quinta-feira, 18 de novembro de 2010

EU VI UM SAP(O)!

Por todo o lado eu só ouço falar da SAP, uma síndrome que, até hoje, não foi reconhecida.

Pelo que sei, Richard Gardner -esse mesmo senhor que se suicidou em 2003, desferindo múltiplas facadas no seu pescoço e no peito- terá tentado, em vão, convencer os seus conterrâneos da sua existência. Para tal, defendeu inúmeros pais, denegrindo a imagem das mães. Sabe-se hoje que o motivo que levava as crianças a se recusarem a estar com o pai prendia-se a um quadro de VIOLÊNCIA e de PEDOFILIA.

Ora, se repararmos bem, os sintomas apresentados pelo que se considerava -sendo ainda considerado por muitos como tal- um especialista, podem bem demarcar esse quadro, pois qualquer criança que sofra de violência, na qual se enquadra o abuso sexual, "apresenta um sentimento constante de raiva e ódio contra o genitor e sua família", se esta for cúmplice do acto. A este sentimento junta-se, é claro, o medo.

Evidentemente, uma criança violentada recusa-se sequer "a dar atenção, visitar, ou se comunicar com o outro genitor" (o culpado), guardando dele "sentimentos e crenças negativas".

As crianças vítimas de abuso sexual são mais propensas a "apresentar distúrbios psicológicos como depressão, ansiedade e pânico, utilizar drogas e álcool como forma de aliviar a dor e culpa (do abuso), cometer suicídio, apresentar baixa auto-estima, não conseguir uma relação estável, quando adultas, possuir problemas de género, em função da desqualificação do genitor (abusador)".



Senão, compare-se:


A CRIANÇA ALIENADA

Apresenta um sentimento constante de raiva e ódio contra o genitor alienado e sua família.

Se recusa a dar atenção, visitar, ou se comunicar com o outro genitor.

Guarda sentimentos e crenças negativas sobre o outro genitor, que são inconsequentes, exageradas ou inverossímeis com a realidade.

Crianças Vítimas de SAP são mais propensas a:
Apresentar distúrbios psicológicos como depressão, ansiedade e pânico.

Utilizar drogas e álcool como forma de aliviar a dor e culpa da alienação.

Cometer suicídio.

Apresentar baixa auto-estima.

Não conseguir uma relação estável, quando adultas.

Possuir problemas de gênero, em função da desqualificação do genitor atacado.

FONTE: http://www.alienacaoparental.com.br/o-que-e



A CRIANÇA ABUSADA:

Varios sintomas comportamentais, psiquiátricos e físicos aparecem na criança sexualmente abusada.


Indicadores comportamentais da idade pré-escolar

- Choro excessivo sem razão aparente;
- Irritabilidade ou agitação extrema na criança;
- Fracasso no desenvolvimento;
- Regressão a etapas do desenvolvimento anteriormente já ultrapassados como: enurese, encoprese, chupar o dedo, falar como bebê;
- Presença de medo como: medo do escuro, de ir para cama, ser deixado com certas pessoas;
- Brincadeira repetitiva de sexo com bonecas, brinquedos, animais, com outras pessoas ou sozinha. Essa brincadeira geralmente tende a ser bastante específica, pois a criança simula o que aconteceu com ela. Este tipo de brincadeira ultrapassa os limites da exploração sexual normal para a sua idade;
- Masturbação excessiva, chegando ao grau de irritar os órgãos genitais ou comportamento repetitivo, incessante, em público;
- Distúrbios do sono, incluindo pesadelos, recusa de ir para cama, de dormir no quarto;
- Apego excessivo e particularmente a certos adultos;
- Retraimento de situações sociais;
- Mudança nos hábitos alimentares, tanto aumento como diminuição do apetite;
- Conhecimento explícito de atos sexuais, acima do nível de desenvolvimento normal para a idade.


Indicadores comportamentais da criança sexualmente abusada na idade escolar

- Problemas escolares, incluindo fobia da escola ( podem indicar vitimização por empregados relacionados à escola), ausências freqüentes, medo de ir para a casa após a escola, mudança na performance acadêmica;
- Temas de violência em trabalhos artísticos ou escolares;
- Retraimento social;
- Desenvolvimento de amizades inadequadas à idade, especialmente no caso de crianças menores, que possam ser controladas;
- Imagem distorcida do corpo e problemas relacionados, tais como medo de tomar banho com outros após ginástica, medo de outros verem-na despida e usar várias camadas de roupas para esconder o corpo;
- Conhecimento sexual avançado para a idade;
- Excessiva mudança de humor;
- Expressões impróprias de raiva ou tentativa de suicídio;
- Início súbito de enurese;
- Distúrbios de alimentação, incluindo bulimia, anorexia e polifagia compulsiva;
- Comportamento sexual explícito para com os adultos, tentando agradar, flertando e fazendo propostas sexuais ( como se fosse a maneira que a criança aprendeu para lidar com os adultos );
- Simulação de atividade sexual sofisticada com crianças menores.


Indicadores comportamentais da criança sexualmente abusada na idade adolescente.

- Constante ausência de confiança;
- Relacionamento pobre com semelhantes;
- Baixa auto-estima;
- História de fuga;
- Distúrbio do sono, incluindo pesadelos, sono excessivo;
- Problemas escolares, incluindo mudanças na performance acadêmica e ausência excessiva;
- Retraimento e isolamento de amigos e semelhantes;
- Abuso de álcool ou drogas;
- Automutilação, incluindo tatuagem, corte e queimaduras casuais do corpo (geralmente para aliviar a dor ou pressão interior);
- Contatos sexuais múltiplos, "má" reputação ou agir de forma sexual indiscriminada;
- Depressão clínica, necessitando de intervenção médica, medicamentos ou outros tratamentos;
- História de tentativa de suicídio.


Indicadores familiares de abuso sexual infantil

- Isolamento geográfico social. A família tende a voltar-se a si mesma, morando em uma área remota ou severamente limitada em suas interações sociais, isto protege o segredo do abuso;
- Extrema desconfiança de estranhos;
- Modelo de comunicação disfuncional, incluindo segredos, comunicação indireta;
- Desequilíbrio do poder dos pais, com o pai sendo, geralmente, autoritário;
- Reversão de funções, com uma forte necessidade de dependência parental, a criança é forçada a cuidar das necessidades dos adultos;
- Dependência química;
- Outras formas de violência no relacionamento, incluindo abuso do cônjuge, abuso físico da criança e negligência;
- Problemas conjugais, incluindo disfunção sexual;
- Incidentes anteriores de abuso sexual.


Sintomas Psiquiátricos

A sintomatologia de adultos, vítimas de abusos na infância varia e freqüentemente preenche critérios para várias categorias diagnósticas, segundo o CID- 10, tais como: transtorno depressivo, abuso de álcool ou outras substâncias, transtorno de personalidade (ressaltando o transtorno borderline), reações de ajustamento, dissociação, transtornos psicóticos e somatização. A dissociação ocorre quando as vítimas do abuso sexual se distanciam psicologicamente da realidade, da confusão, da dor e do sofrimento do episódio abusivo.
Uma vítima de abuso sexual pode exibir vários sintomas de dissociação, tais como: não estar "centralizada "ou tocando o chão, sentindo-se fora do corpo, não se sentindo como se fosse ela mesma, perdendo contato com a realidade ou olhando a si mesma de uma certa distância. A mais extrema forma de dissociação resulta de uma desordem de personalidade múltipla. Pessoas com este distúrbio têm duas ou mais personalidades distintas, que tomam total controle de seu comportamento. Pesquisas têm demonstrado que a maioria das pessoas com transtorno de personalidade múltipla tem uma história de ASI.
A somatização surge de uma percepção disfuncional do corpo. Vítimas de abuso sexual podem tornar-se preocupadas com seu próprio corpo e sua vulnerabilidade para doenças. A somatização tem muitas manifestações físicas (Quadro 2).

QUADRO 2
Manifestações de somatização em crianças sexualmente abusada
1. Cefaléia
2. Distúrbios do sono.
3. Distúrbios do apetite.
4. Distúrbios gastrointestinais
-----síndrome do cólon irritável
-----cólon espástico
-----náuseas e vômitos
5. Manifestações ginecológicas
-----dor pélvica crônica
-----dispareunia
-----vaginismo
-----dismenorréia
6. Asma.
7. Palpitações.
8. Tensão muscular
9. Desmaios, fadiga e síncope.


Sintomas Físicos

Dentre os sintomas físicos temos: dor abdominal crônica, enurese, encoprese, infecção recorrente do trato urinário, corrimento vaginal, dano anogenital, queixa anal, principalmente em vítimas do sexo masculino ( fissuras, constipação) e gravidez na adolescência.


Sintomas a Longo prazo

Entres os sintoma a alongo prazo freqüentemente associado com abuso sexual prévio, encontram-se: distúrbios psicológicos e psicossomáticos, frigidez, vaginismo, dispaurenia, promiscuidade sexual, impotência, pedofilia e pederastia, dificuldade sexual no casamento, incesto, prostituição, homossexualismo, uso de drogas, delinqüência juvenil, baixa auto-estima, depressão, sintomas conversivos e dissociativos, automutilação e múltiplas tentativas de suicídio.

FONTE: http://www.existencialismo.org.br/jornalexistencial/andreseabraabusosexual.htm





Pelo que lemos, podemos concluir que, na sua maioria, os ditos sintomas de uma criança alienada, são, na verdade, sintomas de uma criança violentada, muitas das vezes sexualmente.

Chegou-me ao conhecimento um quadro de abuso sexual, que o tribunal teima em transformar em caso de manipulação exercida pela mãe.

O menino conta, numa linguagem própria da idade, que, nos períodos de visita do pai, este o tem levado para um hotel, que lhe mete os dedos no rabinho e até já lhe "mijou" em cima da cabeça, e também na boca. Era, explica ele, uma coisa branca e cremosa.

A mãe, que no início, quando se apercebeu de um pêlo no rabinho do menino, julgou que o pai o teria simplesmente limpado com uma toalha sua, afligiu-se quando o menino começou a contar-lhe tudo em pormenor. Logo tratou de pedir exames médicos que confirmassem o que o menino lhe contava -e o que ela via- e que este fosse igualmente ouvido por uma psicóloga.

Os exames não parecem ter sido muito conclusivos, pois a juíza tratou de pedir uma perícia feita a ambos os pais e ao menino. Esta juíza crê -fez questão de o frisar- que o menino tem vindo a ser influenciado pela mãe. Ainda assim, resolveu diminuir o tempo de visita permitido ao pai -que, entretanto, entrou com um pedido de guarda exclusiva-, sem pernoita.

Ora, pelo que sei, este pai não tem pernoitado com o filho. Os abusos têm sido feitos durante o dia, pelo que a medida desta juíza nada veio alterar.


Sap, não, meus senhores!


Eu diria, antes, S A P O
(SÍNDROME DE AREIA ATIRADA PARA OS OLHOS!).

Nem é tão difícil assim de perceber os sintomas de uma síndrome que nos deixa, sem sombra de dúvida, quase cegos.

Regra geral, as pessoas atingidas por esta síndrome acreditam em tudo o que ouvem, vindo de um lado e do outro, menos nos principais envolvidos: neste caso, as crianças.

Uma pessoa atingida por esta síndrome toma a verdade dos outros como sua. Fica incapaz de reflectir racionalmente, de discernir os verdadeiros culpados, até mesmo de reagir, por forma a evitar que se produza um mal maior.

Fala-se de uma coisa, que não existe de facto, para encobrir a verdadeira realidade. Esta é a regra dos políticos, dos que fazem as leis. Os que têm por função fazer cumprir essas leis vêem-se, muitas vezes, de mãos atadas. É demasiada areia nos olhos. Dir-se-ia uma das sete pragas que atingiu o Egipto, uma imensa nuvem de poeira.

Isto é o que temos estado a engolir.

A culpa de uns passa, assim, a ser a culpa de outros.

Pilates lava as mãos.

Como, talvez, neste caso:

"Indignação
Realmente essas pessoas que defendem essa lei ridícula merecem levar na cabeça mesmo!! Pena que os que sofrem são crianças inocentes nas mãos de pessoas egocêntricas, imorais e que não estão nem aí com o bem estar dos filhos. Recentemente, soubemos pela mídia de uma garota de 5 anos que foi entregue ao pai e a madrasta por 90 dias, sem direito de visitas da mãe!!!!É lógico que essa criança foi espancada, chegou ap pronto-socorro em coma, apresentava fissura anal...será que o pai a violentou sexualmente ou a madrastra à torturou, não sabemos, só mesmo a própria, que se não me engano morreu. Que loucura é essa meu Deus!! Filho fica com mãe e ponto final. Salvo raríssimas excessões, em que as mães realmente são nocivas a seus filhos. Mas são essas mesmas desmioladas que vão ser madrastras dos filhos de mães que são obrigadas a ver os seus em potencial perigo e não podem fazer nada por causa desse papo furado de alienação, quantas crianças precisam ser mortas e violentadas para que seja feita verdadeira justiça."



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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

ENOUGH IS ENOUGH!

Com todas estas histórias que eu vou ouvindo, de mães que perdem os filhos por nenhuma razão e de outras que são acusadas de os maltratar ou manipular, eu, que me encontro metida nesta enorme engrenhagem, pois que me encontro privada de uma filha, acabo por ter atitudes meio irracionais com a mais nova. Tudo porque vivo em pânico, com medo de perder também esta.

Um destes dias, não vou precisar qual, a miúda resolveu fazer uma típica birra, coisa bem normal numa criança de 5 anos. Para mais que se encontra ainda em período de adaptação, pois que nos mudamos muito recentemente aqui para França.

Nesse dia eu não consegui acordar cedo, e acabei por não a levar à escola. Tinha passado a noite anterior quase em claro.

Ora eu tinha de entregar uns papéis sem falta, mas ela embirrou que não queria sair. Evidentemente, eu não a podia deixar sózinha em casa, pois o pai também tivera de sair. Com a máxima paciência que tive, expliquei-lhe isso. E ela nada. Começou a chorar, quase aos gritos. Supliquei-lhe que parasse, ou vinham bater-me à porta (sabe-se lá?). E ela nada. Foi pelas escadas abaixo a chorar.

Já na rua, continuava no mesmo. Passa uma senhora, e diz-lhe "ça va passer, le chagrin!", ao que eu respondi "c'est moi qui a le chagrin!". Virei-me para a miúda e fiz-lhe ver o que a cena podia parecer aos outros (irracional, eu sei, mas quem me pode condenar?).

Enfim, ela agarrou-se a mim, e parou de chorar. Uuuuffff!!!

Nos momentos seguintes, a coisa passou-se relativamente bem. Ela ainda se pôs no canto da paragem da urbana, meio amuada, e eu aproveitei para brincar com ela, pondo-me no outro canto, pretendendo estar também amuada.
Entramos na urbana, e tudo se passou bem.

Foi quando saímos e tivemos de andar um pouco (que nem era muito!), que ela voltou a fazer a birra. Expliquei-lhe que estávamos mesmo a chegar. E ela nada. Chorou. Agarrou-se aonde podia, recusando-se a avançar. Quando lhe ordenei que se mexesse, pôs-se a correr, fazendo-me correr atrás dela. Vai daí ela grita (felizmente não muito alto) "au secours!", e eu pergunto-lhe se quer que a polícia venha e me leve presa! Noutras circunstâncias, que não as minhas, e noutros tempos, que não os nossos, eu jamais diria isto.

Avanço uns passos, a ver se me segue, mas ela mantém-se no lugar, sempre a chorar. Volto para trás, e pergunto-lhe o que se passa afinal, para me fazer passar tanta vergonha na rua. Tento, na medida do possível, falar-lhe com calma. Consigo mesmo que ela pare de chorar e me acompanhe (o sítio onde eu tinha de ir era pouco mais à frente, vejam lá!). Mas, à entrada do portão, nova birra. Não quer entrar. Nem sei como a paciência não me chegou ao limite, tanto mais que nem me encontrava num bom dia, pois era um "daqueles" dias por que todas as mães -pergunto-me se também os pais, já que eles também ficam grávidos- passam. Consegui fazê-la entrar, mas enfiou-se debaixo de uma cadeira. Não lhe liguei. Achei que era o melhor a fazer naquele momento, tanto mais que só havia eu para atender, e não podia fazer esperar a pessoa.

Eu se vos conto isto, não é para que me digam se agi bem ou mal. Não sou perfeita, e sei que não estava num dia perfeito. "Nesses dias não me aturo nem a mim própria", dizia-me uma sobrinha. Tirou-me as palavras da boca, e sei que outras mães (pais também?!) sabem bem do que falo.

Eu se digo isto, é porque, nos tempos que correm, uma mãe não se pode permitir a mínima falta. Mesmo quando age bem, está em falta.

Nos dias que correm, vivemos no medo permanente de que nos aconteça o que acontece a muitas outras mães, e, se porventura já nos aconteceu, que nos aconteça uma segunda vez. Que é o meu caso.

Lembro-me de há algum tempo ter lido sobre um caso, em que o pai referia em tribunal que a mãe (sua ex) não tinha paciência para os filhos. Pergunto-me como seria a vida desta mãe, e se essa falta de paciência se manifestava todos os dias, ou pontualmente, quiçá "naqueles" dias. Quero dizer, com isto, que qualquer manifestação de falta de paciência por parte da mãe (como se fosse suposto ela estar SEMPRE cheia de paciência, e ter SEMPRE para com os filhos uma atitude exemplar), pode, mais tarde, ser usada em proveito do pai. Não me admirava nada que muitos tivessem ganho a custódia dos filhos à conta da falta de paciência que acomete as mães, sobretudo nos "tais" dias.

Em relação à mais velha -que, como vos disse, não vive comigo- passa-se o mesmo. Enquanto ela está comigo, vejo-me na obrigação de ser a melhor mãe do mundo. Primeiro, porque tenho de provar que estou à altura, e, segundo, porque a mínima falta pode levar a que eu perca os poucos direitos que consegui reconquistar.

E se porventura ela um dia voltar a viver comigo (será o dia mais feliz da minha vida!), nada voltará a ser como antes. Sentir-me-ei sempre na obrigação de dar todas as provas e mais algumas de que não sou uma má mãe. Ela terá de ser uma aluna exemplar, e NUNCA, em momento ALGUM, poderá ter o mínimo deslize.

Até quando esta perseguição insensata?!

Enough is enough.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

LICENÇA DE PATERNIDADE

Houve um tempo -e, por certo, tal ainda ocorre em algumas tribos, e em alguns lugares- em que não se felicitava a mulher grávida, mas o futuro pai. Por altura do parto, este contorcia-se de dores (?!), como se estivesse de facto a parir. No dia seguinte, a mulher levantava-se, mas o homem permanecia deitado, para receber os parabéns.

Hoje, em pleno século XXI, não estamos muito longe de voltar a este tempo! Já nem é tão raro assim ver uma mulher retomar o trabalho bem cedo, demasiado até, cedendo o seu lugar ao homem.

E não é assim tão raro ver um pai ficar com a guarda dos filhos, sejam estes pequenos ou não, por "mérito". Alegam ter melhores condições e um melhor perfil para cuidar dos filhos do que a mãe.

Tudo isto em nome de uma IGUALDADE que nem sequer existe! Como se a paternidade fosse a mesma coisa que a maternidade. Pelo jeito que anda a coisa, parece até que a paternidade vale bem mais do que a maternidade. Ou melhor, o que vale é a paternidade, pois a maternidade é um mito.

Ao que nós chegamos, meu Deus!!! Só falta o homem engravidar de facto (dizem que sim, que o homem também está grávido), e ir para a PATERNIDADE dar à luz!

PARABÉNS!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

OS ESPERMATOZÓIDES MOVEM-SE, SIM... COM A AJUDA DA MAMÃ!

Não percebeu? Leia o meu post QUEM DÁ A VIDA MESMO É O HOMEM, DISSE ELE!
Já acrescentei umas informações que não deixam quaisquer dúvidas.

sábado, 13 de novembro de 2010

TODOS OS HOMENS PENSAM NA SUA MÃE

Acabo de saber hoje, dia 14, que o Afonso, esse menino de que vos falei há dias,admirando a força e a coragem dos pais, não resistiu. Partiu no dia 3.
Eu tinha trazido antes este poema de Fernando Pessoa (já o tinha colocado aqui, embora tenha iniciado o post ontem, dia 13), que passa a ser dedicado a este menino, e a todos os outros anjinhos. Um abraço para todos os pais e para todas as mães que passaram por essa experiência. Tivesse eu um pouco da sua força e da sua coragem, pois não é fácil para nenhum pai (muito menos para uma mãe) ver um filho seu partir assim!

Parecem coisas de coincidência, mas eu falei do menino precisamente no dia em que veio a falecer, no meu post O MEU NOME É SARA! Eu não o sabia...

Os meus pêsamos aos seus pais, Graça e André Couto. O meu pensamento está convosco.


O MENINO DE SUA MÃE

No plaino abandonado
Que a morta brisa aquece,
De balas traspassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

FERNANDO PESSOA





Reflexão:

Este poema foi escrito para poder ser visto de modo metafórico, a representação do próprio poeta que sabe ser impossível o regresso ao ventre materno, porque a infância ficou para trás, inevitavelmente perdida, ideia que pode relacionar-se com a temática pessoana “a nostalgia da infância” – a época de ouro, da felicidade inconsciente, para sempre perdida, que contrasta com a situação presente caracterizada por consciência aguda que provoca no poeta a sensação de desconhecimento de si mesmo, a perda de identidade.

O sujeito poético neste poema fala também da cigarreira dada pela sua mãe e o lenço dado pela alma que o ajudou a criar, são representações do seu passado de “menino” que viveu junto a quem o amava.









Facto é que, em momentos de dificuldade ou perante a morte, nos vem sempre a imagem da mãe, ou de quem nos criou:




"(...)

Quando estamos em dificuldades, todos, homens ou mulheres, sempre pensamos em nossa mãe, pelo menos na Índia. Havendo um problema, pensamos na mãe. Quando estamos doentes ou em apuros, dizemos: “Amma!” Não importa a idade. O homem chama pela sua mãe, mesmo aos 80 anos, não pela esposa, nem pelos amigos, infelizmente nem mesmo pelo seu pai. Porque os pais geralmente estão ocupados com suas próprias ambições, com suas próprias existências, com a construção de seus próprios impérios, com nações para governar, tantas coisas – seus egos. Mas as mães, essas pobres criaturas, sempre dedicadas, muitas vezes não são nada. Na Índia, a mãe freqüentemente é analfabeta, no entanto ela é a síntese de tudo que é gentil, de tudo que é amor e, de certo modo, é a fonte do nosso bem-estar.

Eu li um livro sobre o grande mestre de sitar, Amjad Ali Khan, no qual ele diz: “A voz da minha mãe foi a primeira música que ouvi.” É verdade: para um músico, é a primeira música que ele ouve. Para o apaixonado, são as primeiras palavras de amor. Para alguém que busca Deus, são as primeiras palavras do Guru. Eu acredito que só existem duas vozes às quais devemos dar ouvidos: à voz da mãe que diz: “Meu filho (ou minha filha) seja afetuoso, gentil, compassivo, misericordioso, compreensivo.” Mas quando somos jovens, tentamos imitar o machismo do pai – seu orgulho, sua arrogância, sua cobiça, sua necessidade de construir, de presidir, de governar – todas as nuanças da ação do ego.

(...)"

FONTE: http://www.srcm.org/language/portuguese/pn_9.html


Ora aí está porque eu digo sempre que, mesmo que se corte o cordão umbilical, ele permanece para a vida!





Alain Souchon conta que numa dada altura em que fazia esqui com o irmão, tinha ele já 30 anos, teve um acidente e pensou que ia morrer. Nesse momento só lhe veio uma palavra à boca: "MAMAN!" (ver o primeiro vídeo).

Felizmente foi um acidente sem grande importância, mas ele recordou-se desse momento, e compôs "Allô maman bobo!" (ponho-vos aqui a letra e a música na sua íntegra no 2º vídeo).

ALLÔ MAMAN, BOBO!

J'march' tout seul le long d'la lign' de ch'min d'fer
Dans ma tête y a pas d'affair'
J'donne des coups d'pied dans un' ptit' boîte en fer
Dans ma tête y a rien à faire
J'suis mal en campagn' et mal en vill'
Peut-être un p'tit peu trop fragil'

[Refrain]
Allô Maman bobo
Maman comment tu m'as fait j'suis pas beau
Allô Maman bobo
Allô Maman bobo

J'train'fumée, j'me r'trouv' avec mal au cour
J'ai vomi tout mon quatre heur'
Fêt', nuits foll's, avec les gens qu'ont du bol
Maint'nant qu'j'fais du music hall
J'suis mal à la scène et j'suis mal en vill'
Peut-être un p'tit peu trop fragil'

[Refrain]

Moi j'voulais les sorties d'port à la voil'
La nuit barrer les étoil's
Moi les ch'vaux, l'révolver et l'chapeau d'clown
La bell' Peggy du saloon
J'suis mal en homme dur
Et mal en p'tit coeur
Peut-être un p'tit peu trop rêveur

[Refrain]

J'march' tout seul le long d'la lign' de ch'min d'fer
Dans ma tête y a pas d'affair'
J'donne des coups d'pied dans un' ptit' boîte en fer
Dans ma tête y a rien à faire
J'suis mal en campagn' et mal en vill'
Peut-être un p'tit peu trop fragil'




DO MATRIARCADO AO PATRIARCADO!

Na sequência do que tenho vindo a falar, eis que me pus a pensar. Será que sempre predominou o patriarcado? Será que, em alguma altura, estivemos mais próximos da nossa verdadeira natureza? Será que já estivemos mais próximos da verdade?


Eis o que diz um dos textos que eu encontrei:


Idade Média

Ciências Humanas e suas Tecnologias.


Do matriarcado ao patriarcado

Reprodução


Adão e Eva, de Albrecht Dürer. Nascida da costela de Adão, a mulher aparece na Bíblia sem nenhum poder.

"No princípio era a Mãe. O verbo veio depois". A frase da pensadora feminista norte-americana Marilyn French refere-se à passagem da cultura matriarcal para a patriarcal. O nascimento da agricultura e a definição dos territórios tribais levou ao acirramento das disputas e das guerras. As concentrações humanas cresceram organizadas em torno da produção de alimentos e das lideranças guerreiras que lhes davam proteção. Essa mudança levou à queda das deusas e à criação dos deuses – fortes, guerreiros, conquistadores. A saga de Conan, levada para o cinema, nos dá uma idéia de como eram esses tempos. Os textos bíblicos também lembram essa época: a mulher obedece e serve. É mãe, cortesã ou prostituta e não tem poder político. Nas sociedades ocidentais, os deuses acabam dando lugar a um só deus, matriz das três principais correntes religiosas do mundo atual: o cristianismo, o judaísmo e o islamismo. A mulher passa para um segundo plano.



Segundo a Bíblia, Deus criou a Terra e todos os seres que nela habitam. Também fez Adão, à sua imagem e semelhança. Da costela de Adão, fez Eva. Em outras palavras: o primeiro homem deu à luz a primeira mulher. O que antigamente era a função sagrada do feminino passa a ser do masculino. A mulher, de criadora, torna-se criatura.


Também achei interessante este texto:


Mutações da sexualidade feminina – Uma introdução ao matriarcado


Por Géssica Hellmann

Abordar, de forma introdutória, a história da sexualidade, do comportamento humano, das relações de gênero, nos primórdios da humanidade, é o meu objetivo no presente artigo. Estudar o matriarcado é conhecer a história feminina, uma história que pode mudar a visão de como as mulheres se vêem e como a sociedade as projeta.


Como eu me vejo por Géssica Hellmann

Sanz (2007), em sua extensa pesquisa sobre os escritos de Bachofen, afirma que ele foi o grande iniciador dos estudos sobre as origens do matriarcado, da “cultura ginecocrática” na antiguidade. Pensador e investigador do século XIX, docente colega de Nietzsche, Bachofen distinguiu três momentos importantes na constituição do período matriarcal no passado grego e sua passagem para o patriarcado:

- Primeiro estágio: Dominado pela deusa Afrodite, a vida se encontrava então em plena de símbolos do feminino e da natureza. O direito natural que prevalece aqui é o da fecundidade. Da terra, sua capacidade criadora. A terra é a grande mãe.

- Segundo estágio: Predomina o culto à deusa Deméter, na qual o feminino aceita a mediação do matrimônio num plano social e na agricultura como uma forma essencial, contudo, em unidade com a natureza.

- Terceiro estágio: Triunfo de Apolo, o deus-sol. Aqui inicia-se o predomínio masculino e o desprezo ao feminino, produzindo-se, assim, a passagem do sistema matriarcal para o patriarcal. A sociedade patriarcal privilegia o racional, a individualidade, a guerra, a autoridade, a dominação.

Segundo a autora, Bachofen “converte” sua investigação em uma antropologia histórica das representações simbólicas que configuram a memória coletiva de um povo e, em ultima instância, sua identidade.

Seguindo a linha dos antropólogos evolucionistas, Morgan defendeu, ao estudar as tribos dos Iroqueses, a visão de que as relações de parentesco eram matrilineares. Afirmou também que, na sucessão para a filiação patrilinear, depois do aparecimento da propriedade, o parentesco passou a ser constituído por um homem, considerado o antepassado comum, pelos seus filhos, pelos filhos dos seus descendentes masculinos e assim sucessivamente. (Morgan, 1976)

Na opinião de Götner-Abendroth (2007), o trabalho de Bachofen situa-se no campo da história das culturas e encontra-se em paralelo perfeito com o trabalho de Morgan no campo da antropologia/etnologia. Mas a crítica avaliou muito diferentemente o trabalho desses estudiosos: Morgan foi considerado o pai da etonologia/antropologia; já a Bachofen, não foi-lhe dada a devida importância.

Segundo a autora a razão é simples: “se fosse feito um exame minucioso de seu trabalho, isso causaria o começo da ruína da visão patriarcal, da ideologia e do mundo. Marca o início do desenvolvimento de um novo paradigma da história humana: por isso é tão “perigoso” estudá-lo adequadamente”.

Götner-Abendroth (2007) afirma que, por mais importante que tenham sido – e o foram realmente – os primeiros textos sobre o matriarcado, foram escritos por homens que viviam e estavam completamente inseridos em uma sociedade machista e patriarcal. O trabalho da autora, assim como de outros contemporâneos, procura revisar o conhecimento sobre a estrutura do matriarcado numa visão menos preconceituosa.

Para Bachofen, as sociedades humanas, em seus primórdios eram, seguramente, sociedades matriarcais. “As mulheres”, assegurou, “dominavam o mundo de então” (Existiu, 2007).

Götner-Abendroth (2007) discorda do termo “dominar”, ela reformula o próprio siginificado do termo matriarcado: “Nós não somos obrigadas a seguir a noção machista do termo matriarcado significando: dominação pelas mães”. A autora afirma que a palavra grega “arché” tem um duplo sentido, significa tanto “começo” quanto “dominação”. A definição mais precisa de matriarcado seria então: “as mães do princípio”, enquanto o patriarcado, por outro lado, seria traduzido corretamente como “domínio dos pais”. Segundo a autora, a redefinição do termo matriarcado tem relevância política, pois ele não evita discussão com colegas profissionais e com a audiência interessada.

Como a sociedade matriarcal era estruturada, social, cultural e economicamente? Götner-Abendroth (2007), em suas pesquisas, procura responder a essas questões:

- No nível econômico, são sociedades em sua maioria agrícolas. As tecnologias agrícolas desenvolvidas vão desde simples jardinagem (horta) à uma agricultura completa com arado (no começo do Neolítico) e, finalmente, aos sistemas de grandes irrigações das primeiras culturas urbanas as mais adiantadas. Os bens não são acumulados por uma pessoa ou por um grupo específico, a sociedade é igualitária e não-acumulativa. Cada vantagem ou desvantagem a respeito da aquisição dos bens é mediada por regras sociais. Por exemplo, nos festivais da cidade, os clãs mais ricos são obrigados convidar todos os habitantes. Organizam o banquete, no qual distribuem sua riqueza para ganhar a honra.

- No nível social, o parentesco é matrilinear, no qual todos os títulos sociais e políticos são transmitidos através da linhagem materna. Este tipo de matri-clã consiste pelo menos em três gerações das mulheres – a clã-mãe, suas filhas, seus netas – e os homens diretamente relacionados – os irmãos da mãe, de seus filhos e de netos. As mulheres vivem permanentemente e nunca saem da casa do clã de sua mãe, quando se casam. A isso se chama matrilocalidade. As mulheres têm o poder de controlar as fontes nutrição: campos e alimento. Os clãs são auto-suficientes e se relacionam com outros clãs através da união do casamento. Esse casamento não é uma união individual, mas uma união comunal que conduz ao matrimônio comunal. Por exemplo, os homens novos da casa do clã A são casados à casa do clã nova B das mulheres, e os homens novos da casa de clã B são casados às mulheres novas na casa de clã A. Isto é chamado uma união mútua entre dois clãs em uma aldeia matriarcal. Os homens jovens, que saíram das casa de suas mães após seu casamento, não têm que ir muito longe. Realmente, ao anoitecer vão à casa vizinha, onde suas esposas vivem, e voltam muito cedo – no alvorecer. Os homens matriarcais nunca consideram os filhos de sua esposa como seus, porque não compartilham de seu nome de clã. A paternidade biológica não é conhecida, nem a ela se dá atenção. Os homens matriarcais cuidam de seus sobrinhos e sobrinhas num tipo de paternidade social. Mesmo o processo de tomada de decisão política é organizado ao longo das linhas do parentesco matriarcal. Os delegados de cada casa de clã encontram-se com no conselho da aldeia, onde todos os assuntos são discutidos. Estes delegados podem ser as mulheres mais velhas dos clãs (as matriarcas), ou os irmãos e os filhos que escolheram para representar o clã. Nenhuma decisão a respeito da aldeia pode ser feita exame sem o consenso de todas as casas de clãs. Um fato importante: os delegados, que estão discutindo a matéria, não são aqueles que tomam a decisão, os delegados possuem a função simplesmente de porta-vozes.

Pessoas que vivem em uma determinada região tomam decisões na mesma maneira: os delegados de todas as vilas encontram-se com para trocar as decisões de suas comunidades. Em contraste aos erros etnológicos freqüentes feitos sobre estes homens, elas não são os “chefes” pois não depende deles a decisão. A decisão é tomada em nível regional, um consenso entre todas as casas de clãs. Conseqüentemente, do ponto de vista político, as sociedades matriarcais são sociedades igualitárias ou sociedades do consenso. Exatamente neste sentido, estariam livres de dominação, desprovidas de uma classe de dominadores e uma classe excluída, isto é, não possuem os aparelhos repressivos necessários para estabelecer a dominação.

- No nível cultural, é preciso esclarecer que não são sociedades caracterizadas por “cultos à fertilidade”, mas que desenvolveram complexos sistemas religiosos. O fator comum seria crença no renascimento, não como a idéia abstrata da transmigração de almas, mas em um sentido muito concreto: todos os membros de um clã sabem que, após a morte, vão renascer – por uma das mulheres de seu próprio clã, em sua própria casa de clã, em sua aldeia natal. As mulheres em sociedades matriarcais são grandemente respeitadas, porque elas garantem o renascimento. Assim como na natureza, cada planta, resseca no outono e renasce na próxima primavera, a terra é a grande mãe que concede o renascimento e a nutrição a todos os seres. No cosmos e na terra, os povos matriarcais observam este ciclo da vida, da morte e do renascimento. De acordo com o princípio matriarcal da conexão entre o macro-cosmo e o micro-cosmo, vêem o mesmo ciclo na vida humana. A existência humana não seria diferente dos ciclos da natureza, mas seguiria as mesmas regras. Da perspectiva matriarcal, a vida traria a morte e a morte traria a vida, cada coisa em seu próprio tempo. Da mesma maneira, a fêmea e o macho também seriam uma polaridade cósmica. Nunca ocorreria a um povo matriarcal considerar o outro sexo como mais fraco ou inferior ao outro, como é comum em sociedades patriarcais.

“O grande mérito destas obras, publicadas nas décadas de 1870 e 1880, foi a constatação de que a família tinha história e que, ao longo dos séculos, tinha conhecido várias formas. A família monogâmico-patriarcal era apenas uma delas. Conclusão: o poder masculino e a submissão da mulher não eram eternos, como diziam as religiões e as pseudociências racistas e sexistas da época” (Buonicori, 2007).

Segundo Buonicori (2007), Engels afirmaria que a monogamia teria sido fundada sob a dominação do homem com o fim expresso de procriar filhos duma paternidade incontestável, na qualidade de herdeiros diretos. Mas somente ao homem, garantido pelos costumes, é concedido o direito da infidelidade conjugal, já a mulher infiel é punida severamente pela sociedade.

Em outras palavras, podemos afirmar que, com a monogamia, instituiu-se a prostituição e o adultério. A mulher é condenada caso não aceite a condição monogâmica, enquanto o homem pode carregar uma “leve mancha moral” mas, ainda assim, é aceitável, até nos dias de hoje, principalmente pelas próprias mulheres, que o homem se relacione com prostitutas.

Pensamos agora na neurose coletiva, que tanto abordamos nos últimos artigos, ou nos indivíduos normopatas, como diz Gaiarsa, ou nos Zés ninguéns, como prefere Reich. Ao reprimir a sexualidade, ao criar esta idéia do “sexo frágil”, da “inferioridade feminina”, defendida durante séculos por estudiosos do comportamento humano e da sexualidade, ao negar o feminino proclamando um único Deus masculino, ao negar a sexualidade sadia de Cristo, ao tornar Maria um ser assexuado – ao fazer tudo isso, a quem estamos agredindo, a não ser a nós mesmos? O que tanto tememos? A liberdade? A felicidade?

Com o advento da sociedade patriarcal, com o casamento monogâmico, criamos o quê? Guerras, genocídios, a negação do prazer e da felicidade. Por isso considero importantíssimo um mergulho no passado, em nossos ancestrais mais longínquos: a sociedade matriarcal. É preciso entender o a estrutura, esse processo de transformação: da sociedade matriarcal para a patriarcal e todas as suas conseqüências.

Bibliografia:

Buonicori, Augusto C. Engels e as origens da opressão da mulher. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/070/70esp_buonicore.htm. Acessado em 10/08/2007.
Existiu o matriarcado? Disponível em: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/artigos/matriarcado4.htm. Acessado em 10/08/2007.
Götner-Abendroth, Heide. Matriarchal society: definition and theory. Disponivel em: http://www.hagia.de/documents/position.pdf Acessado em: 01/07/2007
Morgan. Lewis H. A sociedade primitiva. Volume I, 2 ed, Editorial Presença Lisboa Portugal, Martins Fontes Brasil, 1976.
Sanz, Marta Silvia Dios. El matriarcado. Disponível em: http://www.temakel.com/texmitmatriarcado.htm. Acessado em 10/08/2007.


E como é, no Reino Animal?


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15/08/07 - 20h06 - Atualizado em 15/08/07 - 20h06


Fêmeas dominam machos entre mamíferos
Eles tentam impressioná-las com as regras que elas estabelecem.
Machos são capazes de abandonar seus grupos, se for para satisfazê-las.

Um estudo de pesquisadores do Reino Unido e da Alemanha demonstrou que os mamíferos machos tentam impressionar as fêmeas seguindo as regras que elas próprias estipulam para selecionar seus companheiros.



Os cientistas destacam, em artigo da revista científica britânica "Nature", que os machos tentam seguir sistematicamente as ordens de suas companheiras. Eles seriam até mesmo capazes de abandonar seus clãs, se acharem que, com isto, podem agradar as fêmeas e conseguir se reproduzir.



De acordo com os pesquisadores, a regra entre as fêmeas mamíferas é evitar os machos que eram membros de seu grupo quando elas nasceram, e dar preferência aos que imigraram ao seu clã ou nasceram nele depois delas.



Os cientistas explicam que este procedimento evita que as fêmeas tenham que discernir se seu pretendente é parente próximo ou não, na hora de reproduzir. O resultado, como afirma o artigo, é que os machos acabam realizando uma diáspora, saindo de seus clãs de origem e indo a outros para ter mais possibilidades de chamar a atenção das fêmeas.



Para fazer essas descobertas, os pesquisadores realizaram um estudo com dados demográficos das hienas da cratera de Ngorongoro, na Tanzânia. Os cientistas afirmam que o resultado desta pesquisa pode ser aplicado aos demais mamíferos que vivem em grupos.



"Ao todo, 11% dos machos começaram sua corrida reprodutiva em seu grupo natal, ao tempo que 89% se dispersaram", afirmam os especialistas. Eles dizem, ainda, que a maioria dos machos que seguiram as regras femininas preferiu um clã em que houvesse abundância de fêmeas jovens.



"Aqueles que começaram sua experiência reprodutiva em grupos com um maior número de fêmeas jovens tiveram um êxito reprodutivo mais durável que os que o fizeram em outros grupos", acrescentam.



Neste sentido, os pesquisadores afirmaram que as jovens hienas preferem machos recém-chegados a seus grupos em relação aos mais velhos no clã, que são os mais procurados pelas fêmeas mais velhas e que desfrutam de um melhor status.



"A hiena é um grande carnívoro que vive em grupos sociais ou clãs nos quais as fêmeas dominam socialmente os machos. Muitos machos se dispersam, enquanto poucas fêmeas o fazem", explicam os especialistas.


Entende-se, por este texto, que as regras das fêmeas não seguem o capricho destas, mas algo que elas entendem ser o melhor. Elas sabem o que fazem.

Tal como as progenitoras, em relação às crias. Elas sabem o que fazer, e quando as devolver à natureza, nem que estas tenham que ser empurradas. Tanto crias fêmeas (que costumam ficar mais tempo com a mãe) como as crias machos são exclusivamente cuidadas pela progenitora, e nunca vi nenhuma sofrer efeitos negativos na sua identidade, sendo que as fêmeas agem como fêmeas (mas não como inferiores) e os machos como machos. Nenhuma dessas crias sai, assim me parece, traumatizada pela predominância dos cuidados maternos, sendo que em muitas espécies nem sequer está presente o progenitor.





Não sou por nenhuma destas sociedades, embora eu acredite que numa sociedade matriarcal havia mais igualdade do que existe na nossa sociedade de cariz ainda patriarcal.

O que eu não acredito é numa igualdade no sentido que lhe querem dar. Pura e simplesmente porque a natureza não nos fez iguais. Mas também não nos fez a uns seres superiores e a outros seres inferiores. Apenas diferentes.

Acredito que cada um tem o seu papel, igualmente precioso. Mas isso não significa uma igualdade 50/50. Isso é impossível, e foge ao que é natural (sim, falo do natural, não do social).

Pode-se conquistar o respeito.
A igualdade, não.

Uma igualdade significa o respeito pelo outro: assim como uma mãe deve preservar a figura do pai, permitindo o contacto deste com os filhos, o pai deve entender que, por natureza, estes devem (salvo excepções, e a vontade destes) permanecer com a mãe, não sendo esta OBRIGADA a permanecer nas proximidades. Ainda que ela permaneça, alguém acaba por ser obrigado a fazê-lo, e esse alguém será o seu novo companheiro ou marido, que, por amor -ou capricho de um ex-, terá de se sacrificar.

Em nome dos filhos (do Superior Interesse destes, assim o dizem), eis então o retorno da lei do pai (ver entrevista a Martin Dufresne no meu post "EM NOME DOS FILHOS, OU O RETORNO DA LEI DO PAI").

E ainda dizem que são as mães que detêm todo o poder, que elas é que mandam e desmandam como querem...
Será mesmo assim?

No meu próximo post trago-vos um ou dois casos, que vos irá fazer pensar. Um até nada tem a ver com o outro. Mas ambos fazem pensar, e de que maneira.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

"QUEM DÁ A VIDA MESMO É O HOMEM", DISSE ELE.

O homem é que dá a vida. A mulher só empresta a barriga.
Eis o que se conclui das palavras de um certo senhor. E estamos nós no século XXI!

Ora vejam:

"(...). Isto tem que acabar de vez. Não é porque a natureza disse que a mulher é quem irá gerar um filho em sua barriga que se tirará o direito do homem pelo simples fato de ñão ter sido ele quem a natureza escolheu para esta gestação, alem do mais, porque se tende a achar que porque um filho passa apenas 9 meses na barriga de uma mãe, que por isto todos os outros anos restantes de sua vida pertencerão somente a ela com maior direito ? Isto é injustiça. A mulher prover a gestação, mas uma vez fora do útero, o novo ser não precisa mais daquela "casca" que foi gerada, e nem a criança precisa ser penalizada pelo resto da vida apenas pelo fato de que a natureza é quem quis assim. Outra coisa que poucos talvez não tenham percebido. A mulher prover a gestação e cede o seu óvulo, que apenas contém o seu material genético, mas observem que quem dá a vida mesmo é o homem, pois é o espermatozóide que traz os movimentos. Observem que o óvulo não se mexe. A vida, esta troca de energia contínua que faz algo se mover, quem dar mesmo é só o homem atraves do seu espermatozóide. Este é o meu ponto de vista que deixo aqui e que faço questão de colocá-lo apenas para mostrar que a mulher não tem que se sentir com direito nenhum a mais que o pai, e ponto final. A disputa deverá ser sim, por bons comportamentos e conduta, que isto era o que a justiça deveria ver, e não somente quem pariu e cedeu a barriga apenas por 9 meses, pois já que é assim, a justiça deveria também considerar que quem dar a vida, movimento, mmesmo, é o homem e não amulher, então isto por si só se anulam estes dois fatos equilibrando-sos mutuamente. (...)"


Ora estas palavras vêm corroborar aquilo que Martin Dufresne (MD) disse em entrevista:

(...)
CST: Um dos depoimentos destacados pelos diretores do filme In Nomine Patris é o do deputado europeu Alain Lipietz, no qual ele chama atenção sobre o fato de os movimentos de pais reivindicarem seus DIREITOS sobre os filhos (e não seus DEVERES enquanto progenitores), argumentando que, no limite, trata-se de um regresso à velha condição patriarcal, centrada na noção de que os filhos ao homem pertencem. O que você acha desse argumento?

MD: As reivindicações desse tipo de movimento fazem da criança uma espécie de propriedade do pai, o que nos leva de novo à velha noção fantasmática de que embrião é uma simples extensão do pai colocada no ventre da mulher que se torna sua propriedade. Sim, essa na verdade é uma regressão quanto ao reconhecimento dos direitos das mulheres de controlarem seu próprio corpo, e poder-se-ia falar também do direito das crianças de não serem apropriadas como um bem que pertença a seu genitor. Em lugar da partilha desejada, que seria, em tese, justa, há muitos elementos de regressão essencialista e biologizante no discurso masculinista, elementos que são facilmente banalizados na psicologia popular e numa certa romantização do papel dos pais como figuras de autoridade, muito mais que de partilha eqüitativa.
(...)


Mas será que este senhor (o de cima) tem razão?
Talvez uma aulita de biologia nos venha ilucidar.

Ora cá vai então:

A reprodução é a capacidade de constituir descendência portadora de genes dos progenitores assegurando a renovação continua da espécie e a transmissão da informação genética de geração em geração.

A espécie humana, como a maior parte das espécies que existem no planeta Terra, reproduzem-se sexuadamente. Na reprodução sexuada ocorre a fecundação, com fusão de gâmetas, geralmente provenientes de dois progenitores diferentes, e formação de um ovo. Os descendentes são únicos, geneticamente diferentes entre si e dos progenitores.


Reprodução Humana

Na reprodução humana intervêm órgãos especializados que formam os sistemas reprodutores (feminino e masculino).



Sistema Reprodutor Feminino

O sistema reprodutor feminino é um conjunto de órgãos que asseguram a produção de óvulos e o desenvolvimento de embriões. Tem como funções básicas:

. Génese de gâmetas;

. Transporte dos gâmetas ao local de fecundação;

. Recepção do esperma;

. Desenvolvimento de novos seres.



Sistema Reprodutor Masculino

O sistema reprodutor masculino é constituído por órgãos que asseguram globalmente a produção de espermatozóides. Tem com funções básicas:

. Génese de espermatozóides e seu armazenamento;

. Produção de secreções que, com os espermatozóides, formam o esperma;

. Transporte e libertação de esperma;

. Copulação.

FONTE: http://www.notapositiva.com/pt/apntestbs/biologia/12_reprod_humana_man_fert.htm


Os senhores por acaso já ouviram falar em mitocôndrias? Não?
Pois eu vim a descobrir que as mitocôndrias são essenciais para a vida das células, pois que são elas que geram energia. Herdámo-las da MÃE. Muito raramente provêm do pai, sendo que mesmo nesses casos, prevalecem as mitocôndrias maternas.

Na generalidade, as paternas são eliminadas logo após a fecundação. Do espermatozóide apenas fica o seu núcleo. A mãe, para além do núcleo, fornece tudo o resto.

Na fusão de ambos os gâmetas, o masculino e o feminino, só lá ficam, portanto, as mitocôndrias maternas, o que faz com que tenhamos mais material genético provindo da mãe. Isso explica o facto de se ter encontrado a primeira mulher da raça humana, mãe de todos nós. E é por isso que cada um de nós deve, na busca pelo seu passado, seguir principalmente o rasto materno.

Quer isto dizer que o espermatozóide, uma das mais pequeninas células do corpo humano depende das mitocôndrias (que herdou da mãe) para viver e para se movimentar. Assim me parece.

Por seu turno, o óvulo, a maior célula do corpo humano, também contém em si mitocôndrias. E são elas que vão, de facto, garantir a vida da nova célula que se gera após a fecundação. O pai apenas transmite o seu material genético, que se irá juntar ao material genético da mãe.

Parece que as minhas conclusões não estão erradas!
Ora vejamos:

BIOLOGIA

QUESTÃO 1

OS ESPERMATOZÓIDES ESTÃO ENTRE AS CÉLULAS HUMANAS QUE POSSUEM MAIOR NÚMERO DE MITOCÔNDRIAS.

A) COMO SE EXPLICA A PRESENÇA DO ALTO NÚMERO DESSAS ORGANELAS NO ESPERMATOZÓIDE?

B) EXPLIQUE POR QUE, MESMO HAVENDO TANTAS MITOCÔNDRIAS NO ESPERMATOZÓIDE, DIZEMOS QUE A HERANÇA MITOCONDRIAL É MATERNA.

RESPOSTA:

A) A GRANDE QUANTIDADE DE MITOCÔNDRIAS TEM A FINALIDADE DE SUPRIR O ESPERMATOZÓIDE DA ENERGIA NECESSÁRIA PARA OS BATIMENTOS DO FLAGELO. É ATRAVÉS DOS MOVIMENTOS DO FLAGELO QUE O ESPERMATOZÓIDE SE LOCOMOVE.

B) A HERANÇA MITOCONDRIAL É MATERNA PORQUE APENAS AS MITOCÔNDRIAS PRESENTES NO ÓVULO FARÃO PARTE DA CONSTITUIÇÃO ESTRUTURAL DO ZIGOTO.
AS MITOCÔNDRIAS DO ESPERMATOZÓIDE ESTÃO LOCALIZADAS NA SUA PEÇA INTERMEDIÁRIA. DURANTE O PROCESSO DE FECUNDAÇÃO APENAS O NÚCLEO DO ESPERMATOZÓIDE PENETRA O ÓVULO.

FONTE: http://www.etapa.com.br/gabaritos/resolucao_pdf/gab_2004/01_unifesp/prova3/unifesp2004ce-b.pdf

Ora cá está: o espermatozóide não é nada sem as mitocôndrias, fonte de energia. Por seu turno, o óvulo também tem essas tais mitocôndrias.

Como as mitocôndrias do espermatozóide se perdem logo após a "fecundação", são as mitocôndrias do óvulo as responsáveis por garantir a vida dessa nova célula formada pela fusão dos núcleos de um (espermatozóide) e do outro (óvulo).

Logo, é de facto a mulher que garante e que dá a vida.
Sem quaisquer dúvidas.

Não esquecendo que as mitocôndrias vêm carregadas de material genético (o ADN mitocondrial).
Como as mitocôndrias do pai se perderam (quase garantidamente), temos nas mitocôndrias apenas o material genético da mãe.

Daí ser tão fácil identificar a primeira Eva (haveria outras mulheres no seu tempo, e mesmo antes, mas só o material genético dessa mulher chegou até nós).



Mas o trabalho da mulher não acaba aqui.

O corpo feminino segrega uma substância química (talvez as mitocôndrias, geradoras de energia,e presentes em todas as células do nosso corpo, sejam de novo responsáveis) que irá orientar os espermatozóides no seu árduo percurso.

Sem isso, e sem os batimentos da sua cauda -são as mitocôndrias que lhes dão energia para se moverem, relembro, e essas foram herdadas da mãe- os espermatozóides não chegavam lá.

Na verdade, essa substância age mais como um magnético, atraindo os espermatozóides para o óvulo.

Daí, talvez, esta piada:

Estrela - DestaquesPor que são necessários milhões de espermatozóides para fertilizar um único óvulo?
Porque os espermatozóides são masculinos e se negam a perguntar o caminho.






Frases e Mensagens - Frases Feministas




Para além disso, é a mulher que "escolhe" os espermatozóides que irão fertilizar o seu óvulo.

Significa isto que, apesar de ser o homem a determinar o sexo da criança, na verdade é a mullher quem tem 100% do contrôle.

Daí a razão (uma delas, se não a principal) de um casal só ter meninas, ou só ter meninos. Ou mesmo de ter um menino, e depois uma menina, ou vice-versa.

Foi o homem que assim quis?
Ou foi a mulher que, mesmo inconscientemente, assim decidiu?

Veja-se, por exemplo, o caso de Luis Figo e de David Bechkam: o primeiro é pai de três raparigas, o segundo de três rapazes.

Das suas uma: ou os espermatozódes XY (no caso de Luis Figo)e os XX (no caso de David Bechkam) não tiveram força para marcar, ou isto é obra das respectivas senhoras. A ver como se saem da próxima.


Portanto, quando o homem pensa que tem o contrôle da situação, na verdade é a mulher quem controla.

O que põe por terra certas expressões muito masculinas, tais como "eu comi a gaja!", já que foi o contrário.



Mas porque razão ainda prevalece a ideia de que é o homem que faz e que na mulher acontece?

Talvez por ainda prevalecerem termos como "fecundar" e "fertilizar" (que são de origem latina, e, portanto, prova de que vivia-se, então, numa sociedade patriarcal, em que se acreditava que o homem gerava um prolongamento de si na mulher, sendo dono e senhor quer desta quer da prole) e símbolos como seta para cima e cruz para baixo, que conferem ao homem um papel activo, de verdadeiro actor.

Ou pelo menos passam essa ideia, pois que ainda perdura essa crença e essa mesma atitude.

Eles, os homens, são a potência.
Eles fazem acontecer.

E nós, mulheres, meras barrigas de aluguer.
E pronto, acontece.

Ora, bem vistas as coisas, a autoria é de ambos.
Mas a mulher tem, indubitavelmente, maior participação.
Haja quem o negue.


Nove meses de gestação não são "apenas" nove meses.
SÃO NOVE MESES!

E ainda que, depois de nascer, o filho não mais precise da "casca", ele precisa, mais do que nunca, da mãe.






Entretanto, encontrei este texto muito interessante. Só lamento a tradução...


O ÓVULO E O ESPERMA: COMO A CIÊNCIA CONSTRUIU UM ROMANCE BASEADO EM PAPÉIS ESTEREOTÍPICOS MACHO - FÊMEA
Reprodução livre, em Português Brasileiro, do texto original de Emily Martin para fins de estudo, sem vantagens pecuniárias envolvidas.
Todos os direitos preservados.

Free reproduction, in Brazilian Portuguese, of Emily Martin’s original text for study purposes.
No pecuniary advantagens involved. Copyrights preserved.

Emily Martin
(tradução de Fernando Manso)
Publicação original
Martin, Emily. “The Egg and the Sperm: How Science has Constructed a Romance based on Stereotypical Male-Female Roles”.
In: KELLER, Evelyn F., e LONGINO, Helen E. (eds.). Feminism and Science. New York: Oxford University Press, 1996, p. 103-20.

A teoria do corpo humano é sempre uma parte de uma visão de mundo. A teoria do corpo humano é sempre uma parte de uma fantasia.
[James Hillmam, O mito da Análise]
Como uma antropóloga, eu me interesso pela possibilidade que a cultura molde a forma pela qual os cientistas biólogos descrevem o que eles descobrem sobre o mundo natural. Se isso for verdade, então estaremos aprendendo mais do que o mundo natural nas aulas de biologia; estaremos aprendendo sobre crenças e práticas culturais como se elas fossem parte da natureza. No curso de minha pesquisa eu verifiquei que as figuras do óvulo e do esperma desenhados nos relatos populares e científicos da biologia reprodutiva se baseia em estereótipos centrais a nossa definição cultural de macho e fêmea. Os estereótipos implicam não apenas que os processos biológicos femininos valem menos que seu correspondente masculino, mas também que as mulheres valem menos que os homens. Parte do meu objetivo em escrever este artigo é lançar uma luz nos estereótipos de gênero escondidos dentro da linguagem científica da biologia. Expostos de tal forma, eu espero que eles venham a perder muito de seu poder de nos prejudicar.

O óvulo e o esperma: Um conto de fadas científico
Num nível fundamental, todos os principais livros textos científicos descrevem os órgãos reprodutores masculino e feminino como sistemas para a produção de substâncias valiosas, tais como óvulos e esperma. No caso da mulher, o ciclo mensal é descrito como sendo projetado para produzir óvulos e preparar um local adequado para eles serem fertilizados e crescerem – tudo com a finalidade de fazer bebês. Mas o entusiasmo termina aí. Exaltando o ciclo feminino como um empreendimento produtivo, a menstruação passa a ser vista, necessariamente, como uma falha. Os textos médicos descrevem a menstruação como a “ruína” do forro uterino, o resultado de necrose, ou morte de tecido. A descrição implica que um sistema funcionou mal, fazendo produtos inúteis, fora da especificação, invendáveis, desperdiçados, sucata. Uma ilustração em um testo médico largamente utilizado mostra a menstruação como uma desintegração caótica de forma, complementando os muitos textos que a descrevem como “interrupção”, “morte”, “perda”, “privação”, “expulsão”.

A fisiologia reprodutiva masculina é avaliada de forma bem diferente. Um dos textos que vê menstruação como uma produção falha emprega um tipo de prosa apologética quando descreve a maturação do esperma: “Os mecanismos que guiam a extraordinária transformação celular do ‘spermatid’ em esperma maduro permanece incerta ... Talvez a mais fantástica característica da espermatogênese é sua enorme magnitude: o homem normal pode produzir várias centenas de milhões de espermas por dia”. No texto clássico Medical Physiology, editado por Vernon Mountcastle, a comparação macho/fêmea, produtivo/destrutivo é mais explícita: “Enquanto a fêmea verte apenas um único gameta a cada mês, os túbulos seminíferos produzem centenas de milhões de espermas a cada dia”. A autora feminina de outro texto se deslumbra com o comprimento dos microscópicos túbulos seminíferos, os quais, se desenrolados e esticados “cobririam quase um terço de uma milha!” Ela escreve, “Num adulto macho estas estruturas produzem milhões de espermas a cada dia.” Mais adiante ela pergunta, “Como este feito é conseguido?” Nenhum desses textos expressam entusiasmo tão intenso por qualquer dos processos femininos. Certamente, não é acidente que o “extraordinário” processo de fazer esperma envolve precisamente aquilo que, na visão médica, a menstruação não faz: produção de alguma coisa considerada valiosa.

Poderia ser argumentado que a menstruação e a espermatogênese não são processos análogos e, portanto, não deveria ser esperado que elas provocassem o mesmo tipo de resposta. A analogia feminina própria com a espermatogênese, biologicamente, é a ovulação. Mas a ovulação também não merece o entusiasmo nesses textos. As descrições nos livros textos enfatizam que os folículos ovarianos que contêm o gameta feminino já estão presentes no nascimento. Longe de serem produzidos, como são os espermas, eles meramente aguardam, degenerando lentamente e envelhecendo como um estoque: “No nascimento, os ovários humanos normais contêm um número estimado de um milhão de folículos (cada um), e nenhum novo folículo aparece após o nascimento. Assim em contraste acentuado com o macho, a fêmea recém nascida já tem todas as suas células germinativas. Apenas umas poucas, talvez 400, estão destinadas a atingir plena maturidade, durante sua vida produtiva ativa. Todas as outras se degeneram em algum ponto durante seu desenvolvimento, de tal forma que poucas, se alguma, permanecem ao tempo em que ela atinge a menopausa numa idade de aproximadamente 50 anos”. Note-se o “contraste acentuado” que esta descrição estabelece entre macho e fêmea: o macho, que produz continuamente células germinativas novas, e a fêmea, que estocou ao nascer células germinativas e se depara com a sua degeneração.

Nem são os órgãos femininos poupados de descrições mais intensas. Um cientista escreveu em um artigo de jornal que os ovários de uma mulher se tornam velhos e gastos pelo amadurecimento dos óvulos a cada mês, mesmo que a mulher seja ainda relativamente jovem: “Quando você olha através de um laparoscópio ... num ovário que tenha passado por centenas de ciclos, mesmo em uma fêmea americana extremamente saudável, você vê um órgão marcado e batido”

Para evitar a conotação negativa que algumas pessoas associam ao sistema reprodutor feminino, os cientistas poderiam começar a descrever os processos masculino e feminino como homólogos. Eles poderiam creditar às fêmeas a “produção” de gametas maduros um a cada vez, uma vez que eles são necessários cada mês, e descrever os machos como tendo de encarar problemas de degeneração de células germinativas. Esta degeneração ocorreria ao longo de toda a vida entre os espermatogônios, que são as células germinativas indiferenciadas nos testículos que são as duradouras e inativas precursoras do esperma.

Mas os textos tem uma insistência quase tenaz em expressar os processos femininos numa luz negativa. Os textos celebram a produção de esperma porque ele é contínuo da puberdade à velhice, enquanto eles retratam a produção de óvulos como inferior porque ela está terminada no nascimento. Isto faz a fêmea parecer improdutiva, mas alguns textos também insistem que é ela que é desperdiçadora. Num título de seção do Molecular Biology of the cell, um texto muito lido, está escrito que “A oogênese é desperdiçadora”. O texto enfatiza que de sete milhões de oogônios, ou células germinadoras do óvulo, no embrião feminino, a maioria degenera no ovário. Daquelas que sobrevivem e se tornam oócitos, ou óvulos, muitas também degeneram, de tal forma que no nascimento apenas dois milhões de óvulos permanecem no ovário. A degeneração continua ao longo de toda a vida da mulher: na puberdade permanecem 300.000 óvulos, e apenas alguns poucos estão presentes na menopausa. “durante os quarenta e poucos anos da vida reprodutiva da mulher, apenas 400 ou 500 óvulos serão liberados”, os autores escrevem. “Todo o resto terá degenerado. É ainda um mistério por que tantos óvulos são formados apenas para morrer nos ovários.”

O mistério real é por que a vasta produção de esperma masculina não é vista como um desperdício. Assumindo que um homem produza 100 milhões (108) de espermas por dia (uma estimativa conservadora) durante uma vida reprodutiva média de sessenta anos, ele produziria mais que dois trilhões de espermas em sua vida. Assumindo que um mulher “amadurece” um óvulo por mês lunar, ou treze por ano, ao longo do curso de sua vida reprodutiva de quarenta anos, ela totalizaria cinco centenas de óvulos em sua vida. Mas a palavra desperdício implica um excesso, produção em demasia. Assumindo dois ou três filhos, para cada bebê que uma mulher produz, ela desperdiça apenas por volta de 200 óvulos. Para cada bebê que um homem produz, ele desperdiça mais de um trilhão de espermas.

Como é que imagens positivas são negadas aos corpos das mulheres? Uma olhada na linguagem, neste caso a linguagem científica, fornece a primeira pista. Considere o óvulo e o esperma. É extraordinário como o óvulo se comporta “femininamente” e o esperma se comporta “masculinamente”. O óvulo é visto como grande e passivo. Ele não se move, nem viaja, mas passivamente “é transportado”, “é arrastado”, ou “desliza” pelo tubo falopiano. Em completo contraste, o esperma é pequeno, “dinâmico”, e invariavelmente ativo. Eles “entregam” seus genes ao óvulo, “ativam o programa de desenvolvimento do óvulo”, e têm uma velocidade que é freqüentemente assinalada. Suas caudas são “fortes” e eficientemente dotadas de potência. Junto com as forças da ejaculação eles podem propelir o sêmen nos mais profundos recessos da vagina. Para isso eles precisam de “energia”, “combustível”, de tal forma que com um “movimento como o de um chicote e fortes sacudidelas” eles podem furar a superfície do óvulo e penetrá-lo.

No seu extremo, o velho relacionamento entre o óvulo e o esperma assumem uma aura real ou religiosa. A superfície do óvulo, sua cobertura protetora, é algumas vezes chamada de seus “paramentos”, um termo usualmente reservado para vestimentas sagradas e religiosas. Diz-se que o óvulo tem uma “coroa” e é acompanhado de “células servidoras”. Ele é sagrado, posto de lado e acima, a rainha para o rei do esperma. O óvulo é também passivo, o que significa que ele depende do esperma para ser salvo. Gerald Schatten e Helen Schatten comparam o papel do óvulo ao da Bela Adormecida: “uma noiva adormecida aguardando o beijo mágico de seu companheiro”. O esperma, ao contrário tem uma “missão”, que é “se mover através do trato genital feminino em busca do óvulo”. Um relato popular diz que o esperma executa uma “jornada arriscada” na “escuridão ardente” onde alguns tombam “exaustos”. “Os sobreviventes” “assaltam” o óvulo, os candidatos bem sucedidos “cercando o prêmio”. Parte da urgência dessa jornada, em termos mais científicos, é devida ao fato que “uma vez liberto do ambiente protetor do ovário, um óvulo morrerá dentro de horas a menos que seja salvo por um esperma. As palavras enfatizam a fragilidade e a dependência do óvulo, muito embora o mesmo texto assinala em outra parte que o esperma também vive apenas umas poucas horas.

Em 1948, num livro extraordinário pelas suas primeiras percepções desses assuntos, Ruth Herschberger argumentou que os órgãos reprodutores femininos são vistos como biologicamente interdependentes, enquanto os órgãos masculinos são vistos como autônomos, operando independentemente e isolados:

No presente a funcionalidade é enfatizada apenas em conexão com as mulheres: é nelas que ovários, tubos, útero, e vagina têm interdependências intermináveis. No macho, a reprodução parece envolver apenas “órgãos”.

No entanto o esperma, tanto quanto o óvulo, é dependente de muitos processos relacionados. Há secreções que aliviam a urina na uretra antes da ejaculação, para proteger o esperma. Há o reflexo fechando a conexão com a bexiga, a provisão de secreções prostáticas, e vários tipos de propulsão muscular. O esperma não é mais independente do seu meio do que o óvulo, e no entanto por uma espécie de desejo, os biólogos suportam a noção de que a fêmea, a começar pelo óvulo, é congenitamente mais dependente do que o macho.

Trazendo um outro aspecto da autonomia do esperma, um artigo no periódico Cell tem o esperma tomando uma “decisão existencial” para penetrar no óvulo: “espermas são células com um repertório comportamental limitado, que é direcionado no sentido de fertilizar óvulos. Para executar a decisão de abandonar seu estado haplóide, o esperma nada para um óvulo e lá ele adquire a sua capacidade de efetuar a fusão de membrana”. Não é esta uma versão de um gerente corporativo das atividades do esperma – “executar decisões” angustiado pelas difíceis opções que envolvem altos riscos?

Há uma outra forma pela qual o esperma, apesar do seu pequeno tamanho, pode ser levado a crescer em importância com relação aos óvulos. Numa coleção de artigos científicos, uma micrografia eletrônica de um enorme óvulo e um minúsculo esperma é intitulada “Um Retrato do Esperma”. Isto é um pouco como mostrar a foto de um cachorro e chamá-la de um quadro das pulgas. Admite-se que o esperma microscópico é mais difícil de fotografar do que os óvulos, os quais são suficientemente grandes para serem vistos a olho nu. Mas certamente o uso do termo “retrato”, uma palavra associada com o poderoso e o saudável, é significante. Óvulos têm apenas micrografias ou quadros, não retratos.

Uma descrição do esperma como fraco e tímido, em vez de forte e poderoso – a única tal representação na civilização ocidental até onde eu sei – ocorre no filme de Woody Allen Tudo que você queria saber sobre saber sobre sexo mas teve medo de perguntar. Allen, fazendo o papel de um esperma apreensivo dentro dos testículos de um homem, está assustado com o orgasmo que se aproxima. Ele está relutante em se lançar no escuro, com medo dos dispositivos contraceptivos, com medo de ir parar no teto se o homem se masturba.

O quadro mais comum – o óvulo como uma jovem angustiada, protegida apenas pelas suas vestimentas sagradas; o esperma como um heróico guerreiro pronto a salvá-la – não pode ser provado que seja ditado pela biologia desses eventos. Mesmo que os “fatos” da biologia podem não ser sempre construídos em termos culturais, neste caso eu argumentaria que são. O grau de conteúdo metafórico nessas descrições, a extensão até a qual as diferenças entre o óvulo e o esperma são enfatizadas, e os paralelos entre os estereótipos culturais dos comportamentos do macho e da fêmea e o caráter do óvulo e do esperma, tudo aponta para essa conclusão.

Novas pesquisas, velhas imagens
Na medida em que novos entendimentos do óvulo e do esperma emergem, as imagens de gênero nos livros textos são revisadas. Mas as novas pesquisas, longe de escapar da representações estereotípicas do óvulo e do esperma, simplesmente replicam elementos das imagens de gênero nos livros textos numa forma diferente. A persistência dessas imagens faz lembrar daquilo que Ludwik Fleck chamou de natureza “autocontida” do pensamento científico. Segundo ele a descreve, “a interação entre o que já é sabido, o que permanece a ser aprendido, e aqueles que vão apreender, assegura harmonia dentro do sistema. Mas ao mesmo tempo eles também preservam a harmonia das ilusões, a qual é bastante segura dentro dos limites de um dado estilo de pensamento”. Nós precisamos entender a forma pela qual o conteúdo cultural em descrições científicas muda na medida em que as descobertas biológicas se desdobram, e se o conteúdo cultural está solidamente entrelaçado, ou se é facilmente alterado.

Em todos os textos referidos acima, o esperma é descrito como o que penetra no óvulo, e substâncias específicas ha cabeça do esperma são descritas como as que se ligam ao óvulo. Recentemente, esta descrição de eventos foi revista em um laboratório de biofísica na Universidade Johns Hopkins – transformando o óvulo de parte passiva para ativa.

Anteriormente a essa pesquisa, pensava-se que a zona, os paramentos internos do óvulo, formavam uma barreira impenetrável. O esperma vencia a barreira furando-a mecanicamente, batendo sua cauda e progredindo lentamente. Pesquisas posteriores mostraram que o esperma liberava enzimas digestivas que quebravam quimicamente a zona; assim os cientistas presumiam que o esperma usava meios mecânicos e químicos para entrar no óvulo.

Nesta recente investigação, os pesquisadores começaram a fazer perguntas sobre a força mecânica da cauda do esperma. (O objetivo do laboratório era desenvolver um contraceptivo que trabalhasse topicamente no esperma.) Eles descobriram, para sua grande surpresa, que a força do esperma para a frente é extremamente fraca, o que contradiz o pressuposto de que os espermas são penetradores vigorosos. Em vez de fazer força para a frente, a cabeça do esperma era agora vista se mover, a maior parte do tempo, para a frente e para trás. Os movimentos laterais da cauda do esperma faz a cabeça se mover lateralmente com uma força que é dez vezes mais forte do que seu movimento para a frente. Portanto, mesmo se a força total do esperma fosse suficiente para quebrar mecanicamente a zona, a maior parte de sua forças seria dirigida para os lados e não para a frente. Na verdade, sua tendência mais forte, dez vezes maior, é escapar tentando se libertar do óvulo. Os espermas, então, têm de ser excepcionalmente eficientes para escapar de qualquer superfície celular que eles encostem. E a superfície do óvulo precisa ser projetada para apanhar o esperma e evitar que ele escape. Caso contrário, poucos, ou mesmo nenhum, esperma alcançaria o óvulo.

Os pesquisadores da Johns Hopkins concluíram que o esperma e o óvulo se ligam por conta de moléculas adesivas que há na superfície de cada um deles. O óvulo agarra o esperma e adere a ele tão apertadamente que a cabeça do esperma é forçada a se recostar sobre a superfície da zona, um pouco como, eles me disseram, “o Coelho Br’ er ficando cada vez mais preso ao (tar baby) quanto mais se mexa”. O esperma agarrado continua a se mexer lateralmente, mas sem efeito. A força mecânica da sua cauda é tão fraca que o esperma não pode quebrar nem mesmo uma ligação química. Isto é onde os enzimas digestivos liberados pelo esperma entram em ação. Se eles começam a amolecer a zona exatamente na ponta do esperma e os lados permanecem presos, então o fraco e agitante esperma consegue se orientar na direção certa e consegue atravessar a zona – desde que suas ligações com a zona se dissolvam na medida em que ele se move.

Embora essa nova versão da saga do óvulo e do esperma fosse contra as expectativas culturais, os pesquisadores que fizeram a descoberta continuaram a escrever artigos e resumos como se o esperma fosse a parte ativa que ataca, liga, penetra, e adentra o óvulo. A única diferença era que agora o esperma era visto como se executasse essas ações fracamente. Só em agosto de 1987, mais de três anos após os achados acima descritos, que estes pesquisadores reconceituaram o processo dando ao óvulo um papel mais ativo. Eles começaram a descrever a zona como uma apanhadora agressiva de espermas, coberta com moléculas adesivas que podem capturar um esperma com uma simples ligação e mantê-lo preso na superfície da zona. Nas palavras de seu relato publicado: “O paramento mais interno, a zona pelúcida, é uma capa de glicoproteína, que captura o esperma e o prende antes que ele a penetre ... O esperma é capturado no contato inicial entre sua ponta e a zona ... Uma vez que a força (do esperma) é muito menor que a força necessária para romper uma simples ligação de afinidade, a primeira ligação feita sobre a ponta – primeiro encontro do esperma e a zona – pode resultar na captura do esperma.

Experimentos em um outro laboratório revelaram padrões similares de interpretação de dados. Gerrald Schatten e Helen Schatten mostraram que, contrariamente a sabedoria convencional, “o óvulo não é meramente uma esfera grande cheia de gema a qual o esperma fura para produzir uma nova vida. Ao contrário, pesquisa recente sugere a visão quase herética de que o esperma e o óvulo são parceiros mutuamente ativos.” Isto soa como um afastamento da visão estereotípica dos livros textos, mas lendo um pouco mais revela-se a conformidade dos Schatten com a metáfora do esperma agressivo. Eles descrevem como se dá o encontro do esperma e do óvulo: “é quando da ponta da cabeça triangular do esperma um filamento longo e fino é disparado e arpeia o óvulo”. Ficamos então sabendo que “extraordinariamente, o arpão é não somente disparado mas montado a grande velocidade, molécula por molécula, a partir de uma reserva de proteína armazenadas numa região especializada chamada acrossomo. O filamento pode crescer até 20 vezes maior que a cabeça do esperma até que sua ponta alcance e se fixe no óvulo.” Por que não chamar isso de “construir uma ponte” ou “atirar uma linha” em vez de atirar um arpão? Arpões perfuram as presas e ferem-nas ou matam-nas, enquanto este filamento apenas gruda. E por que não focar, como fez o laboratório Hopkins, no poder grudante do óvulo em vez do poder grudante do esperma? Mais adiante no artigo. Os Schattens replicam a visão da jornada perigosa do esperma pelo escuro ardente da vagina, desta vez com o objetivo de explicar sua jornada dentro do óvulo: “(o esperma) ainda tem uma árdua jornada pela frente. Ele tem de penetrar além dentro da enorme esfera do óvulo de citoplasma e de alguma forma localizar o núcleo, de forma a que os cromossomas das duas células possam de fundir. O esperma mergulha no citoplasma, sua cauda bate. Mas é logo interrompido pela súbita e rápida migração do núcleo do óvulo, que corre na direção do esperma com uma velocidade três vezes maior do que a do movimento dos cromossomas durante a divisão celular, atravessando todo o óvulo em cerca de um minuto”.

Assim como os Schatten e o biofísico da John Hopkins, outro pesquisador fez descobertas recentes que parecem apontar para uma visão mais interativa da relação entre o óvulo e o esperma. Este trabalho, que Paul Wassarman conduziu sobre espermas e óvulos de ratos, foca na identificação de moléculas específicas na cobertura do óvulo (a zona pelúcida) que são envolvidas na interação óvulo esperma. A primeira vista, suas descrições parecem se adequar ao modelo de um relacionamento igualitário. Gametas machos e fêmeos “se reconhecem” e “interações ... ocorrem entre o esperma e o óvulo.” Mas o artigo na Scientific American no qual essas descrições aparecem começa com uma vinheta que pressagia o tema principal de sua apresentação: “Há mais de um século desde que Hermann Fol, um zoólogo suíço, olhando fixamente em seu microscópio, tornou-se a primeira pessoa a ver um esperma penetrar um óvulo, fertilizá-lo e formar a primeira célula do novo embrião”. Este retrato do esperma como a parte ativa – aquele que penetra e fertiliza o óvulo e produz o primeiro embrião – não é citado como exemplo de uma visão anterior e ultrapassada. Ao contrário, o autor reitera o ponto mais adiante no artigo: “Muitos espermas podem se ligar e penetrar a zona pelúcida, ou cobertura externa, de um óvulo de rata infertilizado, mas apenas um esperma se unirá com a fina membrana de plasma que envolve o óvulo propriamente (a esfera interior), fertilizando o óvulo e produzindo um novo embrião.”

As imagens do esperma como agressor são particularmente surpreendentes neste caso: a principal descoberta sendo reportada é o isolamento de uma molécula particular na cobertura do óvulo que cumpre um papel importante na fertilização! A escolha de linguagem de Wassarman sustenta o quadro. Ele chama a molécula que foi isolada de ZP3, um “receptor de esperma”. Assim atribuindo ao óvulo o papel passivo, do que espera, Wassarman pode continuar a descrever o esperma como o ator, aquele que faz tudo acontecer: “O processo básico começa quando muitos espermas primeiro atacam livremente e então se ligam tenazmente aos receptores na superfície na espessa cobertura externa do óvulo, a zona pelúcida. Cada esperma, que tem em sua superfície um grande número de proteínas ligantes ao óvulo, se liga a muitos receptores de esperma no óvulo. Mais especificamente, um lugar em cada uma das proteínas ligantes se encaixa num lugar complementar no receptor do esperma, assim como uma chave se encaixa numa fechadura.” Com o esperma designado como a “chave” e o óvulo como a “fechadura”, é óbvio que um age e o outro sofre a ação. Não poderiam essas imagens serem invertidas, deixando o esperma (a fechadura) esperar até que o óvulo produza a chave? Ou poderíamos falar de duas metades de um encontro de encaixe, e apreciar o encontro em si como a ação que inicia a fertilização?

É como se Wassarman estivesse determinado a fazer do óvulo o parceiro receptor. Usualmente, em pesquisa biológica, as proteínas membros do par de moléculas ligantes são chamadas de receptoras, e fisicamente elas têm um bolso que se parece com uma fechadura. Como mostra o diagrama que ilustra o artigo de Wassarman, as moléculas no esperma são proteínas e têm “bolsos”. As moléculas pequenas e móveis que se encaixam nesses bolsos são chamadas “ligands”. Conforme mostrado no diagrama, ZP3 no óvulo é um polímero de “chaves”; muitas pequenas maçanetas se projetam para fora. Tipicamente, as moléculas do esperma seriam chamadas receptoras, e as moléculas do óvulo seriam chamadas “ligands”. Mas Wassarman escolheu denominar ZP3 no óvulo receptor, e criar um novo termo, “a proteína ligante ao óvulo”, para a molécula do esperma a qual, de outra forma teria sido chamada a receptora.

Wassarman credita à cobertura do óvulo mais funções do que as de um receptor de esperma. Ao mesmo tempo em que ele observa que “a zona pelúcida tem sido vista por vezes por investigadores como uma obstrução, uma barreira para o esperma e assim um impedimento a fertilização”, sua nova pesquisa revela que a cobertura do óvulo “serve como um sofisticado sistema de segurança biológica que examina os espermas que chegam, seleciona apenas aqueles compatíveis com a fertilização e desenvolvimento, prepara o esperma para a fusão com o óvulo e mais tarde protege o embrião resultante da poliespermatização (uma condição letal causada pela fusão de mais que um esperma com um único óvulo)”. Embora esta descrição dê ao óvulo um papel ativo, este papel é reduzido em termos estereotipicamente femininos. O óvulo seleciona um companheiro apropriado, prepara-o para a fusão, e então protege o filho resultante do perigo. Isto é cortejo e comportamento de uma companheira segundo os olhos de um sociobiólogo: mulher como o prêmio difícil de ser obtido, a qual em seguida a união com o escolhido, se torna mulher como servidora e mãe.

E Wassarman não para aí. Num artigo de revisão para a Science, ele resume a “cronologia da fertilização”. Próximo do final do artigo há dois títulos de seção. O primeiro é “A Penetração do Esperma”, sob o qual Wassarman descreve como a química dissolvente da zona pelúcida combina com a “substancial força propulsiva gerada pelo esperma”. O segundo título é “A Fusão Esperma – Óvulo”. Esta seção descreve o que acontece dentro da zona após o esperma “penetrá-la”. O esperma pode fazer contato, aderir, e fundir (ou seja, fertilizar) o óvulo”. A escolha de palavras de Wassarman, novamente, é surpreendentemente favorável a atividade do esperma, pois no próximo pronunciamento ele diz que o esperma perde toda a mobilidade após a fusão com a superfície do óvulo. Nos óvulos dos ratos e ouriços do mar, o esperma entra na volição do óvulo, de acordo com a descrição de Wassarman: “Uma vez fundido com a membrana do plasma do óvulo (a superfície do óvulo), como um esperma adentra o óvulo? A superfície dos óvulos tanto das ratas como dos ouriços marinhos é coberta com milhares de projeções do plasma ligadas a membrana, chamadas microvilli (minúsculos cabelos). Evidência nos ouriços do mar sugere que, após a fusão da membrana, um grupo de microvilli alongadas se agrupam apertadamente e se entrelaçam com a cabeça do esperma. Na medida em que as microvilli são sugadas, o esperma é levado para dentro do óvulo. Portanto, a mobilidade do esperma, que cessa no momento da fusão tanto na rata como no ouriço do mar, não é requerida para a entrada do esperma”. A seção chamada “A penetração do esperma” seria seguida, mais logicamente, por uma seção chamada “O óvulo envelopa” do que “A fusão esperma óvulo”. Isto daria um sentido paralelo – e mais preciso – de que tanto o óvulo quanto o esperma iniciam a ação.

Uma outra forma pela qual Wasserman reduz a atividade do óvulo é pela descrição de componentes do óvulo enquanto se refere ao esperma como uma entidade inteira. Deborah Gordon descreveu tal abordagem como “atomismo” (“a parte é independente e primordial para o todo”) e a identificou como um dos “pressupostos persistentes” da ciência e medicina ocidentais. Wassarman emprega o atomismo em seu favor. Quando ele refere a processos que ocorrem dentro do esperma, ele consistentemente retorna a descrições que nos lembram de onde essas atividades vem: elas são parte do esperma que penetra um óvulo ou gera força propulsiva. Quando ele refere a processos que ocorrem dentro do óvulo, ele para aí. Como resultado, qualquer papel ativo que ele lhes atribui parece ser atribuído a partes do óvulo, e não ao óvulo em si. Na citação acima, é o microvilli que ativamente se agrupa em torno do esperma. Num outro exemplo, “a força propulsora da absorção de um esperma fundido vem de uma região do citoplasma imediatamente abaixo de uma membrana do plasma do óvulo”

Implicações sociais: Pensando além
Todos esses três relatos revisionistas do óvulo e esperma parecem não poder escapar das imagens hierárquicas dos relatos antigos. Muito embora cada novo relato dê ao óvulo um papel maior e mais ativo, apreciados juntos eles trazem a cena um outro estereótipo cultural: a mulher como uma ameaça perigosa e agressiva. No modelo revisado do laboratório John Hopkins, o óvulo termina como a fêmea agressora que “captura e prende” o esperma com sua zona aderente, assim como uma aranha aguarda em sua teia. O laboratório dos Schatten dispõe que o núcleo do óvulo “interrompe” o mergulho do esperma com uma corrida “súbita e rápida” pela qual ele segura o esperma e guia seu núcleo para o centro. A descrição de Wassarman da superfície do óvulo “coberto por milhares de projeções do plasma ligadas a membrana, chamadas micvrovilli” que alcança e segura o esperma endossa as imagens do tipo aranha.

Essa imagens atribuem ao óvulo um papel ativo, mas ao custo de parecerem indevidamente agressivos. Imagens de mulher como perigosas e agressivas, a fêmea fatal que vitima os homens, são largamente difundidas na literatura ocidental. Mais específica é a conexão das imagens de aranha com a idéia de mãe absorvente e devoradora. Novos dados não levaram os cientistas a eliminar os estereótipos de gênero de suas descrições do óvulo e do esperma. Ao contrário, os cientistas simplesmente começaram a descrever o óvulo e o esperma em termos diferentes, mas não menos danosos.

Podemos pensar numa visão menos estereotípica? A própria biologia fornece um outro modelo que poderia ser aplicado ao óvulo e ao esperma. O modelo cibernético, com seus ciclos de realimentação, adaptação flexível a mudança, coordenação das partes dentro do todo, evolução no tempo, respostas mutáveis ao ambiente – é comum em genética, endocrinologia, e ecologia e tem uma influência crescente na medicina em geral. Este modelo tem o potencial de deslocar nossas imagens do negativo, onde o sistema reprodutivo feminino é castigado tanto por não produzir óvulos após o nascimento e por produzir (e assim desperdiçar) ovos em demasia, para algo mais positivo. O sistema reprodutivo feminino poderia ser visto como respondendo ao ambiente (gravidez ou menopausa), ajustando às mudanças mensais (menstruação), e se alterando flexivelmente de reprodutor após a puberdade a não reprodutor mais tarde na vida. As interações entre o esperma e o óvulo poderiam também ser descritas em termos cibernéticos. A pesquisa de J. F. Hartman em biologia reprodutiva demonstrou quinze anos atrás que se um óvulo é morto por ser espetado com uma agulha, o esperma vivo não pode atravessar a zona. Claramente, esta evidência mostra que o óvulo e o esperma interagem em termos mais mútuos, tornando inconveniente a recusa da biologia em retratá-los dessa forma.

Faríamos bem em estarmos conscientes, no entanto, que as imagens cibernéticas não são neutras. No passado, modelos cibernéticos cumpriram uma parte importante na imposição do controle social. Estes modelos fornecem inerentemente uma forma de pensar sobre um “campo” de componentes interativos. Uma vez que o campo pode ser visto, ele pode se tornar o objeto de novas formas de conhecimento, o que por sua vez pode permitir novas formas de controle social a serem exercidas sobre os componentes do campo. Durante os anos 50, por exemplo, a medicina começou a reconhecer o ambiente psicossocial do paciente: a família do paciente e sua psicodinâmica. Profissões tais como o serviço social começaram a focar sobre este novo ambiente, e o conhecimento resultante tornou-se um modo de controlar mais o paciente. Pacientes começaram a ser vistos não mais como corpos individuais isolados, mas como entidades psicossociais localizadas num sistema “ecológico”: a administração da “psicologia do paciente foi uma nova forma de controle do paciente.”

Os modelos que os biólogos usam para descrever seus dados podem ter importantes efeitos sociais. Durante o século dezenove as ciências sociais e naturais influenciaram fortemente uma a outra: as idéias sociais de Malthus sobre como evitar o crescimento natural do pobre inspiraram A Origem das Espécies de Darwin. Uma vez que a Origem se colocou como uma descrição do mundo natural, completa com competição e lutas de mercado, ela pode ser reimportada pela ciência social como o Darwinismo social, no objetivo de justificar a ordem social. O que estamos vendo agora é similar: a importação de idéias culturais sobre fêmeas passivas e machos heróicos pelas “personalidades” dos gametas. Isto significa “implantar imagens sociais sobre representações da natureza de forma a estabelecer uma base firma para reimportar as mesmas imagens como explicações naturais de fenômenos sociais.

Mais pesquisa nos mostraria exatamente quais efeitos sociais estão sendo trabalhados a partir das imagens biológicas do óvulo e do esperma. No mínimo, as imagens mantêm vivas alguns dos estereótipos mais antigos sobre as fracas donzelas angustiadas e seus fortes machos salvadores. Que estes estereótipos estejam agora sendo escritos ao nível da célula constitui um movimento poderoso para fazê-los parecer tão naturais que sejam imunes a alteração.

As imagens estereotípicas podem também encorajar pessoas a imaginar que o que resulta da interação entre o óvulo e o esperma – um óvulo fertilizado – é o resultado de uma ação “humana” deliberada no nível celular. Independentemente das intenções do casal humano, nesta “cultura” microscópica uma “noiva” celular (ou fêmea fatal) e um “noivo” celular (sua vítima) fazem um bebê celular. Rosalind Petchesky aponta que através de representações visuais tais como os as imagens ultrassônicas, temos acesso a “imagens de fetos cada vez mais novos e cada vez menores sendo ‘salvos’.” Isto leva ao “ponto de visibilidade ser ‘empurrado para trás’ indefinidamente”. Dotar os óvulos e espermas de ação intencional, um aspecto chave da pessoalidade em nossa cultura, estabelece as fundações para o ponto de visibilidade ser empurrado para trás até o momento da fertilização. Isto, provavelmente, levará a uma maior aceitação dos desenvolvimentos tecnológicos e a novas formas de investigação e manipulação, para o benefício dessas “pessoas” internas: restrições legais às atividades de mulheres grávidas para proteger seus fetos, cirurgia fetal, amniocentesis, e revogação dos direitos de aborto, para citar uns poucos exemplos.

Mesmo que tenhamos sucesso em substituir metáforas mais igualitárias e interativas para descrever as atividades do óvulo e do esperma, e consigamos evitar os perigos dos modelos cibernéticos, ainda estaríamos culpadas de dotar entidades celulares com pessoalidade. Mais crucial do que os tipos de personalidade que estamos outorgando às células é o próprio fato de estarmos fazendo isso. Este processo pode vir a ter conseqüências sociais profundamente danosas.

Um claro desafio feminista é acordar metáforas adormecidas nas ciências, particularmente aquelas envolvidas em descrições do óvulo e do esperma. Embora a convenção literária seja chamar tais metáforas de “mortas”, elas não estão mais mortas do que adormecidas, escondidas dentro do conteúdo científico de textos – e muito poderosas para ele. Acordar tais metáforas, tornando-nos conscientes de quando nós estamos projetando imagens culturais sobre o que estudamos, melhorará nossa capacidade de investigar e entender a natureza. Acordar tais metáforas, tornando-nos conscientes de suas implicações, as furtará de seu poder de naturalizar nossas convenções sociais sobre gênero.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

VIVENDO NUMA FAMÍLIA RECOMPOSTA (O MEU TESTEMUNHO, NA PERSPECTIVA DE MÃE)

Passo do testemunho de uma filha que viveu afastada dos pais, para o testemunho de uma mãe que vive afastada da filha.

Desde já, quero dizer que, apesar do que se passou entre mim e o meu ex, e de ter sido eu a pô-lo porta fora, fui também eu quem deu o primeiro passo com vista a uma reconciliação. A minha filha mais velha merecia uma família, merecia ter um pai e uma mãe.

Os amores à primeira vista e as grandes paixões são, para mim, coisa de filmes. O amor constrói-se. Não podemos dá-lo por perdido à primeira dificuldade.

Eu dei, pois, o primeiro passo. Ele, simplesmente, não aceitou.
E talvez tenha sido o melhor.

Hoje eu tenho um novo companheiro. E uma outra filha, desta nova união.
Que merece, como toda a criança, ter um pai e uma mãe. Ali, ao pé dela.

E a mais velha, nesta nova família?

Pois, por melhor pessoa que seja este meu novo companheiro, ela sente-se -sei disso, embora não mo diga- meio desfazada. Para ela, a irmã (que ela adora, tanto mais que é a sua única irmã) tem nesta nova família um lugar priveligiado. Porque é, de facto, a sua família, sendo que eu sou a mãe e o meu companheiro é o pai. Ela sente que a irmã é priveligiada até mesmo em relação a mim, porque vive comigo, recebe os meus cuidados todos os dias, e ela não.

Perguntai a essas crianças e a esses jovens o que eles sentem nessa sua nova família -ou mesmo nas duas,quando são ambos os pais a refazer a vida- onde ele deixa de ter esse lugar priveligiado, sobretudo se há filhos dessa nova união. Pode a madrasta, ou padrasto, ser um amor de pessoa, que isso não muda o seu sentimento.

Ainda há dias vi um documentário que se intitulava "Ma belle-mère: quel enfer", e um dos miúdos, salvo erro o mais velho, dizia que ela não demonstrava o mesmo amor por eles como o amor que demonstrava para com os seus próprios filhos. Nos tempos em que estavam com a mãe (fins de semana e férias), eles eram mais espontâneos. Um deles gostava mesmo de dormir com a mãe, porque, dizia ele, "ça sent maman!"

Não é fácil ser madrasta, bem sei, ainda para mais quando se tem uma data de crianças em casa. Esta madrasta era, por isso, uma mulher de pulso, capaz de se fazer respeitar e de pôr ordem na casa. Masmo a mãe dos miúdos reconhecia que, embora fosse de um feitio completamente diferente do seu, a madrasta era uma pessoa de carácter, e, sempre que os miúdos se queixavam dela, que os havia castigado ou coisa assim, a mãe respondia-lhes de imediato que se ela o fizera, teria tinho certamente razão para o fazer.

O que esta madrasta procurava, no fundo, era uma prova do amor destes seus outros "filhos". E teve-a, pois os miúdos compuseram-lhe uma canção, tipo tropa (era uma madrasta realmente autoritária), reconhecendo que, apesar da sua dureza, ela era justa.

Gostei de ver.
Ficou-me a imagem de miúdos que procuravam, na medida do possível, enquadrar-se numa família que não é a que eles sonharam (o pai e a mãe juntos) e de uma madrasta com a dura prova de se fazer amar por aqueles que não eram seus filhos, tal como se ama uma mãe. Uma madrasta consciente de que não era ela a mãe, mas que tinha de agir como tal.

Uma obra que me enche de curiosidade e que, se calhar, hei-de ir buscar à biblioteca, é o livro de Laura Kasischke EN UN MONDE PARFAIT.

Ora leiam o resumo:

Le monde parfait selon Laura Kasischke
Par André Clavel, publié le 15/10/2010 à 14:00

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Les confessions d'une hôtesse de l'air qui se sacrifie pour élever les enfants de son mari.

Sur la confusion des sentiments et les tempêtes intérieures, Laura Kasischke (née en 1961) en sait long, très long. Comme Joyce Carol Oates, cette romancière recluse au fond du Michigan plonge ses griffes de fouine dans les désordres affectifs de la middle class américaine, pour dévoiler toutes sortes de fêlures derrière les belles vitrines de l'harmonie et de la réussite. "Je suis très intriguée, dit-elle, par ce que cache l'existence des gens lorsqu'elle est trop rationnelle et trop lisse. Que peuvent bien dissimuler ces visages qui se ressemblent tous ?" La réponse fait peur, quand on lit Laura Kasischke, car elle ne cesse de mettre en scène des femmes apparemment bien rangées, mais sacrément dérangées. Comme si, avec leurs tailleurs impeccables, ces sosies d'Emma Bovary dansaient sur des volcans - un cocktail de frustrations, de chagrins invisibles et de nausées silencieuses.

Dans son précédent roman, La couronne verte (traduit en 2008 chez Christian Bourgois), l'Américaine raconte une histoire d'abord enchantée, mais qui vire brutalement au sordide : deux lycéennes en goguette s'envolent vers l'éden mexicain sans savoir qu'elles ont rendez-vous avec le diable, au pied des pyramides mayas... Nouvelle exploration de l'univers féminin, En un monde parfait est la confession d'une hôtesse de l'air - Jiselle - qui vient d'épouser le beau Mark, veuf et père de trois enfants. Elle les élèvera en se sacrifiant tandis que son mari, éternel fugueur, s'absente de plus en plus souvent de ce foyer où elle n'a qu'un seul rôle - celui de la nounou dévouée. C'est l'histoire d'une femme désemparée, abandonnée, que raconte l'auteur de La vie devant ses yeux, dans une Amérique qui tremble à son tour parce qu'elle est menacée par une mystérieuse épidémie... Le monde que décrit Laura Kasischke est aussi parfait que la coque du Titanic : rendez-vous avec le naufrage.

FONTE: http://www.lexpress.fr/culture/livre/en-un-monde-parfait_927578.html





REPARAI BEM NA ÚLTIMA FRASE DESTE TEXTO:

"LE MONDE QUE DÉCRIT LAURA KASISCHKE EST AUSSI PARFAIT QUE LA COQUE DU TITANIC: RENDEZ-VOUS AVEC LE NAUFRAGE"


recados para orkut

Nunca foram tão lindos os recados de Titanic


Exactamente o que eu penso.

Falando de um outro assunto, querem saber a melhor?
Conto-vos amanhã.

RECUSO-ME A SER BARRIGA DE ALUGUER!!!!!!!!!!!!!


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