecem apontar para uma visão mais interativa da relação entre o óvulo e o esperma. Este trabalho, que Paul Wassarman conduziu sobre espermas e óvulos de ratos, foca na identificação de moléculas específicas na cobertura do óvulo (a zona pelúcida) que são envolvidas na interação óvulo esperma. A primeira vista, suas descrições parecem se adequar ao modelo de um relacionamento igualitário. Gametas machos e fêmeos “se reconhecem” e “interações ... ocorrem entre o esperma e o óvulo.” Mas o artigo na Scientific American no qual essas descrições aparecem começa com uma vinheta que pressagia o tema principal de sua apresentação: “Há mais de um século desde que Hermann Fol, um zoólogo suíço, olhando fixamente em seu microscópio, tornou-se a primeira pessoa a ver um esperma penetrar um óvulo, fertilizá-lo e formar a primeira célula do novo embrião”. Este retrato do esperma como a parte ativa – aquele que penetra e fertiliza o óvulo e produz o primeiro embrião – não é citado como exemplo de uma visão anterior e ultrapassada. Ao contrário, o autor reitera o ponto mais adiante no artigo: “Muitos espermas podem se ligar e penetrar a zona pelúcida, ou cobertura externa, de um óvulo de rata infertilizado, mas apenas um esperma se unirá com a fina membrana de plasma que envolve o óvulo propriamente (a esfera interior), fertilizando o óvulo e produzindo um novo embrião.”
As imagens do esperma como agressor são particularmente surpreendentes neste caso: a principal descoberta sendo reportada é o isolamento de uma molécula particular na cobertura do óvulo que cumpre um papel importante na fertilização! A escolha de linguagem de Wassarman sustenta o quadro. Ele chama a molécula que foi isolada de ZP3, um “receptor de esperma”. Assim atribuindo ao óvulo o papel passivo, do que espera, Wassarman pode continuar a descrever o esperma como o ator, aquele que faz tudo acontecer: “O processo básico começa quando muitos espermas primeiro atacam livremente e então se ligam tenazmente aos receptores na superfície na espessa cobertura externa do óvulo, a zona pelúcida. Cada esperma, que tem em sua superfície um grande número de proteínas ligantes ao óvulo, se liga a muitos receptores de esperma no óvulo. Mais especificamente, um lugar em cada uma das proteínas ligantes se encaixa num lugar complementar no receptor do esperma, assim como uma chave se encaixa numa fechadura.” Com o esperma designado como a “chave” e o óvulo como a “fechadura”, é óbvio que um age e o outro sofre a ação. Não poderiam essas imagens serem invertidas, deixando o esperma (a fechadura) esperar até que o óvulo produza a chave? Ou poderíamos falar de duas metades de um encontro de encaixe, e apreciar o encontro em si como a ação que inicia a fertilização?
É como se Wassarman estivesse determinado a fazer do óvulo o parceiro receptor. Usualmente, em pesquisa biológica, as proteínas membros do par de moléculas ligantes são chamadas de receptoras, e fisicamente elas têm um bolso que se parece com uma fechadura. Como mostra o diagrama que ilustra o artigo de Wassarman, as moléculas no esperma são proteínas e têm “bolsos”. As moléculas pequenas e móveis que se encaixam nesses bolsos são chamadas “ligands”. Conforme mostrado no diagrama, ZP3 no óvulo é um polímero de “chaves”; muitas pequenas maçanetas se projetam para fora. Tipicamente, as moléculas do esperma seriam chamadas receptoras, e as moléculas do óvulo seriam chamadas “ligands”. Mas Wassarman escolheu denominar ZP3 no óvulo receptor, e criar um novo termo, “a proteína ligante ao óvulo”, para a molécula do esperma a qual, de outra forma teria sido chamada a receptora.
Wassarman credita à cobertura do óvulo mais funções do que as de um receptor de esperma. Ao mesmo tempo em que ele observa que “a zona pelúcida tem sido vista por vezes por investigadores como uma obstrução, uma barreira para o esperma e assim um impedimento a fertilização”, sua nova pesquisa revela que a cobertura do óvulo “serve como um sofisticado sistema de segurança biológica que examina os espermas que chegam, seleciona apenas aqueles compatíveis com a fertilização e desenvolvimento, prepara o esperma para a fusão com o óvulo e mais tarde protege o embrião resultante da poliespermatização (uma condição letal causada pela fusão de mais que um esperma com um único óvulo)”. Embora esta descrição dê ao óvulo um papel ativo, este papel é reduzido em termos estereotipicamente femininos. O óvulo seleciona um companheiro apropriado, prepara-o para a fusão, e então protege o filho resultante do perigo. Isto é cortejo e comportamento de uma companheira segundo os olhos de um sociobiólogo: mulher como o prêmio difícil de ser obtido, a qual em seguida a união com o escolhido, se torna mulher como servidora e mãe.
E Wassarman não para aí. Num artigo de revisão para a Science, ele resume a “cronologia da fertilização”. Próximo do final do artigo há dois títulos de seção. O primeiro é “A Penetração do Esperma”, sob o qual Wassarman descreve como a química dissolvente da zona pelúcida combina com a “substancial força propulsiva gerada pelo esperma”. O segundo título é “A Fusão Esperma – Óvulo”. Esta seção descreve o que acontece dentro da zona após o esperma “penetrá-la”. O esperma pode fazer contato, aderir, e fundir (ou seja, fertilizar) o óvulo”. A escolha de palavras de Wassarman, novamente, é surpreendentemente favorável a atividade do esperma, pois no próximo pronunciamento ele diz que o esperma perde toda a mobilidade após a fusão com a superfície do óvulo. Nos óvulos dos ratos e ouriços do mar, o esperma entra na volição do óvulo, de acordo com a descrição de Wassarman: “Uma vez fundido com a membrana do plasma do óvulo (a superfície do óvulo), como um esperma adentra o óvulo? A superfície dos óvulos tanto das ratas como dos ouriços marinhos é coberta com milhares de projeções do plasma ligadas a membrana, chamadas microvilli (minúsculos cabelos). Evidência nos ouriços do mar sugere que, após a fusão da membrana, um grupo de microvilli alongadas se agrupam apertadamente e se entrelaçam com a cabeça do esperma. Na medida em que as microvilli são sugadas, o esperma é levado para dentro do óvulo. Portanto, a mobilidade do esperma, que cessa no momento da fusão tanto na rata como no ouriço do mar, não é requerida para a entrada do esperma”. A seção chamada “A penetração do esperma” seria seguida, mais logicamente, por uma seção chamada “O óvulo envelopa” do que “A fusão esperma óvulo”. Isto daria um sentido paralelo – e mais preciso – de que tanto o óvulo quanto o esperma iniciam a ação.
Uma outra forma pela qual Wasserman reduz a atividade do óvulo é pela descrição de componentes do óvulo enquanto se refere ao esperma como uma entidade inteira. Deborah Gordon descreveu tal abordagem como “atomismo” (“a parte é independente e primordial para o todo”) e a identificou como um dos “pressupostos persistentes” da ciência e medicina ocidentais. Wassarman emprega o atomismo em seu favor. Quando ele refere a processos que ocorrem dentro do esperma, ele consistentemente retorna a descrições que nos lembram de onde essas atividades vem: elas são parte do esperma que penetra um óvulo ou gera força propulsiva. Quando ele refere a processos que ocorrem dentro do óvulo, ele para aí. Como resultado, qualquer papel ativo que ele lhes atribui parece ser atribuído a partes do óvulo, e não ao óvulo em si. Na citação acima, é o microvilli que ativamente se agrupa em torno do esperma. Num outro exemplo, “a força propulsora da absorção de um esperma fundido vem de uma região do citoplasma imediatamente abaixo de uma membrana do plasma do óvulo”
Implicações sociais: Pensando além
Todos esses três relatos revisionistas do óvulo e esperma parecem não poder escapar das imagens hierárquicas dos relatos antigos. Muito embora cada novo relato dê ao óvulo um papel maior e mais ativo, apreciados juntos eles trazem a cena um outro estereótipo cultural: a mulher como uma ameaça perigosa e agressiva. No modelo revisado do laboratório John Hopkins, o óvulo termina como a fêmea agressora que “captura e prende” o esperma com sua zona aderente, assim como uma aranha aguarda em sua teia. O laboratório dos Schatten dispõe que o núcleo do óvulo “interrompe” o mergulho do esperma com uma corrida “súbita e rápida” pela qual ele segura o esperma e guia seu núcleo para o centro. A descrição de Wassarman da superfície do óvulo “coberto por milhares de projeções do plasma ligadas a membrana, chamadas micvrovilli” que alcança e segura o esperma endossa as imagens do tipo aranha.
Essa imagens atribuem ao óvulo um papel ativo, mas ao custo de parecerem indevidamente agressivos. Imagens de mulher como perigosas e agressivas, a fêmea fatal que vitima os homens, são largamente difundidas na literatura ocidental. Mais específica é a conexão das imagens de aranha com a idéia de mãe absorvente e devoradora. Novos dados não levaram os cientistas a eliminar os estereótipos de gênero de suas descrições do óvulo e do esperma. Ao contrário, os cientistas simplesmente começaram a descrever o óvulo e o esperma em termos diferentes, mas não menos danosos.
Podemos pensar numa visão menos estereotípica? A própria biologia fornece um outro modelo que poderia ser aplicado ao óvulo e ao esperma. O modelo cibernético, com seus ciclos de realimentação, adaptação flexível a mudança, coordenação das partes dentro do todo, evolução no tempo, respostas mutáveis ao ambiente – é comum em genética, endocrinologia, e ecologia e tem uma influência crescente na medicina em geral. Este modelo tem o potencial de deslocar nossas imagens do negativo, onde o sistema reprodutivo feminino é castigado tanto por não produzir óvulos após o nascimento e por produzir (e assim desperdiçar) ovos em demasia, para algo mais positivo. O sistema reprodutivo feminino poderia ser visto como respondendo ao ambiente (gravidez ou menopausa), ajustando às mudanças mensais (menstruação), e se alterando flexivelmente de reprodutor após a puberdade a não reprodutor mais tarde na vida. As interações entre o esperma e o óvulo poderiam também ser descritas em termos cibernéticos. A pesquisa de J. F. Hartman em biologia reprodutiva demonstrou quinze anos atrás que se um óvulo é morto por ser espetado com uma agulha, o esperma vivo não pode atravessar a zona. Claramente, esta evidência mostra que o óvulo e o esperma interagem em termos mais mútuos, tornando inconveniente a recusa da biologia em retratá-los dessa forma.
Faríamos bem em estarmos conscientes, no entanto, que as imagens cibernéticas não são neutras. No passado, modelos cibernéticos cumpriram uma parte importante na imposição do controle social. Estes modelos fornecem inerentemente uma forma de pensar sobre um “campo” de componentes interativos. Uma vez que o campo pode ser visto, ele pode se tornar o objeto de novas formas de conhecimento, o que por sua vez pode permitir novas formas de controle social a serem exercidas sobre os componentes do campo. Durante os anos 50, por exemplo, a medicina começou a reconhecer o ambiente psicossocial do paciente: a família do paciente e sua psicodinâmica. Profissões tais como o serviço social começaram a focar sobre este novo ambiente, e o conhecimento resultante tornou-se um modo de controlar mais o paciente. Pacientes começaram a ser vistos não mais como corpos individuais isolados, mas como entidades psicossociais localizadas num sistema “ecológico”: a administração da “psicologia do paciente foi uma nova forma de controle do paciente.”
Os modelos que os biólogos usam para descrever seus dados podem ter importantes efeitos sociais. Durante o século dezenove as ciências sociais e naturais influenciaram fortemente uma a outra: as idéias sociais de Malthus sobre como evitar o crescimento natural do pobre inspiraram A Origem das Espécies de Darwin. Uma vez que a Origem se colocou como uma descrição do mundo natural, completa com competição e lutas de mercado, ela pode ser reimportada pela ciência social como o Darwinismo social, no objetivo de justificar a ordem social. O que estamos vendo agora é similar: a importação de idéias culturais sobre fêmeas passivas e machos heróicos pelas “personalidades” dos gametas. Isto significa “implantar imagens sociais sobre representações da natureza de forma a estabelecer uma base firma para reimportar as mesmas imagens como explicações naturais de fenômenos sociais.
Mais pesquisa nos mostraria exatamente quais efeitos sociais estão sendo trabalhados a partir das imagens biológicas do óvulo e do esperma. No mínimo, as imagens mantêm vivas alguns dos estereótipos mais antigos sobre as fracas donzelas angustiadas e seus fortes machos salvadores. Que estes estereótipos estejam agora sendo escritos ao nível da célula constitui um movimento poderoso para fazê-los parecer tão naturais que sejam imunes a alteração.
As imagens estereotípicas podem também encorajar pessoas a imaginar que o que resulta da interação entre o óvulo e o esperma – um óvulo fertilizado – é o resultado de uma ação “humana” deliberada no nível celular. Independentemente das intenções do casal humano, nesta “cultura” microscópica uma “noiva” celular (ou fêmea fatal) e um “noivo” celular (sua vítima) fazem um bebê celular. Rosalind Petchesky aponta que através de representações visuais tais como os as imagens ultrassônicas, temos acesso a “imagens de fetos cada vez mais novos e cada vez menores sendo ‘salvos’.” Isto leva ao “ponto de visibilidade ser ‘empurrado para trás’ indefinidamente”. Dotar os óvulos e espermas de ação intencional, um aspecto chave da pessoalidade em nossa cultura, estabelece as fundações para o ponto de visibilidade ser empurrado para trás até o momento da fertilização. Isto, provavelmente, levará a uma maior aceitação dos desenvolvimentos tecnológicos e a novas formas de investigação e manipulação, para o benefício dessas “pessoas” internas: restrições legais às atividades de mulheres grávidas para proteger seus fetos, cirurgia fetal, amniocentesis, e revogação dos direitos de aborto, para citar uns poucos exemplos.
Mesmo que tenhamos sucesso em substituir metáforas mais igualitárias e interativas para descrever as atividades do óvulo e do esperma, e consigamos evitar os perigos dos modelos cibernéticos, ainda estaríamos culpadas de dotar entidades celulares com pessoalidade. Mais crucial do que os tipos de personalidade que estamos outorgando às células é o próprio fato de estarmos fazendo isso. Este processo pode vir a ter conseqüências sociais profundamente danosas.
Um claro desafio feminista é acordar metáforas adormecidas nas ciências, particularmente aquelas envolvidas em descrições do óvulo e do esperma. Embora a convenção literária seja chamar tais metáforas de “mortas”, elas não estão mais mortas do que adormecidas, escondidas dentro do conteúdo científico de textos – e muito poderosas para ele. Acordar tais metáforas, tornando-nos conscientes de quando nós estamos projetando imagens culturais sobre o que estudamos, melhorará nossa capacidade de investigar e entender a natureza. Acordar tais metáforas, tornando-nos conscientes de suas implicações, as furtará de seu poder de naturalizar nossas convenções sociais sobre gênero.
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